Governo Jatene não ataca criminalidade e produz dezenas de assassinatos

O Pará vive um clima de guerra velada cujas dimensões podem ser comparadas com guerras internacionais deste século, como o conflito da Nigéria, por exemplo – aquele onde existe o grupo extremista Boko Haram – onde, desde 2009, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, já morreram 35 mil pessoas. No Pará, em oito anos do governo de Simão Jatene, morreram quase 30 mil pessoas, segundo dados da Segurança Pública, o que torna a situação no Estado extremamente preocupante.

Neste ano, de 1º de janeiro até o dia 15 de outubro, 3.091 mil pessoas foram mortas no Estado. E em apenas três dias nada menos do que 60 assassinatos foram registrados em todo o Pará. O DIÁRIO teve acesso a um documento sigiloso do Sistema Integrado de Segurança Pública do Pará que lista estas mortes, entre 21h30 do dia 19 de outubro às 19h40 de domingo, 21, o que confirma o alto índice de pessoas assassinadas por dia no Estado, 20.

Só na Grande Belém, entre sexta e domingo, foram 25 assassinatos sem que um suspeito sequer tivesse sido preso. Segundo a Segup, os fatos ocorreram nos bairros da Terra Firme, Marco, Campina, Jurunas, Distrito de Icoaraci, Cidade Nova, Aurá, Paar, Magueirão, Bengui, São Brás, Pedreira, Cidade nova III, 40 horas, Águas Brancas e Bairro Central, em Santa Bárbara.

Comparar os assassinatos registrados no Pará com os de guerras, conflitos internacionais, terrorismo e locais conhecidos pela violência mundial não é exagero. É, ao contrário, assustador e alarmante. Para se ter uma ideia, uma das guerras mais polêmicas da atualidade, a do Afeganistão, registrou em 2017, 34 mil mortes, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), quase o mesmo número de assassinatos acumulados em oito anos no Pará.

VIOLAÇÕES

As mais de 4.400 mortes sangrentas registradas no Pará em 2017 equivalem, por exemplo, aos 3.383 mortos na província de Kasai, na região central da República Democrática do Congo, em intensos combates entre milícias e forças de segurança ocorridos de outubro de 2016 até junho de 2017, segundo estimativas da igreja católica local, cujos dados foram divulgados pela organização americana Council of Foreign Relationship e pela BBC de Londres.

Na República do Congo, quando a situação de insegurança e instabilidade política no país se tornou mais exacerbada, a ONU deu início à sua maior e mais cara missão de paz no mundo, mantendo naquele país mais de 19 mil capacetes azuis, com o objetivo de proteger a população civil.

É claro que não se pode comparar uma guerra civil como a do Congo com uma situação de violência urbana, como a do Pará. Mas o que converge entre as duas situações é a violação aos direitos humanos, ao direito de ir e vir do cidadão, ao direito à vida, que deve, constitucionalmente, ser garantido pelo Estado.


Além de Benigno (segundo à esq.), contam com segurança própria o governador Jatene, Luis Fernando (Secretário de Segurança) e o prefeito Zenaldo Coutinho (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

Governo Jatene não tem programa de segurança para enfrentar a violência

O que impressiona no caso do Pará é o elevado e sempre crescente número de assassinatos, na maioria sem solução, em um Estado brasileiro que não está em guerra civil, mas que, no entanto, não consegue oferecer à sua população um programa de segurança pública efetivo que ofereça um mínimo de tranquilidade para as famílias.

O DIÁRIO registrou na semana passada que a violência e a insegurança só fazem crescer no Estado e continuam a manchar de sangue os derradeiros meses da gestão Simão Jatene no governo do Pará. A cada semana um policial militar é morto, considerando que 40 foram assassinados neste ano no Estado, justo eles, os agentes de segurança, que deveriam proteger a vida do cidadão, continuam morrendo, vítimas de uma política falha de segurança.

Enquanto isso, a cúpula da Segurança Pública e o governador Simão Jatene, parece estar dando voltas atrás de seus próprios rabos, sem oferecer absolutamente nenhuma proposta viável e real de combate ao crime organizado. A resposta de Jatene à onda de crimes é sempre a mesma: “determinei apuração rigorosa dos crimes pelas corregedorias das polícias civil e militar”. Mas as respostas nunca chegam.

Jatene pouco muda sua equipe. O subchefe da Polícia Civil, por exemplo, é seu cunhado André Cunha, que já foi, por anos, superintendente da Susipe. Em junho deste ano o governador exonerou o coronel Rosinaldo Conceição “a pedido” e nomeou o advogado Michell Mendes Durans da Silva, para fortalecer sua base de governo na Alepa e negociar apoio do Partido Socialista Brasileiro (PSB) para tentar eleger Márcio Miranda. Mendes Durans não demonstrou nenhuma aptidão para o cargo e os problemas como fugas de presos e rebeliões continuam a atormentar a vida do cidadão paraense.


Comandante da PM tem viatura 24 horas à disposição onde mora (Foto: Reprodução)

Comandante, governador e ‘staff’ têm proteção 24h

Por outro lado, irrita quem assiste ao grande aparato de proteção montado para proteger o comandante da Polícia Militar do Estado do Pará, Hilton Benigno e sua família. À sua disposição, há viaturas e policiais militares, bem como prováveis seguranças particulares.

Os veículos se revezam dia e noite, próximo ao edifício onde o comandante da corporação mora, na travessa 14 de Março, próximo à rua João Balbi, em Belém. Na esquina dessas vias, as viaturas têm sido vistas frequentemente desde que ele assumiu o cargo.

Simão Jatene também já demonstrou que pouco se importa com a melhoria dos instrumentos da segurança pública do Estado. Recente reportagem produzida pelo DIÁRIO mostrou que o governador prefere investir nas estruturas existentes em seu gabinete exclusivamente para atendê-lo (seguranças, viagens, manutenção de aeronaves exclusivas para seu uso, compras de lanches e alimentação do governador e de seu “staff” em viagens e deslocamentos, etc) do que comprar equipamentos para os órgãos de Segurança Pública.

De acordo com os valores pesquisados e atualizados pelo IPCA-E de dezembro do ano passado, de 2011 até 2017, tudo o que Jatene investiu em equipamentos para todos os órgãos de Segurança do Pará ficou em R$ 293,9 milhões. Já com as Casas Civil e Militar, as duas principais estruturas de seu gabinete e que existem apenas para atendê-lo, o governador torrou mais de R$ 426,4 milhões.


(Foto: Pedro Guerreiro/Diário do Pará)

As 4.416 mortes violentas registradas no Pará no ano passado representam uma média diária de 12 mortes. Ou seja, a cada duas horas uma pessoa é assassinada no Pará. É como se em um ano fosse dizimado um município pouco menor que Pau D’Arco. Considerando os oito anos do governo de Simão Jatene, quando morreram por causas violentas cerca de 30 mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças, na maioria jovens e negros, é como se tivesse desaparecido do mapa do Pará uma cidade como Placas e toda sua população.

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