‘Congresso virou a Geni’, diz Gustavo Fruet, prefeito de Curitiba

Prefeito de Curitiba derrotado na última eleição, Gustavo Fruet (PDT) criticou em entrevista à Folha a criminalização da política e disse que “o Congresso virou a Geni”.

Para o ex-deputado federal, que já foi do PSDB e integrou a CPI que investigou o mensalão, o fato de o Congresso ter perdido o protagonismo “é perigoso para a democracia” e tensiona debates necessários ao país.

Alvo de críticas por ter feito poucas obras, Fruet ficou de fora do segundo turno e atribuiu sua derrota também à “insatisfação sem precedentes” da população.

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Folha – O que o levou a perder a eleição em Curitiba?

Gustavo Fruet – São vários fatores. Alguns locais, outros não. A crise econômica, por exemplo, afetou o humor da população. Há uma compreensível insatisfação. Mas isso levou ao grande problema da política brasileira: criminalizou e generalizou a política.

Há um grau de intolerância sem precedentes e transferência de expectativas e de legitimidade para outras instituições: a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário.

O teto de gastos públicos pode ajudar nesse cenário?

Não, porque é conjuntural. Se a PEC estabelece um limite, para onde vai a pressão? Para a prefeitura. Adianta explicar que tem uma PEC que estabelece um limite de gastos?

Se o sr. fosse deputado, então, votaria contra a PEC?

Não, é preciso haver ajustes. O problema é que a gente não está fazendo política no Brasil. A gente está discutindo cada vez mais a nova fase da operação, quem vai ser preso… O Congresso virou a Geni, a instituição maldosa. E, do outro lado do pêndulo, não há questionamento.

Quem é o outro lado do pêndulo? O Ministério Público?

Várias instituições. Elas fazem um papel importante. Mas hoje é muito difícil qualquer questionamento a elas. Porque se desgastou profundamente a política.

O impacto disso para a democracia é muito ruim. O Congresso está perdendo força no diálogo com a sociedade. De todos os poderes, o Congresso é o mais representativo. É um dos poucos lugares onde a minoria se expressa.

O quanto a Lava Jato pesou?

Ela contribui para esse sentimento de insatisfação. Mas foi um processo; a crise da política não é de hoje. Como sair disso? Aí é que há espaço para o discurso fácil. É uma ilusão pensar que a política vai ser feita só com escoteiro, freira e pastor. Não dá para imaginar que a gente vai santificar a política.

O protagonismo das outras instituições é perigoso?

Não é perigoso. Mas vai ocupando uma lacuna. Eu insisto, não é questionamento ao trabalho dessas instituições. Mas são tempos diferentes. Veja o exemplo do debate da anistia [ao caixa dois]. Olhe o bombardeio. Os três presidentes, num domingo, tiveram que dar entrevista para dizer que não iriam aceitar a anistia. O Congresso vai ficando muito mais na defensiva do que na iniciativa. Isso não é bom para a vida política.

Mas diante dos casos de corrupção revelados na Lava Jato, não era natural que isso acontecesse? Não há motivos para o descrédito?

Sim, claro. O que me preocupa é a generalização. Eu vejo pessoas vocacionadas se afastando da vida pública. Há um distanciamento e falta de sintonia com boa parte da sociedade. É um desafio romper essa lógica do bem contra o mal. E essas votações [como a das dez medidas e anistia ao caixa dois] reforçam o distanciamento.

Qual será seu futuro político?

Ainda não sei. Nos três primeiros meses, vou ficar quieto. Vai ser um período pessoal de oxigenação. Eu gosto de política, faço com paixão, mas é um momento de profunda reavaliação. Daqui a um ano, eu avalio.

Fonte: Folha de São Paulo

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