Artigo – O Iphone estatal

Por Oswaldo Bezerra

Em 2007, o celular se massificava. O custo do aparelho diminuía e passamos a ser a nação dos celulares. Os novos aparelhos, naquele ano, chegaram a 3 milhões no Brasil. Foi um crescimento de 21% em relação ao ano anterior. Lembro de pessoas criticando a pretensão dos celulares serem, ao mesmo tempo, aparelho telefônico, instrumento de ouvir música e câmera fotográfica.

Foi naquele ano também, em um evento muito concorrido nos EUA, que o famoso Steve Jobs prometeu, com grande pompa, apresentar 3 produtos novos. Sob aplausos, o dono da empresa Apple, revelou que os três produtos eram um tocador de música, um telefone revolucionário e um dispositivo para acesso a internet.

Jobs atraiu toda a atenção nos minutos seguintes, para finalmente anunciar que os três produtos eram um só aparelho, que ele denominou de “Iphone”. Eu já havia me surpreendido com a Apple anos antes.

Foi no início dos anos 90, quando utilizei um computador com mouse e um sistema operacional interativo no meu trabalho, enquanto na Universidade só havia tido contato com aqueles computadores de letrinhas verdes, e sem mouse.

Jobs declarou que estava reinventando o telefone. O diferencial era ouvir música. Na época, nem ele poderia prever a enorme quantidade de aplicativos que um smartphone teria. Hoje podemos chamar um táxi, usar como GPS para nos guiar por ruas e estradas, comprar comida, vender, nos comunicar por vídeo e muito mais.

Tudo isso foi possibilitado pela conexão à internet, e claro, por causa de uma nova interface. A grande novidade mesmo foi uma tela sensível ao toque. Por isso Steve Jobs dedicou maior parte da apresentação a ela.

O dono da Apple explicou que a tela sensível ao toque foi possível devido há anos e mais anos de dedicação e pesquisa. Muito tempo e recursos foram usados para o desenvolvimento da tela sensível ao toque. Quem dedicou tanto tempo assim e tanto recurso?

Foi na Inglaterra o primeiro trabalho científico dedicado a uma tela sensível ao toque. Este trabalho foi publicado em 1965 por E.A. Jhonson, que trabalhava para a Royal Radar Establishment, uma instituição pública do Ministério das Telecomunicações inglesa. Contudo, a primeira utilização desta tecnologia foi feita por engenheiros da Organização Europeia para Pesquisa Nuclear. Organização mantida por dinheiro público de 23 países.

É justo informar que a revolução dos smartphones precisou vir acompanhada de outra tecnologia: a internet. O embrião da internet veio da DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) que é uma agência estatal norte-americana, por tanto, se utilizava de dinheiro público.

É verdade, a combinação destes dois produtos, em um só equipamento foi feita pela Apple. Mas a própria Apple nasceu de um financiamento maciço do Small Business Investment Company, agência norte-americana de financiamento, que visa dar suporte a pequenas empresas de alto risco e manter os EUA no topo da tecnologia.

Sem o investimento público, sem o Estado, o Iphone não existiria. Quando você discorda da idéia que só o mercado inova, só o mercado cria, você é rotulado como “comunista de iphone”. Usando um iphone e argüido por uma repórter, o governado do Maranhão (do partido comunista) respondeu assim a pergunta sobre ser um comunista de Iphone: “Claro, o comunismo prega que a tecnologia essencial seja para todos, enquanto alguns pregam que é para poucos, nós, os comunistas, pregamos que seja para todos.

A escritora italiana Mariana Mazzucato, autora do livro “O Estado Empreendedor”, conta em sua obra como o Estado não apenas banca as pesquisas científicas, como também financia, de maneira generosa, as empresas que transformam os resultados destas pesquisas em produtos lucrativos. Nas empresas chamadas “neocom” este investimento estatal vai muito, mas muito mais além.

Não damos conta disso. O produto final é muito mais badalado que as pesquisas que bancaram seu surgimento. Por exemplo, o marketing envolvido com a Apple é muito maior do que o da Royal Radar Establishment. Assim, em nossas percepções, imaginamos as empresas como o lugar dinâmico da revolução tecnológica do mundo. No Estado pensamos como apenas uma pesada engenhoca, cheia de burocracia e que subtrai recursos das empresas por impostos, dinheiro este que poderia desenvolver novas tecnologias. É uma visão totalmente errônea da realidade.

Para Mariana Mazzucato esta visão distorcida da realidade tem, justamente, o Iphone como exemplo. Ela afirmou “Será que o Iphone é apenas obra de Steve Jobs e sua equipe? Será que existe outro responsável de que não ouvimos falar? Minha pesquisa na Universidade de Sussex aponta para um parceiro ignorado: o Estado. Tudo aquilo que faz um celular ser um smartphone teve financiamento público como a internet, o GPS, a tela sensível ao toque, o dispositivo de voz Siri. Por quais razões nunca ouvimos isto? A biografia de Jobs possui 700 páginas em nenhuma delas menciona o esforço público. Seria a razão poder esconder o fato de que o Estado socializa os riscos (quando pesquisa e financia), mas nunca socialize as recompensas?”.

RG 15 / O Impacto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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