Grileiros buscam expulsar moradores de assentamentos em Placas

O sonho por um pedaço de terra para chamar de seu às vezes tem um preço muito alto, podendo cobrar até mesmo a vida. Este é um preço que moradores dos assentamentos “PDS Castanheiro”, “Arthur Faleiro” e “Avelino Ribeiro” (em Placas), temem ter que pagar. O medo da morte vem junto da luta para se garantirem no local em que estão atualmente, luta essa que tem inimigos declarados: os grileiros que também se instalaram ali e agora reivindicam todo o espaço – que oficialmente pertence à União, mas que estão em um longo processo para se tornarem dos assentados.

Os três assentamentos – que ficam a cerca de 70 km da zona urbana de Placas – fazem parte da Associação dos Agricultores Nova Aliança, que tem atualmente como presidente João Batista Luz Lopes. O mesmo, cansado de esperar providências das autoridades, que segundo ele pouco fizeram em prol dos que estão naquela área rural, conversou com o Jornal O Impacto e relatou toda a rotina de medo que os moradores destes assentamentos têm que se submeter por conta da constante ameaça e brutalidade dos grileiros que ali se instalaram.

Em um dossiê de quase 300 páginas são relatadas todas as ameaças sofridas pelos moradores dos assentamentos e os registros feitos na polícia e no INCRA. Segundo o documento, os grileiros desmatam a área na zona rural de Placas – que é de preservação – sem nenhum receio e estão tentando expulsar os moradores dos assentamentos na base do medo.

“Há tempos que estamos buscando pelas autoridades e houve até o momento pouca resposta. Não sei se é porque não temos dinheiro, mas as autoridades estão virando as costas para a gente, a realidade é essa. A gente procura dentro da justiça resolver as situações, para não venha a ter conflito, só que são analises e analises sem resposta. Nós temos hoje um desmatamento muito grande no assentamento, na qual vivem muitas famílias lá dentro. Não é do nosso lado (o desmatamento), mas sim do lado dos grileiros, do nosso lado para derrubar três hectares de terra é uma confusão e eles têm muita terra derrubada, muito desmatamento, muita madeira tirada de dentro do assentamento. Vivemos sob ameaça, na qual já aconteceu com o presidente no final de dezembro do ano passado. De lá para cá o alvo sou eu de morrer lá dentro. Temo pela minha família. Queria que a justiça tomasse conta e resolvesse a situação do assentamento, dos associados, que tomem a decisão cabível. Hoje a gente teme bastante é pelo desmatamento que está tendo lá dentro, porque depois entram lá dentro e vão botar que foi a associados que fizeram, mas não é. Lá tem 300 Alqueire de uma pessoa só, grileiro, não é nossa”, relata João Batista.

(PRÉ) ASSENTAMENTO: No INCRA, os três assentamentos (PDS Castanheiro”, “Arthur Faleiro” e “Avelino Ribeiro”) ainda não estão cadastrados como Assentamentos, mas estando em uma fase anterior, ou pré. Segundo João Batista Luz Lopes, os comunitários já enviaram há muito tempo todos os documentos para que a área seja de fato um assentamento, mas a última fase para que isso aconteça é a visita de um técnico do Incra, que segundo os comunitários é sempre ameaçado por pistoleiros – contratados pelos grileiros da área – para que não conceda o título necessário.

“O que está faltando lá é que ele foi interditado e homologado, e está para fazer vistoria, fazer um termo técnico, de estrutura. A gente já conseguiu levar vários funcionários do INCRA,só que ele já intimidados pelos grileiros. Daqui de Santarém já foi técnico, olhou tudo, só que não passa do papel. Eu não sei o que pode acontecer daqui para frente. Se não der jeito aqui a gente pede para ir para Brasília ou até mesmo fora do Brasil, para que nos ajudem, porque não é uma questão só do assentamento, mas do desmatamento, porque futuramente nossos filhos vão sofrer as consequências”, afirma.

AÇÕES DOS GRILEIROS: Alguns moradores desses assentamentos estão no local há mais de uma década, começando também quase neste mesmo período a relação com os grileiros, que segundo João Batista chegam lá, afirmam que a terra é deles, utilizando-se de documentos possivelmente falsificados, e vão aumentando seus territórios “no grito” e ameaça. Na área que afirmam ser deles, mas que na verdade é do Estado, eles desmatam sem qualquer pudor, realizam queimadas e constroem pastos para gado.

A principal questão é que quanto mais aumentam seus territórios, mas próximos dos assentamentos ficam, buscando assim se livrarem daqueles moradores para ficarem com a terra. Visando isso, os donos/grileiros contrataram pessoas para tomarem de conta das terras e também assassinos de aluguel – os famigerados pistoleiros – para darem fim a quem se opor a eles ou os denunciar.

“Eles querem tirar a gente de qualquer jeito de lá, eles falam que vão fazer de tudo para acabar com o assentamento, para eles tomarem de conta. Lá eles queimam casas, tocam fogo em terras dos colonos – para ninguém produzir –, colocam gado dentro das plantações (dos assentados) para comer, intimidam os colonos nas estradas, botam pistoleiros para andarem armados na estrada para intimidar o colono. Essa que é a realidade lá de dentro”.

“Eu mesmo sempre digo que não tenho relação com eles, porque sempre tento sair desses encontros. Eles intimidam, usam armas para intimidar os colonos, o colono vai derrubar seu pedacinho de roça eles mandam parar. É uma relação muito tensa e o que eu mais peço é que as autoridades tomem conta e nos ajude, porque eu posso estar dando essa entrevista hoje e posso até não chegar em casa.”, ressalta.

ACORDO FRUSTRADO: Após inúmeras denúncias, a Polícia Civil realizou em novembro de 2016 um encontro entre os líderes dos assentamentos e os chamados na ocasião de “pretensos proprietários de terras” (grileiros), onde foi fechado um “Compromisso de Bem Viver”. No acordo, ambas partes se comprometiam a não entrarem na área um do outro e os grileiros “não expandirem suas atividades agropecuárias, a não desmatarem e queimarem, a não expulsarem aquelas famílias (…) e não os ameaçarem”, diz parte do documento que foi assinado pelo delegado de Polícia Conrado Wolfring; pelo agrônomo do Incra Marcial Cano da Mota; pelo então presidente dos Associação Nova Aliança, Gilson Maria Temponi e por João Batista Luz Lopes – então vice e agora atual presidente –, além de quatro dos pretensos donos de grande parte daquele terra, os grileiros.

No entanto, o acordo acabou não surtindo tantos efeitos, pois as ameaças contra os assentados seguiram posteriormente. No fim das contas, a relação entre eles continuou sendo tensa, com foi quando tudo se iniciou e como é até hoje – quase três anos após a assinatura do documento. Para João Batista, pior que as ameaças que sofre é o perigo que crianças filhas dos assentados correm, apenas por morarem no local em que nasceram.

“Eu estou com seis anos lá dentro, lá tem gente que tem de dez a doze anos lá dentro, tem mais novo também. Só que essa relação desde quando começou foi sempre a mesma, sempre piorando e quando procuramos as autoridades ninguém tem força para nada. ‘eu não tenho poder pra isso, não tenho poder para aquilo, não tenho poder para mais isso’. Então quem é que tem, se as autoridades não têm? Essa que é a minha pergunta. A situação é um pouco triste, porque é dentro de um assentamento que tem crianças, tem colégio e os grileiros estão sempre unidos, tramando algo contra a vida da gente. É muito difícil para a gente lá dentro, vivemos que a gente planta, não temos ajuda de uma cesta básica do INCRA, não tem nada. Agradeço hoje ao Instituto Serra Verde, que vem dando o apoio lá dentro, dando uma boa orientação, nos ajudando e botando com as autoridades. Não temos mais ajuda de outro canto”, relata.

FALTA DE APOIO DO PODER PÚBLICO: A Associação dos Agricultores da Nova Aliança tem aproximadamente 600 famílias reunidas, sendo que muitos já deixaram o assentamento por medo dos conflitos e do que fazem pistoleiros a mando dos grileiros. Segundo João Batista, as famílias remanescentes muitas vezes não têm outro lugar para ir, tendo que correr risco de vida no local que estão.

A única ajuda que possuem é do Instituto Serra Verde, que os assessora em inúmeras questões. Fora isso, os assentamentos não encontram apoio de quem quer que seja, pois os documentos para homologação do assentamento não andam, e as denúncias feitas no Ibama e Polícia contra os grileiros não são investigadas a maioria das vezes.

“Já teve um caso de morte lá dentro de um colono, na qual a gente não teve resposta do que aconteceu, se foi a mando de alguém. Mataram o presidente, agora houve um conflito entre grileiro e colono, digamos assim porque não sei quem foi também, não sei se é armação deles próprios para jogar para cima dos assentados. Dizem que tem um desaparecido, mas o que eu temo mesmo é pela vida das crianças que tem lá dentro e daquele povo que não tem para onde ir. A gente tem muitos protocolos feitos dentro do INCRA, eles sabem que a gente está lá. Que nos regularizem, vão lá e dividam. Se for cem hectares para cada um, que deem um documento para a gente trabalhar e viver dignamente. Se a gente consegue botar uma máquina lá para limpar uma estrada, os grileiros vão lá e mandam tirar, se não tacam fogo. Se forem hoje, no verão, vão ver a dificuldade que a gente tem para chegar lá. Não temos apoio político, municipal, nenhum, porque são todos ameaçados. Quando um político tenta se aproximar da gente, vão lá e ameaçam. Não sei o que eu faço mais”, afirma.

“As denúncias que fizemos, tivemos algumas repostas, mas outras estão só no papel. Simplesmente nada mais.  Tenho registrado vários boletins de ocorrência e cada um que eu registro é uma sentença de morte que estou assinando, porque nem todos que eu assino eles (polícia) procuram identificar as pessoas, correr atrás para tentar averiguar a situação. Fica simplesmente registrado no papel. Essa que é a situação. Hoje tem varias coisas que eu nem registro boletim de ocorrência, afinal pra quê? Respaldo? Respaldo de que se ninguém resolve nada”, ressalta.

MORTE DO ANTIGO PRESIDENTE E TENTATIVAS DE ASSASSINATO AO NOVO: Nos assentamentos em Placas os colonos plantam banana, mandioca, cacau, açaí e arroz, além de possuírem uma escola para cerca de 30 crianças. A luta para conseguirem este mínimo foi árdua, e a luta para manter-se ali tem sido ainda maior, o que resultou na morte de Gilson Maria Temponi, antigo presidente da Associação e que foi assassinado em dezembro de 2018 na frente de sua casa, em Ruropólis, por dois pistoleiros em uma motocicleta. Eles efetuaram três tiros.

O crime não chega a ser surpresa, tendo em vista que Gilson vinha denunciando constantes ameaças à sua vida e à vida de outros colonos há bastante tempo. No dossiê feito pela associação, o antigo presidente vinha denunciando ameaças desde 30 de novembro de 2015. As denúncias foram realizadas em todas as esferas possíveis, pedindo até mesmo ajuda e segurança, mas pouco foi feito nestes pouco mais de três anos. A morte dele, em 15 de dezembro de 2018, que na época foi claramente tratada como execução, fez com que o foco das ameaças de morte e tentativas de assassinato se voltassem para João Batista.

“Já tentaram três vezes tirar minha vida. No dia que foram matar o Mineiro (Gilson, o antigo presidente), passaram na minha casa primeiro e eu não estava; a segunda vez foram na casa da viúva e eu não estava; na terceira vez eu estava com meu filho na moto dentro da cidade e o cara disse que não me matou por causa do meu filho. Já ameaças, são muitas mesmo e tenho como comprová-las. Muita gente passa para mim e não falam nada porque a cidade é pequena, todo mundo tem medo. Passam para gente, mas não querem ser identificados. acredito que hoje vivemos uma vida que talvez a gente não era nem para viver, porque quando mataram o mineiro a ordem ficou, ‘se sair morre, se ficar morre’, então se é para morrer vou morrer lutando”, ressalta João Batista.

“Sábado tentaram pegar um colono dentro da cidade e ele teve que pedir ajuda da polícia para poder escapar. Isso é repercussão depois que a polícia pegou eles lá dentro com armas, motosserra. Os patrões deles tiraram eles da cadeia, voltaram e teve um conflito entre eles. Aí o rapaz veio para cidade e tentaram pegar ele”, afirma.

APELO: Entre casas incendiadas, ameaças de morte, trocas de tiro com pistoleiros, os moradores dos três assentamentos afirmam quererem apenas levar a vida sem preocupações, podendo colher e plantar em uma terra que não possa ser tirada deles por estarem com uma arma na cabeça. Ainda que tema pela própria vida, João Batista ainda acredita que as autoridades possam os ajudar, apurando todas as denúncias que fizeram e dando um fim aos desmandos daqueles que querem tomar o espaço que conseguiram a muito suor, e até mesmo sangue.

“O apelo que faço às autoridades, é que nos ajudem, que o MPF investigue essas denúncias, que o IBAMA venha tomar conta da situação do desmatamento, que já teve muito no ano passado e retrasado. Que venham nos ajudar, pois temo pela minha família. Saí de casa, e eles ficaram lá, minha esposa, quatro filhos e os assentados. Que venham dar um pouco de esperança para nós, porque isso aqui é um pedido de socorro, não para amanhã, mas para hoje, para agora”, finaliza João Batista.

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