MILTON CORRÊA Ed. 1127

ESPECIAL: Lava Jato, a operação que estremeceu a República em 2016 (Parte 1) 

Fonte: Agência do Rádio

Reportagem: João Paulo Machado

Políticos de renome, tesoureiros, empreiteiros, executivos e lobistas. Em 2016, ninguém conseguiu escapar da Força Tarefa da Operação Lava Jato.

Ao todo, foram 16 etapas concluídas ao longo do ano. Um recorde. No nascimento da operação, em 2014, foram sete fases. No ano passado, quando surgiram os primeiros acordos de delação premiada, a Polícia Federal realizou 14 ações.

Depois de levar à cadeia, ao longo dos dois últimos anos, operadores financeiros, ex-diretores da Petrobras, e alguns ex-parlamentares, a Lava Jato ganhou corpo, acumulou informações e, enfim, neste ano, alcançou grandes nomes da política brasileira.

A operação, em 2016, registrou 45 prisões temporárias e 25 prisões preventivas. Entre os nomes, estão o de João Santana, marqueteiro das últimas três campanhas presidenciais do PT, de Sílvio Pereira, ex-secretário-geral do PT, do ex-senador Gim Argello, dos ex-ministros da Fazenda Guido Mantega e Antônio Palocci, do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral.

Foi em 2016 que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve seu nome vinculado com empreiteiras e passou a ser mais um dos investigados pela operação.

No dia 27 de janeiro, a PF deflagrou a operação Triplo X, fazendo alusão ao tríplex reservado para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no condomínio Solaris, construído pela empreiteira OAS, no Guarujá, em São Paulo. O apartamento, que supostamente seria do ex-presidente, foi reformado e mobiliado pela empreiteira, que, de acordo com a Força Tarefa da Lava Jato, usou o edifício para pagar propina e lavar dinheiro, como explicou em coletiva a imprensa o procurador da República, Carlos Fernando do Santos Lima.

“Nós estamos verificando ocultação patrimonial, lavagem de dinheiro e pagamento de corrupção através de um empreendimento assumido pela OAS no litoral de Guarujá, que é o condomínio Solaris.”

No mês seguinte, no dia 22 de fevereiro, através da operação Acarajé, a Lava Jato chegou ao marqueteiro João Santana. Os investigadores descobriram dinheiro depositado pela empreiteira Odebrecht em uma conta não declarada mantida na Suíça pelo marqueteiro e por sua mulher Mônica Moura, como explicou à época, o procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol.

 “A Odebrecht já era investigada formalmente na Lava Jato. Já se sabia que boa parte do dinheiro usado sob o pano pela Odebrecht era dinheiro de propina. Então, depois da descoberta do envolvimento da Odebrecht o que se identificou foi uma série de pagamentos, 45, em favor de João Santana e Mônica Moura. ”

Na terceira fase da operação Lava Jato, em 2016, o alvo voltou a ser o ex-presidente Lula. Na chamada operação “Aletheia”, “verdade”, em tradução do grego.

A Justiça emitiu mandado de condução coercitiva contra o ex-presidente. Ou seja, Lula foi levado pela polícia para prestar depoimento. Além do petista, Paulo Okamoto, que preside o Instituto Lula também foi levado pela Polícia Federal. O objetivo da condução coercitiva foi esclarecer suspeitas de que Lula recebeu valores da Petrobras por meio da reforma do triplex, no Guarujá e do sítio em Atibaia, além apurar pagamentos ao ex-presidente realizados por empresas investigadas na Lava Jato.

Após ter sido conduzido para depor, o ex-presidente convocou um pronunciamento para negar participação nos escândalos de corrupção na Petrobras. Lula também afirmou não ser dono de um apartamento triplex no Guarujá e de um sítio na zona rural Atibaia. E afirmou ter ficado ofendido com a operação deflagrada pela PF.

 “Eu me senti prisioneiro hoje de manhã. Eu sinceramente já passei por muitas coisas na minha vida. Eu não sou homem de guardar ressentimentos de guardar magoa, mas eu acho que o nosso país não pode continuar assim. ”

Naquele momento, o petista aproveitou para tecer as primeiras críticas que faria ao Poder Judiciário e à Operação Lava Jato, associando a operação a uma produção midiática.

 “Enquanto os advogados não sabiam nada, alguns meios de comunicação já sabiam. Então é lamentável. É lamentável que uma parcela do poder Judiciário brasileiro esteja trabalhando em associação com a imprensa. ”

Lava Jato, a operação que estremeceu a República em 2016 (Parte 2)

Após começar o ano na cola do ex-presidente Lula, tentando esclarecer suspeitas sobre o envolvimento do petista no maior escândalo de corrupção da história do Brasil, a Operação Lava Jato seguiu em busca de mais informações para chegar ao topo da pirâmide de controle do ‘Petrolão’.

No dia 21 de março foi deflagrada a 25ª fase da operação, a quarta só em 2016. Com o nome de operação Polimento, a Polícia Judiciária e o Ministério Público de Portugal atenderam um pedido da Justiça brasileira e cumpriram mandados de busca, apreensão e prisão preventiva de Raul Schimdt Felippe Júnior, em Lisboa.

Dono de uma galeria de arte, Felippe é investigado por pagamento de propina aos ex-diretores da Petrobras Renato Duque, Jorge Zelada e Nestor Cerveró.

22 de março, um dia após o cumprimento da fase Polimento, a Lava Jato volta às ruas com a operação Xepa, um prolongamento das investigações da Operação Acarajé. Na ação, a Polícia Federal traz à tona o sistema de pagamento de propina instalado na Odebrecht. Existia dentro da empreiteira um departamento exclusivo para pagamentos de propina, com o nome de “Setor de Operações Estruturadas”, como explicou a Procuradora da República, Laura Gonçalves Tessler.

 “Era uma estrutura montada dentro da estrutura da Odebrecht, funcionários destinados exclusivamente para a atividade de pagamento de propina, muito bem remunerados para isso. Movimentavam quantias muito expressiva de recursos, com contas no exterior.

1° de abril. O caso Celso Daniel volta à tona. Batizada de operação Carbono, a 27ª fase da Lava Jato traz para 2016 a discussão sobre o assassinato do Prefeito de Santo André, sequestrado ao sair de um restaurante e morto em circunstâncias misteriosas em janeiro de 2002. A operação da Lava Jato apurou um empréstimo fraudulento de 12 milhões de reais concedido pelo Banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai. Metade deste valor foi entregue ao empresário Ronan Maria Pinto, que teria chantageado, segundo as investigações, o ex-presidente Lula e outros dirigentes da cúpula do PT para que eles não tivessem os nomes envolvidos na morte de Celso Daniel. Nesta fase, além de Ronan, foi preso o ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira.

Com o pé no acelerador, em 2016, a Lava Jato não parou nem no dia em que o Senado aprovou a instauração do processo de impeachment da, hoje, ex-presidente Dilma Rousseff. No dia 12 de abril, a operação Vitória de Pirro, levou à cadeia o ex-senador Gim Argello. As investigações apontaram que Argello teria negociado, em troca de propina, a obstrução dos trabalhos da CPI mista da Petrobras no Congresso Nacional. O ex-parlementar do PTB, foi vice-presidente da CPMI, e recebeu o dinheiro sujo das empreiteiras UTC, OAS e Toyo Setal por meio de doações oficiais de campanha e até mesmo em repasses a uma paróquia do Distrito Federal. Após ser preso, durante depoimento ao Juiz Sérgio Moro, Gim Argello negou as acusações contra ele e chorou.

 “Então, excelência, eu nunca tinha ido a uma delegacia, eu nunca tinha passado por isso. ‘O Gim, mas você tem quase cinco meses preso’ Tenho, excelência. ‘Gim você é maluco?’ Não sou! Eu sempre apoiei a Lava Jato e continuo apoiando. ‘você é doido, Gim?’ Não sou, porque eu não sou desonesto, porque eu não sou”.

Gim Argelo foi condenado pelo juiz federal Sérgio Moro a 19 anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução à investigação de organização criminosa. Continua na próxima edição….

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