Bioinvasão das águas de Santarém representa sério risco à economia

Ezequias Procópio Brito, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) está desenvolvendo um estudo pioneiro na região sobre a bioinvasão provocada pela água de lastro descarregada por navios mercantes na área do porto de Santarém. A pesquisa traz importantes contribuições à sociedade santarena, tendo em vista que a chamada bioinvasão representa não apenas graves riscos à biodiversidade local, mas como também à economia da região.

A bioinvasão ou invasão biológica é registrada quando uma espécie se estabelece fora de seu ambiente natural. Os resultados da pesquisa fornecerão subsídios para a elaboração de um plano de gerenciamento da água de lastro para portos amazônicos, com o objetivo de evitar ou minimizar o transporte e introdução de espécies invasoras e patogênicas, conforme recomenda a Convenção Internacional para Controle e Gerenciamento da Água de Lastro e Sedimentos de Navios (Convenção BWM).

Em entrevista ao repórter Osvaldo de Andrade, da TV Impacto, Ezequias Procópio Brito comenta sobre como a pesquisa foi feita, quais os dados relevantes levantados por ela e quais os próximos passos a serem dados no sentido de combater a bioinvasão. Confira:

Jornal O Impacto: O que é a Bioinvasão?

Ezequias Procópio Brito: A Bioinvasão é caracterizada quando se registra a ocorrência de uma espécie fora de seus limites naturais, ou seja, quando a gente registra uma espécie do seu ambiente natural. Esse fenômeno é um processo muito antigo, só que nas últimas décadas esse problema se intensificou por conta da navegação de longo curso, o que a gente chama de navegação internacional, principalmente porque os navios se tornaram mais velozes e maiores.

Quando os navios estão com a sua carga parcialmente completa, ou vazia, eles precisam de um peso para poderem navegar, o que chamamos de “Lastro”. Um navio que normalmente sai de um porto asiático, o que nos últimos anos se intensificou muito por conta das relações comerciais entre Brasil e Sudeste asiático, se dirige para os portos brasileiros para comprar mercadorias (como soja e minério) e eles necessitam desse peso para questões de navegabilidade, propulsão e estabilidade. O que acontece é que esses navios, antes de partirem do seu porto de origem, acabam bobeando essas águas de baias e rios onde eles estão atracados e depois  descartam essa água no porto de destino, já que ele começa a ser carregado com o produto que veio buscar.

Aí que está o problema, porque se essas espécies forem capazes de sobreviver durante essas viagens transoceânicas e se houver condições ambientais (como temperatura, salinidade) no porto de destino, elas podem se estabelecer, pois não há um controle natural, um parasita, um predador natural para controlar essas novas populações. Com isso, essas espécies se estabelecem e começam a competir por espaço e alimento, deslocando outras espécies locais, o que resulta em perda de biodiversidade.

Jornal O Impacto: Isso causa problemas para o ser humano e à economia?

Ezequias Procópio Brito: Sim. Há casos mais preocupantes e emblemáticos de introdução de espécies exóticas no Brasil, mas há muitos casos ao redor do mundo e normalmente eles são documentados em regiões costeiras, onde  há grande movimentação de embarcações. Há um monitoramento permanente apenas em países desenvolvidos, como Austrália, alguns países europeus e Estados Unidos. Eles têm ferramentas de monitoramento mais eficientes. Aqui no Brasil, fazemos esse monitoramento, mas fica mais a nível de pesquisa nas universidades.

O caso mais problemático que tivemos de Bioinvasão no Brasil diz respeito à espécie conhecida como mexilhão dourado, que é  originária do sudeste asiático, se espalhando por várias ecossistemas aquáticos brasileiros. Começou no Estado do Rio Grande do Sul, se espalhou pelo Paraná, Minas Gerais, São Paulo, mais recentemente foi registrada na baia do Rio São Francisco e no Pantanal, sendo a Bacia Amazônica o grande bioma que essa espécie não se estabeleceu.

Não sabemos o motivo, mas pela minha breve experiência como pesquisador, acredito que exista algum fator físico/químico que impeça que o mexilhão dourado se estabeleça em regiões amazônicas, tanto é que onde ele se estabeleceu, ele causou diversos danos ecológicos e econômicos, pois é um organismo que tem inicialmente uma fase larval e depois acaba desenvolvendo uma espécie de cola que se fixa em qualquer tipo de superfície, seja planta ou estrutura artificial, além de se multiplicar muito rapidamente, causando esses prejuízos. Ele se fixa em turbinas de hidrelétricas, em esgotos, em tubos de captação de água, em cascos de embarcações, o que obriga as pessoas a gastarem grandes cifras para poder o remover daqueles locais.

Jornal O Impacto: O senhor tem um prazo para a conclusão desse estudo pioneiro. Ao o concluir, ele vai ser direcionando para onde?

Ezequias Procópio Brito: Resolvi fazer esse estudo por ser hoje um pesquisador da Ufopa e precisa executar esse trabalho aqui por conta da lacuna de conhecimento que se tem em relação à transferência e introdução de espécies exóticas na nossa região. Atualmente, há apenas dois registros de espécies exóticas por aqui, uma delas é o berbigão asiático e o outro é um molusco. O fato é que em 2020 irei oficialmente divulgar todos esses resultados e depois pretendo fazer uma espécie de mesa redonda, um evento aqui em Santarém e chamar essas instituições que são consideradas peças chave no que diz respeito a essa problemática, como a Marinha do Brasil, a Anvisa, Ibama e as universidades e os portos.

Jornal O Impacto: Como esse estudo surgiu? O que lhe motivou a fazê-lo?

Ezequias Procópio Brito: A minha formação é na área de engenharia de pesca, só que depois trilhei mais para a área da biologia ambiental. Fiz o mestrado e estou terminando o doutorado no mesmo programa, que é o de Biologia Ambiental da Universidade Federal do Pará e na oportunidade que começou o doutorado, a companhia Vale tinha o interesse de financiar e dar continuidade a um projeto que a gente desenvolveu em um dos terminais da empresa, que fica em São Luis (MA), que é com maior movimentação de embarcações do Brasil.

Só que como estou em Santarém e sou servidor da Ufopa, resolvi, mesmo sendo financiamento, pôr em prática essa pesquisa com a ajuda de alguns parceiros exatamente por conta dessa preocupação em relação as espécies invasoras. Isso porque não tem um arcabouço de literatura que trate dessa questão na Amazônia.

 Então resolvi pôr em prática esse estudo, principalmente em preocupação com o mexilhão dourado.

Jornal O Impacto: Essa pesquisa que está realizando, em termos de abrangência, engloba apenas a área das docas de Santarém ou já chega também para o lado de Itaituba e Miritituba?

Ezequias Procópio Brito: Exatamente por conta das restrições orçamentárias, a gente acabou se detendo ao que chamamos de área de influência direta do porto de Santarém.

Apesar de ser um estudo mais localizado, depois que a gente coletar, analisar e divulgar todos esses resultados, eles podem servir como referência para outros portos amazônicos, especialmente no que diz respeito durante a decisão de se construir novos portos.

Acho, inclusive, que durante a concepção dos estudos de impacto ambiental deve ser considerado o risco associado às bioinvasões. Esses resultados servirão como subsídios para programas de monitoramento de espécies invasoras, principalmente para portos caracterizados como exportadores de matéria prima, que é o caso do píer da Cargill.

Deve-se ressaltar que há muito tempo, pelo menos 15 anos, existem algumas diretrizes a nível internacional, como medidas unilaterais com o propósito de reduzir essas bioinvasões.

A principal delas é a Convenção Internacional, que foi ratificada em setembro de 2017, que estabelece que esses navio, antes que venham atracar em portos daqui e descartarem essa água, façam durante o trajeto uma troca. Assim eles descartam aquela água costeira e bombeiam uma água do oceano – que tem organismos com baixas probabilidades de se estabelecerem em um ambiente como o nosso.

Um comentário em “Bioinvasão das águas de Santarém representa sério risco à economia

  • 10 de outubro de 2019 em 21:27
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    Muito interessante! E parabéns à iniciativa do jornal de divulgar pesquisas científicas feitas na região, em nossa universidade federal. Deixo registrado o pedido para realização de mais entrevistas desse tipo.

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