Lideranças Munduruku pedem liberdade para líder condenado por homicídio

Isaias Crixi, ex-Vereador e vice-prefeito de Jacareacanga, seria o mentor intelectual da ação, que resultou na morte de um homem

Indígenas fizeram manifestação em frente ao Fórum de Itaituba

O crime aconteceu em 2003 e teve grande repercussão em toda a região do Tapajós, principalmente pelo nome dos envolvidos. Isaias Crixi Munduruku, ex-Vereador e vice-prefeito de Jacareacanga na época do crime, seria o mentor intelectual da ação, que resultou na morte de um homem, identificado como João Paleci. Por suspeita de furto, a vítima foi sequestrada e agredida até a morte, tendo o corpo atirado em um buraco. Quinze anos depois, foi marcado o julgamento individual e só Isaias sentaria no banco dos réus. Por um pedido do Ministério Público que foi deferido pela Justiça, o processo foi desaforado de Jacareacanga para Itaituba, e o julgamento aconteceu no dia 23 de novembro de 2018. Diante das evidências apresentadas e pela motivação do crime, o conselho de sentença decidiu pela condenação. Isaias Crixi foi condenado a 13 anos de reclusão. Ao término do julgamento, ele foi conduzido para o Centro de Recuperação de Itaituba. De acordo com Geovane Kaba, sobrinho do cacique geral, a condenação de Isaias foi um choque para toda a nação Munduruku.

O desaforamento do processo foi solicitado pelo Ministério Público baseado na grande influência que Isaias Crixi tem em Jacareacanga, onde já foi Vereador e vice-Prefeito. Isaias também é professor de português no ensino médio regular nas aldeias, e é defendido por toda a classe indígena. A ausência da liderança das aldeias motivou as outras lideranças, que mobilizaram a Associação Indígena Pusuru e a própria Funai para solicitar a audiência com o Juiz criminal de Itaituba e pedir liberdade para Isaias Crixi.

Pelo menos oitenta indígenas de várias aldeias do médio e alto Tapajós desembarcaram em frente ao Fórum e se posicionaram em uma manifestação pacífica. Portando cartazes em defesa do educador indígena, os guerreiros com pinturas de paz se reuniram e formaram uma comissão, que foi recebida pelo Juiz. A audiência durou mais de duas horas. O cacique geral Munduruku também esteve presente, acompanhando com atenção a todos os questionamentos apresentados pelas lideranças, incluindo o filho de Isaias Crixi. O juiz Romero Borja de Melo respondeu a todos os questionamentos e informou que, para ele, não é possível atender ao pedido de liberdade para Isaias, por não ter competência para tal decisão, e orientou os indígenas a se manifestarem junto ao Tribunal de Justiça do Estado. O representante dos indígenas afirmou que, se houver necessidade, as lideranças deverão recorrer ao Ministério Público Federal, ao Superior Tribunal de Justiça e até ao Conselho Nacional de Justiça.

2º DIA: Os índios começaram a manifestação de protesto na manhã de terça-feira. Eles vieram de ônibus do município de Jacareacanga, e representam várias aldeias do alto e médio Tapajós. Também vieram membros de algumas comunidades indígenas de Itaituba. O objetivo de toda essa movimentação é apelar pela liberdade do líder indígena Isaias Crixi Munduruku, ex-Vereador e ex-vice-prefeito de Jacareacanga, além de professor do ensino médio e mobilizador social. Isaias foi julgado e condenado a treze anos de prisão, pelos crimes de homicídio e ocultação de cadáver, cometidos no ano de 2003. O crime aconteceu no município de Jacareacanga, mas foi desaforado para a Comarca de Itaituba a pedido do Ministério Público, por conta da grande influência social e política que Isaias tem naquele Município. A pedido da Funai e de entidades que representam a classe indígena, o Juiz criminal de Itaituba, Romero Borja Filho, concordou em realizar audiência pública com os índios para discutir o pedido de liberdade para Isaias Crixi, mas adiantou que já não compete a ele essa decisão. “É uma questão que não depende mais de mim. Nós cumprimos com nosso papel enquanto primeira instância. Mas nós orientamos às lideranças que busquem as instâncias superiores para que possam ter uma resposta mais concreta”, resumiu o Juiz.

Já na manhã de quarta-feira (09), os índios retornaram ao Fórum e continuaram com a manifestação. Eles decidiram que vão permanecer em vigília até que venha a resposta aos dois pedidos de Habeas Corpus impetrados em favor do indígena Isaias Crixi. O cacique geral Munduruku, Arnaldo Kaba, informou que todos os índios envolvidos na manifestação concordaram em aguardar pelo tempo que for necessário.

Pela manhã, no Fórum da Comarca, a força policial garantia a ordem, mesmo que os índios tenham garantido que o movimento seria pacífico. Já pela parte da tarde, chegou a Itaituba o procurador da República, Hugo Charcha, que reuniu com os índios no prédio da Justiça Federal. Na ocasião, a mãe de Isaias Crixi não suportou a ansiedade e a angústia pelo filho preso, e, aos prantos, fez um apelo emocionado.

Por: Mauro Torres

Fonte: RG 15/O Impacto

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