Educação Excludente: Efetividade do EAD esbarra na inacessibilidade imposta por questões socioeconômicas

O sistema educacional brasileiro está posto à prova com a atual pandemia da covid-19; uma metodologia que se baseava majoritariamente no ensino presencial se viu vulnerável com a suspensão das aulas presenciais em todo País. Essa mudança abrupta em nosso cotidiano, somada a questões socioeconômicas, evidenciou as desigualdades na educação, principalmente em regiões historicamente isoladas, onde o suporte necessário à boa aprendizagem ainda não se faz presente.

Em relatório divulgado na última semana de junho, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) informou que 40% de um grupo de mais de 200 países não têm como oferecer apoio a estudantes no ensino a distância, durante a pandemia. Na descrição sobre o Brasil, foram feitas observações quanto a escolas que aprovam estudantes que não assimilaram de fato os conteúdos e a barreiras enfrentadas pela parcela negra, definidas como “legado de oportunidades limitadas de educação”.

EAD E AS ESPECIFICIDADES DE CADA ALUNO

O jornal O Impacto convidou a Profª Tânia Brasileiro para dar mais luz à discussão; ela é Doutora em Educação e fala sobre a excludência de alunos que há na metodologia EAD; sobre a modalidade, ela afirma: “Eu diria que não é a modalidade a atender o problema, até porque a, modalidade, foi criada para situações adversas principalmente para aqueles que não tinham acesso a uma educação presencial e esse é um momento extremo, que nós estamos vivendo em relação aos fatos e não às condições, porque a EaD, enquanto modalidade, tem como um dos princípios atender a particularidade, a especificidade de cada um, então seria perfeito se nós tivéssemos as condições materiais, as condições efetivas, para que essa educação pudesse chegar ao usuário com qualidade nas condições básicas que ela que precisa ter, ela se torna exclusiva ou inclusiva dependendo dessas condições”.

Estudos mostram como alunos socialmente vulneráveis acabam enfrentando mais obstáculos no contexto atual. Agora, a exclusão escolar se amplia com a falta de acesso à internet. Apesar de ser adotada pelas redes públicas de ensino, como forma de garantir que os estudantes possam dar continuidade aos estudos, a ferramenta não está ao alcance de todos, que precisam utilizá-la para complementar materiais impressos, assistir a aulas online, resolver exercícios ou manter contato com os professores.

Um outro empecilho ao EAd em nossa região tem sido a estrutura oferecida em relação à internet e a seu acesso, para a Doutora “A internet, é fundamental, nós temos esse projeto do Pará de internet gratuita , mas ela não chega, às escolas, ela não chega nas casas dos alunos, então isso é algo que deveria estar sendo pensando, para ser estendida até esses alunos da rede pública de ensino para todo Estado, uma outra questão é uma estrutura das famílias, as condições efetivas materiais que famílias da maioria dos nossos alunos das redes públicas de ensino, porque há uma grande diferença, é social, é socioeconômica, entre a rede pública e a rede privada, então a própria rede privada sustentou por um período esse ensino a distância, então não é só o aluno mas também o professor, o professor precisa ter informação, precisa também ter acesso a essa tecnologia, é complexa essa questão na medida em que o problema não está na modalidade, mas nas condições objetivas de vida dessas populações, então nesse sentido, há exclusão sim, mas não pela modalidade, mas sim pela própria exclusão socioeconômica que essas famílias já estão postas. Não é que a tecnologia não ajude, são as condições dadas para a tecnologia funcionar; vamos pedir ao governo do estado internet gratuita para todos, há condições efetivas para isso!”

Em muito estados, inclusive no Pará, o método Ead tem sido adotado em substituição às aulas presenciais na rede de ensino, ainda que haja uma quantidade expressiva de alunos que, por condições adversas, não tiveram acesso ás aulas digitais. Sobre a situação dos alunos que tiveram sua aprendizagem prejudicada pela falta de condições e eventualmente não puderam se utilizar do Ead, a Profª. Tânia afirma: “a própria distância que está posta na relação entre professor e aluno mediado, por computador, por um aplicativo ou por um celular; essa relação por si só, não desqualifica o processo de aprendizagem, são os princípios da EaD, sendo uma boa EaD, é um bom sinal, um bom professor qualificado e um aluno em condições de estudar, se as condições não foram dadas adequadamente, esse aluno tem o direito de ter uma revisão, de ter uma reposição dessas aulas que foram ministradas presencialmente. Eu acredito que o papel do conselho de educação precisa ser estratégico, ele precisa garantir a esses jovens, a essas crianças, que eles tenham direito de ser atendidos naquela fragilidade que por ventura ocorreu, e bem se sabe que ocorreu e muito; poucos alunos puderam ter acesso a essa educação remota, até porque ela realmente não expõe a realidade EaD; modalidade EaD tem outros princípios que não estão sendo atendidos, então, é uma relação de mediação pelo computador”.

Os alunos com deficiência constituem o grupo que tem o seu atendimento ainda mais prejudicado, e sobre essa realidade, a professora complementa: “Os alunos com deficiências, as mais variadas deficiências, eles realmente devem ter nesse momento um complicador muito maior que aqueles que não têm, eu questionaria, quais são as estratégias que cada escola dessa vem usando quando o atendimento é presencial? Ela tem uma sala de atendimento específico? Se a rede de ensino não tem tecnologias digitais a relação professor-aluno não consegue nem se estabelecer, então não é do ser humano, o problema é da tecnologia e das condições objetivas para se ter acesso para que essa mediação ocorra.”

AULAS PRESENCIAIS PÓS-PANDEMIA

Individualmente, cada unidade federativa tem definido um calendário, ou um ensaio, de retorno gradativo às aulas presenciais. Muito ainda está condicionado às recomendações dos setores ligados à saúde, e dos dados de cada região ligados à proliferação da covid-19. Para que haja uma volta segura às salas de aula, a Doutora em Educação orienta: “Depende das condições que serão postas pela área de saúde, então esse retorno é algo que ninguém pode dizer quando será e com que condições efetivas, então esse retorno, quando puder ocorrer, terá toda segurança sanitária que precisa ter, porque a vida do ser humano vale mais do que a Economia, eu acredito nisso, e a educação tem o papel de formar seres humanos, se o ser humano está precisando de um núcleo onde ele é prioritário, eu diria que a primeira coisa que se precisaria fazer, é uma estratégia para o acolhimento, porque mais importante do que os conteúdos é a questão emocional. Hoje todos nós estamos abalados, vivemos com o medo permanentemente, cada um na sua casa, cada um no seu canto, uns mais outros menos, mas as crianças dependem dos seus pais, de quem cuida e terão de se deslocar. Esse retorno precisa ser seguro, precisa ter estratégias de saúde, prevenção para que elas voltem a uma sala de aula; precisa-se ter uma preocupação, e aí cabe uma pesquisa, eu não consigo conceber um retorno se eu não der um diagnóstico detalhado das condições objetivas dessas crianças, porque aquelas que puderem, por um acaso, permanecer em casa, têm condições objetivas de ter um acompanhamento, mesmo que a distância, elas continuariam com o apoio de suas famílias. Outras crianças que necessitem e possam voltar, com todas as garantias, essas retornariam às aulas presenciais, e eu questionaria, e o professor? Como é que ele fica nisso tudo? Nós estamos focando apenas no aluno, estamos esquecendo do profissional, que em sua maioria é um professor que nem da rede de ensino efetivo é, ele é um temporário, sem nenhuma garantia de nada para sua profissão, e ele está aí, como os médicos, como os profissionais da saúde, na linha de frente com o desafio, sem estar preparado, tecnicamente falando, para lidar com essas ferramentas imunológicas. Por que fecharam os laboratórios de informática das escolas? Por que esses laboratórios não são prioridades? Estamos verificando que a inclusão digital, que hoje mais que nunca é um pré-requisito, está à parte. Precisamos estar atentos a receber pessoas em toda a comunidade escolar, do aluno à merendeira, ao vigia; todos são seres humanos e vivem esses mesmos contextos, muitos perderam familiares, perderam amigos e há um luto aí, há um sentimento de perda e isso precisa ser tratado antes de se pensar em conteúdo, ele não é importante?? Claro! Mas só depois que se tenha condições de resgatar as pessoas para que elas se sintam fortes para voltar a querer estudar.”

ENSINO A DISTÂNCIA EM SANTARÉM

As aulas da rede municipal de ensino estão suspensas desde o dia 23 de março por meio do Decreto 095/2020 da Prefeitura de Santarém, apenas a rede Estadual de Ensino e instituições privadas têm adotado a metodologia do Ensino a Distância. O Jornal O Impacto procurou a titular da Secretaria Municipal de Educação de Santarém, a Sra. Mara Belo.

Com relação à falta de implantação de EaD na Rede Municipal de Ensino, a titular da Semed se manifestou em nota:

“O Ensino a Distância (EaD) é uma metodologia de ensino que utiliza recursos tecnológicos disponíveis e pode ser um aliado do processo de ensino e aprendizagem, onde professores e alunos estão separados espacialmente. Para Mara Belo pode ser realmente uma estratégia nesse período de pandemia. No entanto, é importante considerar: 1) a Rede Municipal tem seu ordenamento administrativo, técnico e pedagógico para uma metodologia presencial; 2) público diferenciado em faixa etária, e regiões; 3) os públicos infantil e fundamental I precisam dessa interação professor e aluno. O trabalho de acompanhamento sistemático e afetivo é o diferencial juntamente com o convívio social e afetivo de experiências; 4) para alcançar através da EAD todo esse público em igualdade de condições, precisamos de uma mega estrutura que não se faz do dia para noite.

A titular da Secretaria Municipal de Educação (Semed) acredita que uma parte do cumprimento das horas de trabalho escolar pode ser cumprida por essa metodologia.

Com relação a EaD, a Semed está em processo de construção de um planejamento nesse sentido, mas prevalecendo as horas presenciais”.

Por Rafael Duarte

RG 15 / O Impacto

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