Artigo – Manobras da indústria farmacêutica na era do corona vírus

Por Oswaldo Bezerra

Encontrar a cura ou imunização ao covid-19 é hoje o maior desafio para a Medicina. Uma vez realizado este objetivo nascerá um outro desafio. Que seja para todos e não para alguns! Esse pensamento tem como base a realidade de hoje quando vacinas e medicamentos para outras doenças impactam de maneira desigual um país ou estrato social.

Uma comparação mais parecida é o HIV onde ainda não há uma vacina. A aplicação de retrovirais paralisa tanto o avanço da doença que quem tem acesso a eles possam ter uma expectativa de vida quase igual a de uma pessoa sã. Hoje, 64% das pessoas infectadas no mundo (mais de 14 milhões) não tem acesso a este tipo de tratamento. Sem acesso ao tratamento HIV positivos morrem bem mais cedo e continuam transmissores da doença.

Outro exemplo é a hepatite B que tem vacina comprovada desde 1982. A enfermidade atinge 250 milhões de pessoas no mundo. Ao todo morrem em decorrência desta doença 1 milhão de pessoas por ano. É um exemplo de impacto diferente entre países ricos e pobres (como África e Sudeste Asiático). Hepatite B é a principal causa de câncer de fígado de todo o mundo, apesar de ser evitável há mais de 40 anos.

Não é só na África e no Sudeste asiático onde há exemplos de desigualdade na cura, tratamento ou imunização. Nos EUA o aumento de preço exorbitante da insulina afeta os mias pobres, principalmente, latinos e afrodescendentes que são mais vulneráveis a diabetes. Os EUA promoveram cortes financeiros para tratamento de diabetes. Hoje as ampolas de insulina nos EUA custam 300 dólares (cerca de 1400 reais). O custo de produção é em torno de 20 dólares. Foi descoberto em 1922.

A crise atual é o corona vírus que impactou todo o globo. Quase nenhuma indústria deixou de ser golpeada economicamente pelo impacto negativo. Há uma indústria que não foi prejudicada, mas sim beneficiada. Além disso, tem as melhores expectativas quanto ao futuro. É a indústria farmacêutica. Esta indústria fatura quase 1 trilhão de dólares anuais.

Devido à urgência de parar a pandemia, por exemplo, o governo norte-americano aprovou um pacote para as maiores farmacêuticas do mundo num valor de 8,3 bilhões de dólares. Este valor é para que eles descubram uma cura ou um tratamento. No pacote concedido para a indústria, os congressistas, que lá nos EUA também são os próprios lobistas das empresas, conseguiram inserir a garantia de que não sejam limitados preços de vendas de suas descobertas.

Na União Europeia também houve um acordo dos euro-deputados para garantir que as descobertas, de pesquisas financiadas por dinheiro estatal, não caíssem em domínio público. Na Europa também houve a denúncia que empresas farmacêuticas privadas requisitam resultados de pesquisas de Universidades patrocinadas por dinheiro estatal.

Não se pode por toda a culpa na indústria farmacêutica pela falta de acesso a medicamentos no mundo. Muitas vezes outros fatores como guerras, corrupção ou má administração de autoridades se encarregam disso. O problema é que o negócio farmacêutico não consiste na repartir o dinheiro, recebido gratuitamente hoje, em facilidade de acesso aos medicamentos no futuro. Elas são rivais na luta para descobrir primeiro uma cura, mas são unidas na hora de fixar preços.

RG 15 / O Impacto

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