Opinião – Estupro: o único crime que a vítima tem que provar ter sido vítima | Por Isabelle Maciel*

Infelizmente se sentir insegura em praticamente todos os lugares é uma realidade para as mulheres, e tem gente que vai achar que isso não passa de exagero da nossa parte, mas não é. Não estamos seguras nas ruas, no trabalho, na balada, na igreja, na escola, no berço e nem na própria casa, o fato é que não importa o lugar que você esteja e nem a sua idade, sendo mulher, você vai estar vulnerável a algum tipo de violência, e uma delas é o estupro.

Quem nunca passou por isso talvez não consiga imaginar a dor e os traumas que ficam em uma mulher que sofre um estupro, eu mesma não consigo imaginar isso, mas pelo fato de ser jornalista e ter trabalhos voltados para o público feminino, já tive a oportunidade algumas vezes de conversar com mulheres que sofreram essa violência. Cada uma sofreu de uma forma diferente, mas no olhar de todas eu consegui enxergar a mesma dor, uma dor para além da forma física, mas algo que está enraizado na alma.

Ao me relatarem suas histórias, percebi suas vozes tremulas, expressões faciais de sofrimento, lágrimas de tristeza, pausas de coragem para continuar e um olhar carregado de medo e as vezes até de culpa. Penso que contar o que aconteceu parece as vezes doer mais que a própria violência sofrida, além de relembrar um momento terrível, elas têm que lidar com inúmeros sentimentos ao mesmo tempo, e o pior deles é a culpa. Sim, as mulheres se sentem culpadas por sofrerem algo que jamais será culpa de quem é vítima, e ainda têm que provar que o crime aconteceu.

Por que isso acontece? Eu não preciso parar muito para pensar e responder que isso está muito ligado aos julgamentos que a mulher tem que enfrentar ao revelar que foi estuprada, as pessoas questionam sua roupa, questionam o horário que estava na rua, questionam o tanto que bebeu, questionam se é uma maneira de conseguir fama e dinheiro, questionam por ter aceitado sair com o cara, questionam seu comportamento, questionam de inúmeras formas, mas pouco questionam o verdadeiro culpado na história.

É muito difícil imaginar a dor daquelas que passam por isso, mas o medo de passar pelo mesmo todas nós sentimos e sabemos o quanto dói, afinal moramos em um país onde ocorrem cerca de 180 estupros por dia, e 82% das vítimas somos nós, mulheres, e mais de 50% são mulheres negras. Segundo os dados do 13º Anuário de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o ano de 2018 foi o que mais ocorreu casos de violência sexual, totalizando mais de 66 mil, e 54% das vítimas tinham até 13 anos. E na maioria dos casos (76%) o abusador é alguém conhecido da vítima, e infelizmente apenas 7,5% notificam a polícia sobre o estupro.

Se os dados assustaram você, homem que está lendo, tente imaginar agora o nosso medo diário, pois somos nós a maior porcentagem de tudo isso, até porque o estuprador tanto pode ser qualquer desconhecido na rua, como também alguém próximo como pai, avô, tio, padrasto, irmão, marido, namorado, primo, vizinho, amigo, professor, enfim, mais uma lista grande. E agora? Onde estamos protegidas disso? Nem a própria casa livra dos riscos?

Outra questão que chamo atenção é para a porcentagem das denúncias que chegam até polícia, comparando com o número de casos que acontecem por dia é quase nada, e esse silêncio da vítima está muito ligado aos questionamentos que citei anteriormente. Talvez algumas das mulheres que você conhece já foram estupradas e ninguém sabe, e o que silencia cada uma delas pode ser o medo dos julgamentos, as ameaças do abusador, a vergonha unida ao sentimento de culpa, o processo desgastante de reunir provas para denuncia e também a possibilidade grande de o estuprador não ser penalizado pelo crime.

Até quando a vítima vai ter que provar ter sido vítima enquanto o estuprador tem o benefício da dúvida? Até quando perguntas serão feitas para encontrar uma justificativa para o crime? Até quando a maioria das denúncias não vão resultar em nenhuma penalidade para o criminoso? Até quando 180 mulheres vão ser violentadas por dia? Esses são os questionamentos válidos a se fazer quando o assunto é estupro, e não aqueles que invalidam e julgam o relato de uma vítima.

Não julgue uma mulher que tem a coragem de expor o que sofreu, a ajude da forma que estiver ao seu alcance, seja encorajando a fazer a denúncia, seja apenas ouvindo o desabafo, seja ajudando a amenizar seu trauma, até porque a dor física passa e as vezes algumas sequelas ficam no corpo, mas a dor na alma jamais será capaz de ser curada. Umas das frases mais utilizadas é “acredite na vítima até que provem o contrário”, só que em quase 100% dos casos não existe “o contrário”, e sim uma mulher que teve seu corpo violentado e vai carregar consigo uma terrível lembrança para o resto da vida.

* Jornalista

RG 15 / O Impacto

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