Insatisfeitos com PT, deputados do PMDB podem dar trabalho nas próximas votações
Dias seguidos de duras batalhas entre o Congresso e o Palácio do Planalto deram ao governo uma importante vitória, com a aprovação da MP dos Portos, mas deixaram expostas as fissuras na relação do PT com o principal partido da base aliada, o PMDB. As discussões durante a madrugada de quinta-feira, quando deputados petistas chegaram a afirmar que o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), estaria contribuindo com a oposição, são resultado de um processo de desgaste que começou quando Dilma Rousseff tomou posse e que chega agora a um momento crítico. Parlamentares da base aliada dizem que a crise vem crescendo à medida que as eleições de 2014 se aproximam, mas ninguém hoje com poder no PMDB cogita abandonar a chapa presidencial em 2014.
Mas a grande dúvida é se os deputados federais colocarão de fato o time em campo para ajudar a reeleição de Dilma. E quanto de trabalho ainda darão ao governo nas próximas votações importantes da Câmara. O motivo principal de queixa é um só: os deputados peemedebistas temem que a falta de apoio do governo prejudique suas candidaturas à reeleição. Ou seja, trata-se de uma questão de sobrevivência. Foi por isso que se fez muito barulho nas votações das madrugadas.
Queixas contra políticas públicas diretas
A reclamação não é mais apenas pelo fato de o governo não liberar as emendas parlamentares aprovadas no Orçamento da União que os deputados destinam às bases eleitorais. O novo foco de crise é a decisão do Planalto de estabelecer políticas públicas diretas com os municípios, que, dispensam a intermediação dos parlamentares.
Exemplos citados por deputados são as entregas de ônibus escolares e máquinas agrícolas a prefeituras do interior feitas pela própria Dilma. Usualmente, eles usam parte de suas emendas para destinar o maquinário para suas cidades, e, agora, acusam o governo de fazer a destinação e, pior, de só avisar aos políticos do PT para que eles faturem politicamente. Após o PMDB perder 15% de suas prefeituras nas eleições do ano passado, o temor é que o mesmo aconteça com a bancada federal:
— Há uma preocupação de que 2012 seja um trailer do filme que se aproxima em 2014. Só que em 2014 o que está em jogo é o futuro de cada um. Se cair de 80 para 60 (deputados), a preocupação é quem serão esses 20. O projeto de poder do PT é hegemônico, e ele tem mecanismos como informação, verba e ministérios que o PMDB não tem. Cabe à presidente bater na mesa e dizer que quem vai sofrer é a família toda — cobra o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).
O cenário no Senado é menos dramático. Como os principais senadores peemedebistas comandam nacos importantes do governo e apenas um terço dos parlamentares terá de disputar eleição no próximo ano, as reclamações são menores. Ex-líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), avalia:
— A base do governo sai unida aqui no Senado. A coordenação política do Planalto precisa trabalhar a base da Câmara, é importante fortalecer a união.
O senador Humberto Costa (PT-PE), segue a mesma linha:
— A coisa foi na Câmara mesmo. Não identifico nenhum problema no Senado com o PMDB. Pelo contrário, o PMDB no Senado até entrou em conflito com o partido na Câmara por causa das dificuldades que estava colocando para votar a MP. Agora, precisa de um tempinho para deixar a poeira baixar e ter um pouco de conversa, para que isso não tenha maior repercussão.
Sem retaliações a Eduardo Cunha
Articuladores no Planalto trabalham para curar as feridas da recente guerra e a própria presidente Dilma pôs a mão na massa para executar a tarefa. A estratégia é afagar o partido, prestigiando o vice-presidente, Michel Temer, e os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Renan Calheiros (PMDB-AL), no papel de interlocutores privilegiados do governo.
É uma promessa de tentar reduzir uma das principais queixas dos aliados, que só cresceu desde a posse de Dilma: a de que os políticos não são ouvidos pelo Planalto e de que falta habilidade na articulação política. Com a proximidade das eleições de 2014 e matérias importantes a serem votadas no Congresso até lá — como o código da mineração, reformas no ICMS e no PIS-Cofins —, a avaliação no governo é de que não há mais espaço para estremecimentos na relação com o PMDB.
Nesse raciocínio, o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), que comandou o movimento rebelde na Câmara durante a votação da MP dos Portos, deverá ser poupado de retaliações. O Planalto respirou aliviado na noite de quinta-feira, após a aprovação da medida, pela avaliação de que, se o governo tivesse perdido, Cunha teria se tornado a figura mais importante do Congresso, e aumentaria exponencialmente a fatura a ser cobrada em cada votação.
Mas há uma preocupação em não transformar o deputado em mártir. Por isso, em reunião na mesma noite, Dilma determinou a ministros e auxiliares que a página fosse virada, e proibiu o discurso de que Cunha seria retaliado com perda de cargos que apadrinhou em estatais. Foi um recado para tentar distensionar a relação com o líder do PMDB na Câmara. Nesta reunião, um ministro resumiu: “Nós sabemos que ganhamos e ele sabe que perdeu; não podemos tripudiar”.
No PT, o clima é de desconfiança crescente em relação ao mais importante aliado. Durante a votação de quinta-feira, chegou-se a ouvir gritos de “Fora PMDB” no plenário da Câmara, mesmo com o esforço dos dois presidentes do Congresso em entregar a mercadoria para o Planalto.
Mas, em evento nesta sexta-feira em que o PT comemorou os 10 anos de governo, o presidente do partido, Rui Falcão, minimizou as discussões entre os partidos:
— Quando há votações muito polêmicas, que se estendem pela noite, sempre há tensão. A gente não faz política por uma frase mais alta ou por uma fala fora do contexto.
Depois que acionou o trator governista e aprovou a MP em poucas horas no Senado, Renan cresceu na cotação do Planalto. Nesta sexta-feira, ele dava o tom dos discursos dos dirigentes do partido:
— O importante foi o resultado e não podemos generalizar o clima de embate, porque são correntes dentro dos dois partidos.
Fonte: O Globo