Narciso Sena: “Von não contribuirá em nada na Cosanpa”

Diretor do Sindicato de Urbanitários do Pará diz que indicações políticas deixaram a Companhia sucateada.

“Não tenho nada contra o ex-Prefeito, pelo contrário, eu o respeito, mas tecnicamente não vai contribuir em nada conosco, não irá resolver o problema”, assim expressou Narciso Sena, sobre a possibilidade do ex-prefeito de Santarém, Alexandre Von, assumir a presidência da Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa). Narciso que é diretor do Sindicato dos Urbanitários do Estado do Pará e funcionário da estatal, acrescenta: “A Cosanpa está do jeito que está porque a sua direção foi ocupada por cargos políticos, se formos analisar hoje quem compõe a diretoria da empresa, só há um funcionário de carreira que é um técnico da área de saneamento, um engenheiro que temos lá, o restante é de indicações políticas. Pode até ter muito boa vontade mas o indicado tem de ter conhecimento mínimo sobre o serviço de saneamento.Na minha humilde opinião, creio que não resolverá o problema da Cosanpa, ao contrário, corre o risco de piorar ainda mais a questão do serviço”.

De acordo com Sena, o problema na Companhia é má gestão e falta de investimentos. Diferentemente de outras regiões do País, onde existe escassez de água, em nossa região, o recurso natural é abundante.

“Temos afirmado em todos os nossos debates que em Santarém, é até brincadeira alguém dizer que falta água. Em Santarém não pode faltar água, aqui tem o encontro de dois rios, os mais importantes da Bacia Amazônica; o gerenciamento da água é o que não temos, nisso precisamos ser sinceros. A quantidade de água que a Cosanpa capta de água seria suficiente para abastecer a cidade, mas na infraestrutura a perda que nós temos no decorrer da distribuição chega ao absurdo de quase 60%; a Cosanpa fatura R$ 1 milhão e arrecada R$ 300, R$ 400 mil, porque ela tem perdas, e essas perdas são provocadas devida a precariedade da rede; tem rede com mais de 30 anos com vazamento para todo lado. Nós não temos capacidade hoje para refazer essa estrutura, o que falta para nós é investimento, capacidade técnica a Cosanpa tem! A Cosanpa é uma empresa pública que requer um investimento público, não posso falar em saneamento se eu não investir em saneamento. Hoje em dia tem a proposta de privatização, mas quem vai fazer o investimento no privado será o público, quem vai investir na empresa que tocaria a Cosanpa será o BNDES, é dinheiro meu, é dinheiro seu, é dinheiro da população! Ou seja, nós vamos deixar de investir na gente e vamos financiar o privado para ganhar dinheiro pra gente; vamos montar toda infraestrutura para ele (setor privado) vir gerenciar. Por que não se monta toda a infraestrutura e se entrega na mão do setor público para continuar gerenciando? Sabemos muito bem qual é o interesse do privado, o único interesse é a lucratividade! De forma alguma o privado terá interesse no social.
A tarifa de água na Cosanpa está sendo praticada, posso estar equivocado, a faixa de R$ 1,70 o metro cúbico de água; se percorrermos o Brasil todo, veremos que é uma das menores tarifas do Brasil; nas empresas privadas do Brasil o preço da tarifa de água será 5 ou 6 vezes maior! Aqui próximo, em Manaus, o preço da tarifa do metro cúbico de água lá é R$ 5,70, por aí se vê a relação Público e do Privado. Em uma entrevista de um funcionário da companhia de água do Amazonas, aqui em Santarém, ele disse que se arrependimento matasse, ele estaria morto; na época eles apostaram na privatização e se arrependeram depois, pois na realidade não houve melhoria. Em 2006 saiu o relatório do observatório do ministério das cidades e Manaus não cresceu nem 1% sequer na melhoria de tratamento de esgoto e no abastecimento de água, continuou na mesma, teve um desempenho pior ainda em relação ao Pará, e lá é investimento privado! Outro grande exemplo de privatização em Manaus é a administração dos presídios, olha a situação em que está agora!
PRIVATIZAÇÃO: Para o sindicalista, a venda da Cosanpa para iniciativa privada é um retrocesso, pois, exemplo vários municípios do País, demonstram que o resultado concreto é apenas o aumento da tarifa paga pela população.

“Recentemente na Câmara municipal houve um debate no qual eu participei, ainda na gestão passada, onde vereadores deram como exemplo Altamira, que retomou os serviços da Cosanpa e melhorou. A Norte Energia fez um investimento de quase R$ 250 milhões, a Cosanpa em contrapartida jogou R$ 20 milhões e eles não estão conseguindo gerenciar o sistema, e a empresa que eles queriam contratar gerenciá-lo se recusou a fazê-lo. Juruti, outro exemplo bem próximo, um Município tão novo, onde uma empresa de mineração fez todo um investimento, tomou o serviço e agora quer discutir com a Cosanpa para que ela retome o serviço e esta não quer mais! Vivemos uma numa situação crítica, sabemos que a Cosanpa tem as suas deficiências; sou trabalhador da Cosanpa e sei disso, mas acreditamos que o serviço público de saneamento é a única saída. A proposta do Governo do Estado hoje é privatizar o serviço de saneamento e terceirizar a exploração do aquífero Alter do Chão, essa é a proposta do Governo do Estado! Enquanto o mundo todo faz o contrário; França, Alemanha, Bélgica, Argentina, Chile os próprios Estados Unidos, reestatizando, remunicipalizando os serviços de saneamento, nós seguimos a contramão da história; a água é uma coisa tão importante que é questão de segurança nacional, ele não entregam, não abrem mão de forma alguma.
SEMINÁRIO DESCUTIRÁ SANEAMENTO NO BAIXO AMAZONAS: Um evento que acontecerá em Santarém debaterá a questão do saneamento como política pública. As discussões reunirão diversas entidades, e será aberto à participação da comunidade, Sena faz o convite: “Nos dias 19 e 20 de janeiro nós do Sindicato dos Urbanitários, conjuntamente com a Ufopa, STTR, Afam, Sindicato dos Engenheiros, FNU, Asmae e várias outras entidades, estaremos realizando o primeiro Seminário em defesa do saneamento enquanto política pública do Baixo Amazonas. Nossa idéia é discutir a política pública de saneamento quanto um direito de todos e um dever do Estado, que, aliás, é garantido constitucionalmente, infelizmente ninguém cumpre.Queremos discutir o que é saneamento, pois saneamento não é só água, eles tem quatro ou cinco ações: Tratamento e coleta de resíduos sólidos; tratamento de esgoto; destinação de águas pluviais; captação , tratamento e distribuição de água e agora a questão ambiental também entra, são cinco ações que compõem o saneamento. Então, esse Seminário será no auditório Pérola do campus Amazônia da Ufopa, na Avenida Mendonça Furtado. Contaremos com a presença do Professor Antônio Tancredi, Professor Borguezan, Dr. Luís Roberto Morais da UFBA, uma das maiores referência mundiais em saneamento ambiental, participará também a Secretária Nacional de Saneamento Ambiental e os presidentes de várias entidades. Queremos fazer um amplo debate com a academia e com a sociedade, vamos convidar a Prefeitura, Ministério Público, OAB, Ufopa”.

Por: Edmundo Baía Júnior

Fonte: RG 15/O Impacto

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