Casos de covid-19 avassalam comunidades indígenas na Amazônia Brasileira incluindo o Pará

Nessa pandemia da covid-19, o cenário de morte, medo, tristeza, dor e saudade também faz parte do cotidiano de milhares de indígenas da Amazônia Brasileira. A covid-19, doença ocasionada pelo novo coronavírus, já atingiu 78 etnias da região. Delas, 22 são do Pará. Ainda segundo dados publicados no informativo “Covid-19 e Povos Indígenas na Amazônia Brasileira” da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), ocorreram 249 mortes em 45 dos 78 povos indígenas já atingidos pelo novo coronavírus, 3.662 casos foram confirmados e 384 suspeitos na Amazônia Brasileira, que, além do Pará, conta com os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão.

Do total de 249 mortes, 56 indígenas são do Pará, onde há mais de 500 infectados. Os dados são do último dia 15, portanto, ainda não incluíam a morte de uma das maiores lideranças indígenas na região, Paulinho Paiakan, do povo Kayapó, 67 anos, ocorrida na quarta (17). Assim, somam 57. Já dados da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) informam que 529 indígenas foram confirmados com a covid-19. Destes, 29 tinham morrido até quarta.

Segundo Lili Chipaia, indígena da etnia Chipaia, da região do Médio Xingu, em Altamira, oeste do Pará, que é secretária executiva da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (Fepipa), os casos só começaram a ser referenciados e notificados na primeira semana de maio. “Eles aumentam de forma avassaladora. O maior número de infectados hoje é com os Xikrin do Cateté, com 250 infectados e oito mortes – sendo seis líderes idosos, uma criança e uma mulher, de 21 anos. Sem que haja informação de comorbidades. As mortes envolvem principalmente idosos e também professores e lideranças indígenas, como Paulinho Paiakan, do povo Kayapó, nosso grande líder da história dos povos indígenas do Pará e da luta do movimento das pautas por políticas públicas e proteção dos direitos ambientais”, lamenta Chipaia.

Ela aponta ainda que os números devem ser bem maiores, uma vez que os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde não têm notificado os casos dos indígenas que não residem nas aldeias, isto é, os que vivem em contexto urbano ou não. Eles são cerca de 35% a 40% dos indígenas no Pará. “Isso é um grande erro da Sesai, porque indígena é indígena onde estiver. A Federação e outras organizações indígenas têm atuado junto ao Ministério Público Federal para que isso seja considerado”.

Além disso, ela informa que, na semana passada, a Fepipa em parceria com a Coiab enviaram carta ao governador do Estado, Helder, solicitando um Plano de Contingenciamento Emergencial mais eficaz e que tenha exequibilidade, pois não adianta o pedido ficar só no papel.

“Pedimos a visibilidade dos casos reais, o contingenciamento, EPIs para as aldeias, a garantia de materiais de higienes e máscaras. Além da questão das cestas de alimentação para dar subsídios que fiquem na aldeia. A Funai recebeu R$ 11 milhões para investir em cestas básicas junto à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mas muitos povos ainda não tiveram acesso e as famílias indígenas são grandes”, reclama Lili Chipaia.

A tragédia não é pior por conta de medidas tomadas pelos próprios indígenas, que buscam implementar o isolamentos social e o fechamento dos seus territórios, logo que tiveram notícias dos primeiros casos da covid nas aldeias. “Desde abril já sentimos os impactos da covid e a situação não está pior porque nós mesmos tomamos a iniciativa de nos isolarmos nos territórios das aldeias. Vimos pela imprensa que os casos chegavam em Santarém e Itaituba. Há cerca de um mês, já morreram dez Munduruku e a maioria idosos, dentre eles cacique e outras lideranças”, lamenta Anderson Painhum, da etnia Munduruku, que atua como presidente da Associação Indígena Pariri, a qual representa 12 aldeias no médio Tapajós, oeste do Pará.

Ainda segundo ele, as possibilidades do novo coronavírus ter chegado nas aldeias do Alto e Médio Tapajós envolvem as questões do garimpo, com destaque para o município de Jacareacanga, e as idas e vindas dos indígenas à cidade em busca de alimentos, atendimento médico e benefícios governamentais.

Apesar de todo esforço dos indígenas, que atuam com o lema #Fiquenaaldeia, ainda é impossível garantir com que todos permaneçam nas aldeias. “Esses atos pela sobrevivência os colocam em alto risco de contágio. Os fatores que mais incidem na questão da alimentação é porque o produto ambiental de recursos de sustentabilidade está escasso devido aos grandes garimpos, madeiras, plantações de fazendas, grilagem das terras, e não há mais caça como deveria ter”, completa Chipaia.

Para ela, os governos precisam pensar nas políticas públicas de acesso incluindo as especificidades com mecanismos e ferramentas de comunicação até virtuais, “para levar entendimento aos indígenas de que o problema é sério, altamente perigoso e pode dizimar toda a população indígena”, alerta a indígena Chipaia.

 

Indígenas querem hospitais de campanha nas aldeias. Hoje só existe serviço básico e nas grandes aldeias

Diante de tantas incertezas e medos, eles ainda enfrentam a fragilidade oferecida na assistência pública de saúde nas aldeias. Só há pontos de apoio nas grandes aldeias e com serviços básicos. “Como na aldeia só há atendimento básico, todos os doentes moderados e graves vão para o hospital da cidade ou para o Hospital Regional, mas lá não há espaço com oxigênio e acabam tendo que ir até para Belém. Em Itaituba tem um hospital regional para ser inaugurado, mas, enquanto isso, nós, indígenas, ficamos adoecendo nas aldeias. Muitos estão infectados e não há testes. Nossa preocupação maior é com as crianças, idosos, mulheres grávidas e os que têm asma, pneumonia, diabetes e pressão alta”, conta Alessandra Korap, também do povo Munduruku, da região do Médio Tapajós, em Itaituba, oeste do Pará.

Segundo Alessandra, os Munduruku e diversas etnias no Pará estão sem amparo social e econômico das esferas do poder público. A ajuda chega mais por meio das Organizações Não-Governamentais. Ainda assim, o apoio não é o suficiente diante de tantas necessidades. Por isso, os Munduruku lançaram a Campanha Munduruku Contra a Covid-19 com finalidade de implementar hospitais de campanhas nas aldeias.

Para os indígenas, medidas urgentes precisam ser tomadas pelo poder público, principalmente, nas esferas Federal e Estadual. As reivindicações envolvem, em especial, a implementação de hospitais de campanha e médicos dentro das aldeias, e a realização de testes. “Preferimos hospital aqui dentro, porque os parentes não querem mais ir morrer na cidade. Nem serem enterrados lá sem ver os parentes. Lá não tem leito nem para quem não é indígena”, frisa Alessandra, que também colabora com as decisões na aldeia, já que os indígenas atuam em coletivo e a decisão é da maioria. Além dos Munduruku, o Pará abriga hoje mais de 56 etnias com cerca de 70 mil indígenas falantes de dezenas de idiomas dos troncos linguísticos.

Desde terça (16), a Sesai e o Ministério da Saúde foram contactados para falarem das ações e reivindicações indígenas, mas não sem manifestaram até o fechamento desta edição.

NOTA SESPA

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) informa que já disponibilizou alas específicas para a comunidade indígena nos hospitais de campanha, com leitos exclusivos em Belém, Marabá, Santarém e Breves. Além disso, o Estado junto com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Ministério da Saúde e Exército oferecem dentro das aldeias, com equipes médicas da Polícia Militar, consultas, visitas domiciliares aos indígenas idosos, testes rápidos e medicamentos para tratamento de sintomas leves e moderados. A Sespa informa ainda que enviou a todos os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) máscaras de proteção e álcool 70%.

NOTA FUNAI

Em nota, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informa que “tem reforçado as ações de prevenção ao contágio da covid-19 entre a população indígena no Pará e demais estados que fazem parte da Amazônia Legal”.

Afirma que o trabalho é realizado em conjunto com a Sesai do MS e órgãos locais. Em todo o Brasil todo são 39 Coordenações Regionais, 225 Coordenações Técnicas Locais e 11 Frentes de Proteção Etnoambiental em todo o Brasil. “A atuação destas unidades descentralizadas tem sido no sentido de promover a permanência dos indígenas nas aldeias durante a pandemia de covid-19. Para isso, vem trabalhando, entre outros, para garantir a segurança alimentar das comunidades em situação de vulnerabilidade social. Além disso, a Funai participa de diversas barreiras sanitárias, a fim de impedir a entrada de não indígenas nas aldeias”, diz a Funai.

A Fundação informa que já entregou a famílias indígenas do Pará mais de cinco mil cestas de alimentos, adquiridas com recursos próprios ou provenientes de doações. “Quase 11 mil cestas básicas, obtidas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com recursos do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), serão distribuídas nos próximos dias no Estado. Além disso, mais de 4 mil kits básicos de higienização e limpeza adquiridos pela Funai também serão entregues às comunidades indígenas do Pará”, afirma.

Nos estados da Amazônia Legal, a Funai destaca que atingiu a marca de 43.460 cestas básicas distribuídas (adquiridas com recursos próprios ou doações). Outras 126.878 cestas (obtidas pela Conab com recursos do MMFDH) já estão em processo de distribuição. Quase 30 mil kits de higiene e limpeza foram entregues a indígenas da região.

Ainda como medida preventiva, a Funai informa que enviou Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) aos servidores das unidades descentralizadas do órgão, que seguem em contato com as aldeias, o que inclui máscaras, luvas, toucas e óculos de proteção, além de testes rápidos.

A Funai também comunica que participa da Operação Verde Brasil 2, deflagrada pelo governo federal para executar ações preventivas e repressivas contra delitos ambientais na Amazônia Legal.

Em outra frente, a Funai destaca que lançou campanha de doações Empresa Solidária, criada para receber gêneros de necessidade básica, como alimentos não-perecíveis e produtos de higiene e limpeza, e encaminhá-los às aldeias. O objetivo é reforçar o isolamento das comunidades indígenas por meio das doações.

Fonte: O Liberal
Imagem: Dida Sampaio/Agência Estado

Um comentário em “Casos de covid-19 avassalam comunidades indígenas na Amazônia Brasileira incluindo o Pará

  • 23 de junho de 2020 em 00:36
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    Cadê o auxílio das centenas de ONG, tão “”protetoras dos povos indígenas””, para conter o avanço ? !

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