Artigo – A pressão inflacionária que volta a nos atormentar

Por Oswaldo Bezerra

A disparada dos preços dos alimentos impulsionou a inflação oficial no País. Em setembro, com 0,64%, obtivemos o maior resultado para o mês desde 2003, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados pelo IBGE. Em novembro foi registrada uma alta de 0,95%. A variação foi maior que a de outubro, que subiu 0,89%. Caminhamos a passos largos para os tempos da hiperinflação da época da ditadura militar?

A primeira catástrofe relacionada à hiperinflação que se tem notícia aconteceu no império romano. Foi bem na época de seu declínio. Na época o governo atribuiu seus problemas econômicos a ganância dos comerciantes. Hoje se sabe que aquele problema econômico enfrentado pelo Império estava relacionado à emissão sem controle de moeda.

Para corrigir o problema, o imperador da época, Diocleciano, resolveu criar um controle de preços sobre 1300 produtos além de congelar o preço dos produtos. Além de controlar preço dos artigos de primeira necessidade congelou salário de funcionários públicos. A pena de morte foi colocada como punição para quem desobedecesse este controle.

A hiperinflação romana continuou mesmo depois de Diocleciano. O ato do imperador se provou um verdadeiro fracasso econômico. Mesmo assim não deixou de ser copiado no Brasil. Tinha alguma chance de que aqui seria diferente e não se transformar no mesmo fracasso econômico romano?

No Brasil da hiperinflação, nos tempos do cruzeiro, lembro quando meu pai recebia o salário e corria para o supermercado. Enquanto isso os remarcadores de preço não tinham descanso. Na segunda metade dos anos 80, o presidente Sarney tentava domar a hiperinflação que herdou da Ditadura Militar.

Nenhuma tentativa do presidente maranhense estava funcionando. Em 1986, o “plano cruzado” congelou os preços de alimentos, combustíveis, produtos de higiene e de limpeza. Foi a perfeita cópia do que o Império Romano fez e não deu certo. Aqui havia esperança de que funcionasse, pois existiu a figura do “fiscal do Sarney”.

Eram pessoas radicais, com comportamento bem-parecido com os atuais apoiadores do governo Bolsonaro. Eles andavam de comércio em comércio com uma tabela da SUNAB (Superintendência Nacional de Abastecimento) órgão extinto em 1997.

Com o incentivo do governo todos os supermercados, mercadinhos, mercearias acabaram por se tornar palco de brigas e confusões. Sarney se tornou um herói nacional muito bem quisto pela população. Isso não durou muito tempo. As confusões nos comércios foram crescendo tanto que os pequenos comércios, sem poder contratar seguranças para se proteger, tiveram que fechar as portas.

A confusão em supermercados, que viraram caso de polícia, foi característica marcante da primeira fase do “plano cruzado”. A segunda fase foi bem pior. As prateleiras dos supermercados ficaram vazias. As pessoas passaram a ter dinheiro para comprar, mas os produtos não estavam lá. Filas enormes eram feitas na frente dos comércios que havia produtos, e as compras eram limitadas por comprador. Passaram a faltar também os remédios.

Foi o fim do plano cruzado, mas veio o “plano cruzado 2”. Os preços foram descongelados e a inflação veio mais faminta do que era antes. A imprensa passou a chamar a inflação de “dragão”, pois se dia dizia que devorava seu salário e queimava seu dinheiro. Muitos planos econômicos foram enviados para guerra contra o dragão, e todos foram derrotados.

A representação de “dragão” para a inflação demonstra que esta é uma característica das Ciências Humanas. Ela influencia diretamente o moral das pessoas, o bem-estar físico e psicológico. Derrotar o dragão causou uma desgraça para população, e até mortes para muitas pessoas. Foi por culpa de um destes malfadados planos econômicos que perdi um ente querido.

O que mais nos assusta hoje é que talvez o “dragão” não esteja morto. O receio é que ele esteja já despertando de um sono e saindo de sua caverna. Tive esta impressão hoje, quando fui à padaria, afinal de contas 5 pães carecas e 200 gramas de queijo a 15 reais assusta. Para onde caminha o preço dos alimentos no Brasil e o problema da segurança alimentar?

O governo brasileiro está ajudando muito na volta da inflação. O Brasil abriu mão do seu estoque regulatório de alimentos. A alta dos alimentos é a maior desde 2002. O País não combateu a alta do dólar para beneficiar a exportação, e com isso encareceu os alimentos que importamos.

Dói lembrar que, com uma moeda de 50 centavos de real, já foi possível comprar, em 1994, meia dúzia de ovos, ou meio quilo de arroz, ou meio quilo de feijão, ou um quilo de farina de trigo, ou um quilo de cebola. Pior ainda é que como estamos sobre uma pressão inflacionária muito grande, não podemos crescer por risco de nossa economia se esfacelar.

RG 15 / O Impacto

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