Artigo – EUA teme perder América Latina para a ascensão chinesa

Por Oswaldo Bezerra

Uma reunião virtual com ministros de Relações Exteriores de países latino-americanos e caribenhos na manhã desta quinta-feira (23), o chanceler chinês Wang Yi apresentou um projeto de recuperação para a região depois da pandemia do Covid-19, com apoio à produção de vacinas.

O Brasil, por motivos de submissão direta ao presidente norte-americano Donald Trump, não participou da reunião. Com sua posição de hostilidade à China, Bolsonaro deixará o Brasil fora do projeto de recuperação econômica e põe até em risco a relação do país com seu maior parceiro comercial.

Esta reunião entre América Latina e China, que ocorreu hoje, é mais uma dose de temeridade aos EUA de perderem a América Latina para a influência chinesa. As relações entre a China e os países da América Latina prosperam, mas agora em diante enfrentam novos desafios, pois a região enfrenta crises em diferentes aspectos.

Os governos latino-americanos buscam novos caminhos para o desenvolvimento sustentável. A AL deu boas-vindas a China em meados dos anos 2000. Desde então, as relações entre estes países tornaram-se mais pragmáticas. Isso aconteceu quando as elites e partes da população dos países da região começaram a vislumbrar os benefícios da aproximação com o país asiático. Espera-se que os países da América Latina e do Caribe continuem investindo em relações mais fortes e estreitas com Pequim.

Para mudar isso os Estados Unidos precisariam encontrar uma abordagem mais generosa e sofisticada em relação aos parceiros do sul. Em termos de comércio e investimento, em questão de uma década, a China deixou de ser um país com quase nenhuma presença na região latino-americana para ser o participante de maior peso.

A política econômica “nós ganhamos e ganham vocês” da China oferece aos países da região uma oportunidade de inserção nas cadeias de suprimentos globais. Os Estados Unidos, por sua vez, lançam desesperadamente campanhas, principalmente no hemisfério ocidental, para competir com Pequim. Por vezes, utilizam de golpes de estado e até atuação direta do seu serviço secreto para manipular eleição na América Latina.

Pequim busca garantir a entrada de energia, metais e alimentos em seu território porque precisa deles para alimentar sua economia robusta e sua crescente classe média. Outro objetivo da política atual da China é expandir os mercados de exportação. A República Popular da China (RPC) procura competir e assumir a liderança comercial internacional. O gigante asiático também quer apoiar seus parceiros ideológicos na região da América Latina como Nicolás Maduro na Venezuela e as novas autoridades comunistas em Cuba.

Com Donald Trump os países latino-americanos começaram a perceber ainda mais a China como um parceiro mais viável, considerando que o presidente norte-americano recorreu repetidamente à retórica nacionalista e anti-imigrante latino. Os EUA viram a crescente influência da China e entenderam que seu papel histórico como a principal potência da região está em risco. O governo Trump falhou em alterar essas tendências.

Ao contrário, a expansão econômica e política da China ocorrem sob a bandeira da proteção da soberania nacional dos países da região, juntamente com o aumento significativo do comércio, empréstimos e investimentos. Abordagem muito bem recebida por nós latinos.

Em 2000, o volume de comércio entre a RPC e a América Latina e Caribe foi de 12 bilhões de dólares, em 2019 já atingia 315 bilhões de dólares. Hoje Pequim é o principal parceiro comercial do Brasil, Chile, Uruguai, Peru e Argentina. Também empresta dinheiro em grandes quantidades aos governos latino-americanos. Empréstimos estes devolvidos por alguns países com matérias-primas.

Ultimamente, as empresas chinesas deixaram de investir exclusivamente nos setores de extração e começaram a investir na prestação de serviços e na construção de infra-estruturar, além de projetos de eletricidade, internet, ferrovias e portos. A China redireciona parte considerável de seus investimentos para solucionar os problemas dos países latino-americanos no campo do transporte e logística. Tudo isso visa facilitar a movimentação de mercadorias entre dois parceiros de negócios distantes.

Os fabricantes latino-americanos reclamam que Pequim não cumpriu sua promessa de abrir totalmente seu mercado interno a produtos e serviços provenientes da AL. Mesmo assim, a atividade econômica da China traz efeito positivo para a América Latina.

Empresas chinesas também querem desempenhar um papel maior nas telecomunicações da América Latina e do Caribe. A Huawei tenta ganhar grandes concessões em redes 5G, o que preocupa os EUA.

As elites nos países da região também estão divididas em dois grupos. O primeiro se beneficiou das relações econômicas mais estreitas com Pequim; o outro, como fabricantes brasileiros, tiveram a concorrência das importações mais baratas da RPC. Mesmo assim, a presença de Pequim serve, para estes fabricantes, como um contrapeso aos Estados Unidos. Os governos latino-americanos sabem que não escapam da grave recessão causada pelo surto do Covid-19 sem a generosidade de Pequim.

Enquanto Trump fez renascer o intervencionismo da “Doutrina Monroe do século XIX”, que considera a América Latina um quintal norte-americano, a China recorre à diplomacia comercial resoluta e de poder brando. Pequim se beneficia claramente da abordagem truculenta do governo Trump.

Joe Biden, pré-candidato à Presidência dos EUA, culpa Washington mais do que Pequim pelo estado deplorável das relações entre os Estados Unidos e os países da América Latina e do Caribe. O democrata, no entanto, afirma que os Estados Unidos têm uma grande vantagem na região. Segundo ele, China e Rússia não têm os mesmos laços e uma história comum com os povos latino-americanos.

RG 15 / O Impacto

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