Artigo – O Rio de Janeiro formou um dos maiores revolucionários do século XX

Por Oswaldo Bezerra

Era um jovem militante anti-colonialista, por conta disso, ele foi expulso de seu próprio país. Conseguiu um emprego de cozinheiro em um navio, e assim viajou ao redor do mundo. Foi no início dos anos da década de 1910. Por conta deste trabalho ele conheceu o Rio de Janeiro.

No Brasil ele viu como era profunda a desigualdade. No entanto, no Rio de Janeiro ele percebeu que lá era um lugar de esperança e de muita luta. Foi um ambiente que moldou aquele que seria um dos principais revolucionários do século XX.

Este jovem nasceu em 1890, com o nome de batismo de Nguyễn Sinh Cung. Na época, seu país nem estava no mapa. A região era conhecida apenas como “Indochina”, que era um termo genérico usado no Ocidente para designar tudo o que existia “entre a Índia e a China”. Compreendia o que é hoje os países que vão desde o Laos, ao Camboja e Vietnã. Na época, seu país foi desafortunadamente colonizado pelos franceses.

Ao longo dos séculos de dominação imperialista, primeiramente, os portos foram tomados e depois avançaram lentamente para o interior, para poder estabelecer domínio total. Foram tempos terríveis, em que os europeus trabalharam, obstinadamente, para dividir entre si a África e a Ásia, em uma luta covarde contra os locais.

Foi por isso que, em 1911, nosso jovem sofreu perseguições políticas pelas autoridades coloniais, e foi forçado a deixar sua terra natal. Ele viveu inúmeras aventuras ao redor do mundo. E uma das mais marcantes em sua vida, foi parar no Rio de Janeiro. Ele foi abandonado no porto da “cidade maravilhosa”, em 1912. Havia contraído uma doença misteriosa a bordo de seu navio.

No Rio, o jovem conheceu um clima fervoroso. Na época, a escravidão já havia acabado, mas o Brasil ainda vivia a exclusão total da população negra. Não existiam também direitos trabalhistas, e havia uma decadência silenciosa da República Velha.

Com portos movimentados, o Brasil recebeu não apenas cólera e outras epidemias, mas viajantes e expatriados de todo o mundo. Eles trouxeram novas ideias, cores e sons a um país que continuou a se desenvolver, apesar de sua oligarquia conservadora.

O jovem se recuperou da doença e foi trabalhar em um bar na Lapa. Passou a morar no bairro de Santa Teresa. Com frequência, voltava ao porto para tentar encontrar um navio para voltar a sua terra. Passou a encontrar regularmente com o sindicalista José Leandro da Silva, um cozinheiro negro pernambucano que trabalhava no porto. Tornaram-se grandes amigos.

O militante brasileiro enfrentava autoridades racistas, que ainda aplicavam punições contra trabalhadores negros. Apenas dois anos antes, a “Revolta da Chibata” estourou naquele mesmo porto, quando marinheiros negros se rebelaram contra oficiais brancos que os açoitavam.

A luta de José Leandro foi narrada, posteriormente, por este jovem asiático em seu famoso artigo “Solidariedade Internacional”. Foi uma obra que escreveu em 1921, nove anos depois de passar pelo Rio. Ele contava como José Leandro liderou uma greve no porto com duas reivindicações: oito horas de trabalho diário e remuneração igual para negros e brancos.

O brasileiro, amigo do nosso jovem asiático, depois de jogar ao mar um policial por não deixá-lo entrar em um barco para fustigar trabalhadores, José Leandro, foi cercado por dez policiais e fuzilado. Está descrito em detalhes no artigo do nosso jovem estrangeiro.

Na ambulância, mesmo tendo levado 11 tiros, José Leandro cantou “A Internacional”. Posteriormente, as autoridades policiais tentaram incriminar o militante brasileiro pela morte de um inocente, morto no fogo cruzado. Mas um movimento de solidariedade, constituído por trabalhadores e advogados, pressionou o tribunal a absolvê-lo. No final das contas, o sindicalista conseguiu sobreviver e conquistar sua liberdade.

Impressionado com as belezas naturais do Rio e sua vida boêmia, o jovem não entendia um cenário de degradação social tão grande. Ele testemunhou a entrada do sindicalismo trazido por europeus, bem no porto onde sempre frequentava. Eram movimentos socialistas que inspiravam os movimentos sindicais.

Finalmente o jovem conseguiu um navio que o levou até Boston. Cinco anos depois, ele se estabeleceu em Paris, onde ingressou no Partido Comunista Francês. Após a Primeira Guerra Mundial, ele foi para a União Soviética e de lá começou sua jornada para retornar a sua terra natal, o Vietnã. Então começou a luta anti-imperialista e pela independência de seu país.

Nguyễn Sinh Cung passou a ser conhecido como Hô Chi Minh, que em vietnamita significa “aquele que ilumina”. Isso foi parte da transformação do jovem Hô e da luta revolucionária que libertou o Vietnã moderno.

Nascer em um inferno deu o conhecimento a Hô, do que era a praga do colonialismo. Também criou a possibilidade de Hô ter acesso ao mundo inteiro, por meio de suas rotas marítimas. Figura icônica e principal herói vietnamita, Hô lutou e derrotou os imperialismos da França, Japão e Estados Unidos.

Esse histórico de luta foi quem lançou as bases que permitiriam a seu povo garantir sua autonomia em relação aos chineses, no final dos anos de 1970, quando o Vietnã socialista resistiu e derrotou o regime bárbaro do Khmer Vermelho, do Camboja.

A lição de Hô foi profundamente internacionalista. Os exemplos foram os direitos civis dos negros norte-americanos conquistados apenas com base em uma grande luta, e da classe trabalhadora norte-americana que se levantou contra o fato dos seus filhos serem enviados para matar e morrer no outro lado do mundo. Uma guerra neocolonial, que como qualquer conflito desse tipo, só serviria aos interesses dos poderosos do país imperialista.

Hô já tinha visto isso em 1945, quando o movimento de libertação vietnamita teve que enfrentar tanto os japoneses, que ocuparam a Indochina, tirando-a da França, quanto os próprios franceses. Na luta contra os japoneses, os guerrilheiros comunistas fizeram parte dos Aliados. Desavergonhadamente, após a rendição de Tóquio, os norte-americanos alistaram militares japoneses para restaurar um domínio colonial sobre o Vietnã.

Depois de ter ajudado os norte-americanos a vencer o Eixo (Japão/Itália/Alemanha), o Vietnã libertado foi atingido por mais bombas norte-americanas do que pelas forças do Eixo lançadas durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje, o Vietnã é uma história de sucesso. Tem uma economia próspera e é um modelo global na luta contra a pandemia COVID-19. Hô é o grande herói vietnamita, faleceu em 2 de setembro de 1969. A luta de Hô ajuda a lembrar que a vitória do povo contra imperialismo e colonialismo, não é uma ideal utópica, é uma realidade concreta e possível. Podemos dizer que Hô criou o Vietnã, mas o Rio de Janeiro criou o Hô Chi Minh.

RG15/O Impacto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *