Artigo | Everaldo Martins Neto | Coronavírus I: De onde veio? – “Os Mercados Úmidos”

De animais, como boa parte dos vírus que nos fazem adoecer. Alguns vírus da Influenza, por exemplo, originam em galinhas ou porcos, o HIV dos Chimpanzés, o Ebola, em 2014, provavelmente de um morcego. No caso do coronavírus, as evidências iniciais indicam que saiu de um morcego para um pangolim – um mamífero que pode ser encontrado na Ásia ou na África – até chegar em um humano. É bastante difícil que um vírus mortífero faça essa jornada porque seria necessário que todos os três hospedeiros – morcego, pangolim e humano – interagissem entre si em algum momento. O primeiro artigo que vou publicar sobre o coronavírus vai tentar explicar como isso aconteceu, abordando a questão dos “Mercados Úmidos” da China.

Em essência, um mercado úmido – que existe em vários países da Ásia e também na África – é um lugar onde animais vivos são vendidos para consumo, e basicamente os consumidores podem fazer o que quiserem com eles. Não é uma surpresa para a maioria dos cientistas que estes lugares tinham terrenos férteis para que um vírus como esse surgisse. Desde o Ebola, houveram várias reportagens sobre o assunto, principalmente nesta área da China, onde a concentração deles era grande – evidências iniciais apontaram para o mercado Huanan, em Wuhan, no sul do país. Nestes mercados, os animais ficam empilhados em gaiolas, e por consequência, os que ficam na parte mais baixa ficam ensopados com uma variedade de líquidos: água, urina, sangue, pus. É assim que um virus pode passar de uma espécie para a outra e, no processo de matar os animais e manuseá-los, pode contagiar um humano. Na verdade, é mais provável que isto tenha acontecido no ato de manusear, e não no consumo em si.

Estes mercados da China tem uma particularidade: oferecem uma grande variedade de animais, incluindo animais exóticos. Eles são de todos os lugares do mundo e têm seus vírus próprios. Isso só é possível por uma decisão do governo chinês nos anos 70. Em 1978, o governo comunista desistiu do controle da produção de comida por não conseguir alimentar a população, que na época era de aproximadamente 900 milhões de pessoas. Foi permitido, então, o cultivo privado. A partir daí, algumas grandes empresas passaram a ter monopólio sobre a produção de carnes populares como porco, vaca e frango, enquanto alguns fazendeiros menores passaram a cultivar animais como cobras e morcegos para se sustentar. O regime passou a apoiar esse cultivo uma vez que reconheceu que ele estava alimentando as pessoas. Se algum fazendeiro conseguisse sair da pobreza por conta própria, tinha o apoio do governo.

Em 1988, porém, o regime adotou a “Lei de Proteção a Animais Silvestres”, que mudou o panorama do mercado. Os animais silvestres agora eram considerados recursos naturais de propriedade do Estado, que significa dizer que é algo que pode ser usado em benefício do ser humano. A lei também encorajava a domesticação e cultivo destes animais. Uma indústria, então, passou a existir. Esses pequenos cultivos tornaram-se maiores e, somado ao aumento da população e da variedade de animais oferecidos – ratos, zebras, ursos – que estavam agora disponíveis no mercado úmido, o risco de contaminação por novos vírus também cresceu.

Como muitas indústrias, o triunfo do setor de cultivo e venda de animais silvestres encorajou o mercado ilegal. Animais como tigres, rinocerontes e o pangolim passaram a ser contrabandeados para a China. Foi neste contexto, no inicio dos anos 2000, que a epidemia de SARS começou no país, muito provavelmente provinda de um animal chamado de “Civeta”, uma especie de gato da África. O governo baniu o mercado de animais silvestres, mas logo depois voltou atrás. A indústria, em 2004, valia 100 bilhões de yuan, e exercia grande influência no governo, embora seja parte bastante pequena da economia chinesa da época. O poder de lobbying era muito grande, e é por esse poder de lobbying que o governo ainda permite este tipo de mercado. A indústria cresceu e hoje é bastante sofisticada e bem sucedida em manter o mercado fluindo, como propagandear estes animais como fonte de energia e de combate a doenças, de musculatura e melhor performance na vida sexual. A maioria dos cientistas concorda que isto não é verdade. O lobby só é possível porque os animais são parte comum da dieta de uma minoria mais rica e com poder no país. A maioria da população não faz consumo de animais silvestres. Após o coronavírus, estes mercados foram banidos de novo. Porém, a não ser que a proibição seja concreta e permanente, isto pode acontecer de novo, como foi previsto por muitos cientistas ao redor do mundo.

No próximo artigo, vou avaliar a situação no mundo mas com o foco na nossa região. É preciso muita cautela para não espalhar desinformação e para saber discernir o que é verdade e o que não é. O risco é real e há que ser tomado todo o cuidado necessário: evitar aglomerações, só sair se for realmente necessário e lavar as mãos. Mas falarei disso mais a fundo no próximo artigo dessa série.

Fontes:

https://www.nationalreview.com/2020/03/the-chinese-wild-animal-industry-and-wet-markets-must-go

https://www.vox.com/videos/2020/3/6/21168006/coronavirus-covid19-china-pandemic

https://www.loc.gov/law/foreign-news/article/china-new-wildlife-protection-law/

https://www.businessinsider.com/wuhan-coronavirus-chinese-wet-market-photos-2020-1

RG 15 / O Impacto

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2 comentários em “Artigo | Everaldo Martins Neto | Coronavírus I: De onde veio? – “Os Mercados Úmidos”

  • 30 de março de 2020 em 17:57
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    Artigo esclarecedor em relação aos mercados úmidos, muito interessante. Também tinha a impressão de que era justamente a camada mais pobre da população chinesa que consumia animais silvestres, como acredita-se no senso comum. Texto muito bem escrito, parabéns ao autor. Estamos na espera do próximo artigo da série.

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  • 29 de março de 2020 em 01:59
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    Você escreve muito bem, e nos ajudou a entender a origem de toda essa pandemia. Continue postando! Grata!

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