Para Todos os Garotos que Já Amei | OPINIÃO – SEM SPOILERS

PARA TODOS OS GAROTOS QUE JÁ AMEI

(To All The Boys I’ve Loved Before)

Por: Allan Patrick

Apaixonantes, intermináveis e repetitivas, são adjetivos que marcam o universo das comédias românticas, risos e lágrimas se misturam em narrativas que usam e abusam da inesgotável busca pelo amor, lógico, sempre acompanhada de um clima de autodescoberta. Não importa qual a idade ou geração do público, homens e mulheres são partes desse processo, que emociona e diverte audiências no mundo todo, constrói altos níveis de devaneios em adolescentes e aquece os corações com a esperança de que não há solidão emocional que perdure. Aqui, gente como Nancy Meyers nos presentea com um belo subgênero onde mulheres maduras estão em evidência. Mas o que emplaca o romance juvenil é o clichê “garota, encontra garoto”, que nesta produção ganha novos ângulos de visão, sob o olhar de Jenny Han, a escritora de “jovens adultos” ao lado de Meg Cabot, que trouxeram uma sensível abordagem para um formato tão comum. E pelas mãos empreendedoras da Netflix, Han pode ver tudo que idealizou nas entrelinhas do papel, saltarem das páginas, com a bem-vinda comédia romântica “Para Todos os Garotos que Já Amei”.
O que mais se destaca nessa produção segundo alguns depoimentos, é a forma de como a produção segue a estrutura original do livro, lógico, com as ressalvas de qualquer obra adaptada, e a grande diversidade que encontramos aqui. Trazendo para tela um leve toque das décadas de 90 e 2000, com a assustadora falta de discrepância sociocultural e racial das produções. Podemos citar clássicos amados como “10 Coisas Eu Odeio em Você” (1999), “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (1997), “Ela é Demais” (1999), “Vestida Para Casar” (2008) e a “Verdade Nua e Crua” (2009) que traduzem uma verdade inconveniente. Salve as exceções de filmes onde o elenco é essencialmente negro, como “Pense como Eles”, a ausência de personagens principais multirraciais é de dar vergonha. Jenny Han corrige o erro que há tempos está presente, fazendo de Lara Jean a protagonista que tanto torcíamos para ver no cinema. De origem asiática, ela é ainda mais representativa, fruto de um casamento interracial, onde encontramos culturas separadas de continentes diferentes que consolidam a união e acalento de um verdadeiro lar, uma família comum, mas absolutamente representativa.
Lara Jean consome seus dias em romances impressos em paperback, que exalam virilidade masculina e o complexo do amor proibido com mulheres belíssimas, sensuais e misteriosas. Construindo seu idealismo romântico a partir das experiências imaginativas da ficção, ela é o reflexo de décadas passadas da juventude, onde a inocência e a delicadeza do amor verdadeiro permeavam as mentes de garotas que só queriam ser correspondidas com pureza e carinho. Com uma sensibilidade que chega a ser extravagante, em tempos de hiper sexualização juvenil, essa comédia romântica da Netflix é o sopro de vigor que o subgênero tanto precisava, resgatando o que mais amávamos quando éramos adolescentes. Sob a grata atuação de Lana Condor, somos ainda mais hipnotizados por essa jovem atriz vietnamita, que estreia com o pé direito em Hollywood provando uma vez mais o quanto o gênero precisa abrir seus olhos para novos talentos além das fronteiras intercontinentais.
Na trama encontramos o que era a inocência de outrora, colidindo com o realidade liberal da atualidade, a comédia está repleta de referências oitentistas, resgata os clássicos de John Hughes com saudosismo e respeito e conta com uma trilha sonora maravilhosa, fazendo de “Everybody Wants to Rule The World”, de Tears for Fears, uma canção quase nova de tão relevante que é dentro dessa encantadora história. E nessa atmosfera, Lara Jean coleciona cartas românticas, escritas por ela mesma, aos seus amores platônicos. Como uma espécie de desabafo emocional, ela recita seus sentimentos abertamente, arquivando-os em uma singela caixa, que misteriosamente some, fazendo com que todos os garotos recebam a revelação máxima de seus sentimentos até então secretos. O conflito principal é cercado por uma dinâmica familiar extasiante, em que um pai viúvo John Corbett tenta lidar com suas três filhas em fases distintas da vida, se apoiando na sabedoria da esposa e em seu amor paterno incondicional.
Com a direção de Susan Johnson, “Para Todos os Garotos que Já Amei” possui uma narrativa que a partir da divulgação inesperada das cartas de amor, molda o caráter de seus personagens. Inicialmente apresentados pela ótica de Lara Jean, Peter Kavinsky (Noah Centineo) e Josh Sanderson (Israel Broussard) ganham suas características próprias, ajudando a construir a comédia romântica que de acordo que se desenha entre os inúmeros pensamentos da protagonista, ganha vida, centrando-se na fundamental autodescoberta que a juventude tanto anseia. E entre encontrar o primeiro amor e sua real identidade, a produção original da Netflix se consolida com uma delicadeza comovente, fazendo da sensibilidade e doçura os diferenciais em um emaranhado de comédias românticas onde o sexo parece ser a única coisa de valor em tempos tão modernos como o nosso. Minha nota 9,0!

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