Tancredi: “Privatizar Cosanpa é abrir mão de maior reserva de água doce do mundo”

Os precários serviços prestados pela Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa) aos moradores de Santarém e demais municípios a qual detém a concessão pública de água e esgoto, está sendo utilizado como principal argumento para a privatização da estatal. Para a maioria da população, que sofre as consequências negativas da falta de saneamento, a venda da Companhia para iniciativa privada representa a oportunidade de dias melhores.

Em contrapartida, os trabalhadores da estatal dizem que o processo de precarização estabeleceu-se de forma planejada pelo governo estadual, a fim de fortalecer a justificativa para concretizar a desestatização. Citam por exemplo, que a presidência da Cosanpa sempre foi ocupada por indicação política, e nunca um servidor de carreira da estatal esteve à frente da gestão.

Atinente a esse debate, o professor e pesquisador Antônio Tancredi, nas páginas do Jornal O Impacto, traz à tona um aspecto muito relevante. De acordo com ele, a privatização da Cosanpa deve ser tratada de forma cuidadosa, não somente observando o aspecto financeiro. Para o especialista, o que está em jogo é a utilização indevida do Aquífero Alter do Chão, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta.

“O Aquífero Alter do Chão tem um potencial muito grande para ser privatizado, primeiro que a água subterrânea é um bem comum que é indispensável a qualquer atividade; a água subterrânea além de ser um importante recurso é fundamental para o meio ambiente e sua renovação. No caso de uma empresa particular explorar as águas subterrâneas, ela provavelmente visaria mais lucro e menos proteção”, diz o pesquisador.

Sem a devida atenção, a privatização da estatal pode abrir espaço para que grandes multinacionais do ramo, como por exemplo, as francesas Suez e Veolia, que já operam no Brasil, tenham acesso a um dos maiores patrimônios de recursos naturais do País, e do planeta.

Segundo Antônio Tancredi, antes de qualquer ação do homem que possa intervir drasticamente no Aquífero Alter do Chão, que ele afirma ser “o aquífero mais importante do mundo”, o estudioso orienta que tudo seja realizado com o devido planejamento. No início da década de 90, ele esteve em Santarém, realizando estudos a cerca do manancial.

“Meu trabalho principal foi o estudo de águas subterrâneas da região de Santarém, de maneira geral o principal aquífero dessa região é a formação Alter do Chão. Nesse estudo foi avaliado o potencial de águas subterrâneas incluindo qualidade da água, vulnerabilidade, reserva e custo de exploração, é um estudo muito amplo. Todos os itens foram desenvolvidos, a qualidade da água daqui é muito boa, não necessita de tratamento algum para distribuição; em relação à vulnerabilidade da água subterrânea os lençóis são bem protegidos e têm grande produtividade; os custos são relativamente baixos devido à grande produtividade do aquífero; a reserva de água nessa região apresentou o valor de 86,78 bilhões de metros cúbicos numa área de 900 quilômetros quadrados. Os estudos comparativos do custo da água subterrânea com o custo da água superficial evidenciaram que o custo da água subterrânea representa 42,5% do custo da água superficial de Manaus, por exemplo. O custo de água subterrânea é sempre mais baixo porque ela se encontra naturalmente protegida, as reservas dessa água são relativamente grandes e menos afetadas pelas sazonalidades; os custos de captação em ralação à água superficial são menores por dispensarem a construção de obras como barragens, adutoras, e estações de tratamento; o prazo para a construção de um poço é de uma a duas semanas, enquanto que uma grande obra para água superficial leva muitos meses e às vezes muitos anos. Outro fator interessante é que a construção de um poço pode ser escalonada, à medida que aumenta o consumo podem ser feitos outros poços de captação subterrânea; a água subterrânea é acessível no meio urbano, rural e não ocupa grandes áreas como barragens e outras obras de água superficial”, explica Tancredi.

Reservas subterrâneas de água tem grande vantagem em relação à captação de águas superficiais, uma vez que não precisam de grandes investimentos para captação, e nem tratamento, pois é de melhor qualidade.

“A água superficial tem muitas bactérias, então, ela precisa de um tratamento, ela é muito vulnerável à poluição. A água subterrânea não, os poços com mais de 150m de profundidade estão muito bem protegidos. Em um dos estudos que foi feito aqui em Santarém sobre o custo de águas subterrâneas, analisou-se poços de 50 a 300 metros; os poços de 50 a 100 metros custam menos, quanto menor a profundidade menor o custo do poço, menor o custo das bombas, menor o custo da instalação, à medida que aumenta a profundidade aumenta o custo do poço, o custo das instalações, o custo da bomba, mas diminui o custo da água subterrânea, pois os poços profundos produzem muito mais água que os poços de menor profundidade”, expõe o estudioso, acrescentando as potencialidades da mega reserva de água potável. “Nós temos aqui esse grande aquífero, a formação Alter do Chão que tem um potencial colossal de água subterrânea e é um grande patrimônio que possuímos e temos que proteger. Os estudos recentes feitos pela Agência Nacional de Águas, mostram as dimensões do aquífero, esses estudos ainda não foram publicados, mas devem sair brevemente. Com certeza, quando esse estudo estiver concluído, mostrará que o aquífero Alter do Chão é maior que o aquífero Guarani, e talvez seja um dos maiores do mundo; ele aflora aqui na região do Pará e do Amazonas, coisa de 500 mil quilômetros quadrados, após isso ele é recoberto por outra formação, a formação Solimões, e vai até a Bolívia e o Peru. A formação Alter do Chão atinge mais de 1.200 metros de espessura e dessa, 80% são mananciais de água subterrânea. Aqui na região como nós temos muita água, não sentimos o problema da seca, mas em outras regiões a água tem uma importância muito grande, creio mais tarde vamos ter essa consciência. Ela pode ser utilizado para abastecimento humano, para irrigação agropecuária, lazer, criação de peixes, indústria entre outras atividades. Realmente estamos numa região de grande potencial de águas superficiais e águas subterrâneas”, concluiu Antonio Tancredi.

PESQUISADOR: Antônio Carlos Tancredi, natural do município de Juruti, estado do Pará, trabalhou como professor e pesquisador em importantes instituições científicas brasileiras, como por exemplo, Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará (Idesp) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), possui doutorado em Geologia e Geoquímica (Hidrogeologia) pela Universidade Federal do Pará. Tem experiência na área de Geociências, com ênfase em estudos hidrogeológicos regionais na ilha de Marajó e em pesquisas hidrogeológicas detalhadas para água mineral na região metropolitana de Belém, Marabá e Santarém (PA), Macapá (AP), São Luís (MA) e Manaus (AM).

Acompanhe a entrevista completa na TV Impacto. acessando www.oimpacto.com.br.

Por: Edmundo Baía Júnior

Fonte: RG 15/O Impacto

 

3 comentários em “Tancredi: “Privatizar Cosanpa é abrir mão de maior reserva de água doce do mundo”

  • 13 de janeiro de 2017 em 18:16
    Permalink

    AMIGOS, VOU DISCORDAR, A ÁGUA DO AQUÍFERO ALTER DO CHÃO NÃO PERTENCE A COSANPA, VÃO PRIVATIZAR A EMPRESA O SUBSOLO PERTENCE A UNIÃO.

    Resposta
  • 13 de janeiro de 2017 em 10:33
    Permalink

    Perigo privatizar? Perigo é nunca ter água na torneira, morando em cima de um aquífero ! Tem que administrar direito e depois colocar hidrômetro em todas as residências, que hoje pagam apenas uma taxa mínima !

    Resposta
  • 12 de janeiro de 2017 em 21:15
    Permalink

    Nada haver. O que deve ser privatizado é a captação e distribuição para o perímetro urbano do município, é fazer isso e em menos de ano acaba o problema da falta de agua. O pessoal dos Emirados Árabes controlam a distribuição de água em várias cidades do Mato Grosso e até em Novo Progresso aqui mesmo no oeste do Pará, Não falta água. Em Sinop no Mato Grosso uma denuncia de cano quebrado é iniciado o concerto em menos de DUAS horas, comparando, na Avenida Santos Dumont, próximo a Turiano Meira ano passado um vazamento ficou mais de 3 meses jorrando agua.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *