Artigo – O petróleo determina o fim de uma Era monetária

Por Oswaldo Bezerra

Nos anos 50 os EUA conseguiram criar o conhecido “petrodólar” que se concretizou em 1971, quando Nixon sacou o dólar do lastro ouro. Também criou a determinação de que todos os países a negociassem petróleo apenas em dólar. Isso consolidou o dólar como a moeda mais forte do planeta.

Para isso, os EUA mantiveram a guerra do petróleo. Todo presidente que se atreveu a vender petróleo, que não fosse em dólar, foi assassinado ou sofreu golpe de Estado. O grande apoiador, e a carta na manga dos EUA na guerra do Petróleo, foi a Arábia Saudita, com sua enorme reserva de petróleo de baixíssimo custo de extração.

Em 1973 houve um bloqueio de petróleo que fez com que o preço do barril aumentasse 4 vezes. Foi a primeira crise do petróleo. Com isso houve escassez de combustível. Foi dado início a política intervencionista da Reserva Federal norte-americana. Os juros foram aumentados, consideravelmente, para que o dólar tivesse o mesmo valor que o ouro.

Hoje tudo mudou. Trump ameaçou a Arábia Saudita de retirada de apoio militar caso o país não reduza sua produção. A família real saudita se mantém no poder graças as bases militares americanas no país, que impedem revoltas populares e mantém o povo sob constante ameaça. Trump, por telefone, ameaçou o príncipe saudita em 2 de abril, que caso não fosse feita a redução da produção de petróleo, ele não evitaria que o congresso americano retirasse as tropas daquele país.

Diferente dos anos de 1970, hoje a taxa de juros do nos EUA caiu tanto que o cotizam no negativo. Também acontece o contrário no tocante ao petróleo, diferente da escassez dos anos 70, que permitiu manter a hegemonia do dólar americano, o que temos agora é um excesso de oferta.

A Arábia Saudita enviou aos EUA 40 milhões de barris de petróleo em 7 petroleiros. Volume que é 7 vezes maior do usual. Ao mesmo tempo, o preço do petróleo desmorona. Este envio ameaça a manutenção  de 10 milhões de empregos nos EUA. Algo parecido do que aconteceu ao Brasil como efeito da Lava Jato sobre nossa indústria nacional, sobretudo a indústria petrolífera.

A Arábia Saudita vai destruir a indústria de petróleo de xisto, a indústria mais subsidiada do mundo. Enquanto os EUA vociferam contra a Rússia e Arábia Saudita, exigindo diminuição de produção. Descaradamente, os EUA, que super subsidiaram sua indústria de petróleo de xisto, produzem hoje mais do que qualquer país da OPEP. A resposta da Arábia Saudita foi enviar milhões de barris de petróleo a preço negativo aos EUA.

Em setembro de 1973, Richard Nixon disse que “como aprendeu, o presidente Mosadegh, um petróleo sem mercado não traz muitos benefícios ao país”, em referência a nacionalização do petróleo do Iran em 1951, ao boicote dos EUA e alinhados, e ao golpe de Estado promovido pelos EUA no Iran em 1953. Em outubro de 1973, os países da OPEP multiplicaram o preço do petróleo por 4. Ironicamente, Petróleo sem mercado é o que ocorre hoje como o petróleo do faturamento hidráulico americano (xisto).

O keynesianismo é a teoria econômica que defende a ação do estado na economia com o objetivo atingir o pleno emprego. Nixon  sabia que ao desvincular o dólar do ouro a economia evoluiria para um sistema baseado em dívida e dinheiro FIAT (sem lastro), e deixaria para trás o dinheiro duro.

Confiava que a obrigação do comércio internacional de petróleo em dólar manteria a hegemonia da moeda americana. Por isso, manteve a guerra do petróleo e aplicou golpes de Estado ou bombardeou países que tentaram nacionalizar a indústria, ou negociar o produto em outra moeda que não fosse o dólar.

A época de Nixon foi a última em que os assalariados recebiam uma remuneração digna nos EUA. Os empregos por lá passaram para sub-remunerados, como empregado do Walmart, até chegarem hoje a uberização, que beira a miséria. Nixon era consciente dos danos que cometeu a economia americana.

Hoje com a reviravolta do setor do petrolífero ocorrem absurdos como a indústria de petróleo de xisto, que há dez anos dá prejuízo, mas é subvencionado pelo Estado. Nixon tirou o dinheiro duro da economia, mas parece que este ciclo se acabou. Sinal disso são as diversas crises que são cada vez mais intensas como a de 2000, a de 2008 e agora a de 2020. A diferença é que atualmente há um dinheiro duro concorrente ao dólar: o bitcoin.

O bitcoin é um fenômeno mundial. Ele representa a separação entre dinheiro e Estado. Recentemente, Vladimir Putin foi perguntado sobre o bitcoin. Ele respondeu que não pode haver uma criptodivisa nacional. Para o presidente russo, as criptodivisas são supranacionais e não possuem fronteiras.

Para enfatizar o fim do sistema de petrodólares, pela primeira vez na história, desde 1870, o preço do petróleo, tanto no nominal como no real se cotiza no negativo. No gráfico da relação dívida e PIB versus velocidade monetária dos EUA se desassociam cada vez mais a partir dos anos 2000. Segue  a dívida para o topo do gráfico e a velocidade monetária para baixo. O desenho do gráfico é o mesmo que demonstrou a União Soviética na época do seu fim.

RG 15 / O Impacto

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