Artigo – Os donos do país: a impressionante manifestação chilena

Por Oswaldo Bezerra

Enquanto escrevo este artigo testemunho, ao vivo, a maior manifestação popular da história do Chile. O movimento foi tão grande quanto o “Caracaço” de 1989, na Venezuela. Ao contrário dos dias anteriores, com muita violência e depredação, a movimentação chilena de hoje foi pacífica, e o exército ficou afastado das (milhões) pessoas nas ruas, de todas as cidades do país. O que a população pedia?

Os chilenos pedem reformas sociais, mas no Chile tudo foi privatizado. A população pede aposentadoria digna, educação e saúde. O Chile possui 18 milhões de habitantes, pelo menos a metade deles estava nas ruas. O crescimento econômico do país não se traduziu em desenvolvimento econômico. A população exige mudanças, mas a Democracia não diz que o poder emana do povo? Afinal quem são os donos do país?

Para entender a dinâmica de comando dos países na América latina precisamos recuar 2 séculos. Naquela época nascia o direcionamento da maior nação das Américas. Em 1823, o presidente americano James Monroe estabeleceu no congresso americano um guia para a nação, naquilo que ficou conhecida como “Doutrina Monroe”.

Esta doutrina estabelecia que os EUA impediriam, de qualquer modo, que um país do continente americano fosse colônia de países europeus. Assim, os EUA reconheceram independências e obliteraram tentativas de retomadas de colônias. Os EUA fizeram isso por seus próprios interesses econômicos, não por bondade.

O grande problema dos EUA, nesta doutrina, foi a pouca força bélica. Por isso, 100 anos depois aquela doutrina foi implementada com a política do “Big Stick”. Esta política, criada por Theodore Roosevel, se baseava no ditado africano “fale macio, mas leve um grande porrete”. Com esta política os americanos deveriam ser bastante cordiais, com seus vizinhos e com outras potências, mas deveriam criar e ostentar uma grande força armada. O objetivo era garantir os interesses econômicos do país nas negociações.

O “Big Stick”, por exemplo, foi usado duas vezes no Panamá. Primeiro, quando o país foi tomado da Colômbia, para a criação do canal que traria benefícios econômico aos EUA. Este episódio ficou conhecido na época como a “sórdida conquista”. Segundo, quando um presidente panamenho resolveu nacionalizar o canal, para benefício do povo. O país acabou sendo invadido o presidente preso, e o canal voltou a ter controle yankee.

E nos dias de hoje, qual doutrina segue o país e qual seu plano para a América Latina? O americano Noam Chomsky, a personalidade que mais se destaca no campo da Filosofia Analítica, fez uma profunda análise para entender quem manda nos EUA. A conclusão dele foi de que as corporações mandam no país. Recentemente, Eduard Snwoden jogou luz sobre o “Deep State” americano, o governo fixo que fica oculto, mas que define, por exemplo, quais os candidatos do partido democrático e republicano deverão competir nas eleições. Além disso, define as diretrizes das políticas externas dos EUA.

Esse governo oculto também é o fiador dos governos neoliberais da América Latina, onde são criadas elites locais, para manejo desta força política e benefícios de grupos rentistas. Por outro lado, eles também estão no manejo das esquerdas. Estas esquerdas não são aquelas revolucionárias que tomam o poder com o fuzil. São aquelas que se aliam as corporações e servem de amortecedor para as tensões sociais.

O povo latino, ávido por maior justiça social, andou elegendo esta esquerda soft por anos. Cansados de perder, os neoliberais resolveram acabar com as esquerdas tampões. Fizeram um trabalho tão bem feito que extinguiram esta barreira de proteção. Resultado, revolução popular como as do Chile se replicam por toda América Latina. Ai é que está o perigo para os rentistas. Pressionados pelas revoltas populares, os governos locais devem abrir mãos de mais recursos para as políticas sociais. Hoje, por exemplo, o governo neoliberal chileno prometeu aumento de 20% no valor das aposentadorias. Consequentemente, haverá menos lucros para as corporações, as donas dos países.

RG 15 / O Impacto

Um comentário em “Artigo – Os donos do país: a impressionante manifestação chilena

  • 27 de outubro de 2019 em 10:32
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    O que seria dos comunistas se não existissem os USA, para jogar a culpa dos monumentais fracassos do marxismo, ao longo de 100 anos, em qq parte do mundo, tendo a China se livrado da miséria econômica somente após adotar o livre mercado e ter atraído empresas de todo o mundo, mediante impostos quase zero e mão de obra barata. Mas o doce osso do poder, a nomenklatura dos chefões não largou, mantido a ferro e fogo! Toda empresa estrangeira lá estabelecida tem um espião em seu interior, tudo observando, inclusive o comportamento dos funcionários ! E onde não se implantou os princípios do capitalismo, o fracasso é total, como ocorre em Cuba, Venezuela, Nicarágua,etc. Nos demais países latinos o grande mal é a corrupção, a roubalheira, a demagogia, a falta de planejadores íntegros e competentes. Onde foram instalados governos sérios, realmente preocupados em desenvolver o país, o progresso foi notável, como ocorreu com o Brasil e o Chile, porém posteriormente se instalaram governos $ociali$ta$ demagogos e larápios, onde políticos roubaram milhões, bilhões, via estatais implodidas por falcatruas, via bancos públicos, como o BNDES. Tivemos até um presidente recordista, o de maior ladrão do mundo, hoje atrás das grades, porém com trouxas ideológicos e larápios loucos para libertá-lo ! Quanto pôr a culpa nos gringos, lembremos que os USA ocuparam o Japão e a Alemanha por mais de 40 anos, após o término da II Guerra Mundial, entretanto hoje são potências mundiais, incomodando seus “algozes”com seus produtos no comércio mundial. Já os que foram ocupados pelos comunistas russos, acabaram miseráveis após a implosão do marxismo( União Soviética) na Europa; só pra reerguer a ex Alemanha oriental foram gastos mais de 300 bilhões de marcos ! Ao contrário, o Japão e a Alemanha não saíram denunciando que foram explorados, muito menos que existiu, ou existe, um plano sinistro para não deixá-los se desenvolver. Comunistas, mudem essa retórica ridícula para encobrir o fracasso do marxismo e a incompetência de vcs !

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