Das redes sociais para a Câmara Municipal, Biga Kalahare diz que trabalhará para todos

Seria mentira dizer que muitos não ficaram surpresos quando, na última eleição municipal, Márcio Adamos Lima Silva, de 31 anos, estava entre os eleitos. Quase não reconhecido por seu nome de batismo, mas pelo nome artístico, Biga Kalahare surgiu como personagem das redes sociais e agora é uma figura política, tendo sido eleita com 1276 votos. Embora caricata, Biga promete realizar um trabalho sério, e já demonstra que realmente cumprirá a promessa, pois em poucos dias de mandato já apresentou requerimento solicitando atenção à periferia, estava entre os que pediram inclusão do Sindicato dos Médicos, Sindicato dos Enfermeiros e Sindicato dos Trabalhadores de Saúde no Comitê da covid-19 da Prefeitura de Santarém, e protocolou um ofício solicitando diligências da prefeitura municipal de Santarém, em relação as irregularidades ocorridas durante o primeiro dia do ENEM.

Sendo o primeiro vereador assumidamente homossexual a se eleger em Santarém, Biga chega à câmara em um momento em que o país parece se encontrar mais intolerante do que nunca. Segundo relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado em 2019, o Brasil registra uma morte por homofobia a cada 23 horas, sendo então o país onde mais se assassina homossexuais no mundo. Isso significa que ser gay nesse país é uma luta diária contra o preconceito e a violência, e a pouca representatividade da comunidade LGBT na política é uma prova disso. A grande maioria dos eleitos geralmente são homens héteros, brancos, empresários e de famílias tradicionais que muitas vezes passam adiante os sobrenomes e os mandatos. Assim, são muito poucos os candidatos ou eleitos que se sentem livres para declarar a sua sexualidade publicamente, pois podem se sentir (e por vezes são mesmo) marginalizados e rejeitados pelos espaços da política.

Em entrevista a TV O Impacto, Biga Kalahare afirma que cada um pode se sentir à vontade para chamá-la como quiser, tanto no masculino quanto no feminino. Embora use o nome artístico, que foi autorizado a ser usado na placa da porta de seu gabinete, na câmara ele é O vereador Biga. No entanto foi com A Biga, no feminino, que ganhou fama na cidade, pois, como afirma, trata-se de uma personagem. “Eu costumo brincar que sou vereador…ah. Os dois, com h no final”, disse com muito bom humor.

Para O Impacto, Biga falou sobre a sua trajetória nas redes sociais que culminou na decisão de concorrer a uma vaga na câmara.  Biga diz que começou na internet, no blog do JK, em 2018. “Ele me convidou para trabalhar como repórter, fazendo reportagens com uma pitadinha de humor, depois de ele ter visto um vídeo meu que viralizou. Fiquei um ano trabalhando com ele. Depois comecei a usar o Instagram, que hoje é uma maravilhosa ferramenta para se ganhar dinheiro, para trabalhar e para divulgação. E aí eu peguei gosto pelo Instagram, me desvencilhei do JK e fiquei em “carreira solo”. Foi quando foram bombando os meus vídeos, e comecei a ser contratado para ser presença vip, viajei até para fora do Brasil, para a Venezuela.  E no meu primeiro perfil no Instagram eu era seguido por vários famosos, mas infelizmente a galera, quando vê alguém crescer, quer derrubar, e então esse  meu primeiro Instagram, na época com quase 140.000 seguidores, foi derrubado. Eu criei outro e também foi derrubado.  Criei mais um e novamente foi derrubado, mas eu consegui recuperá-lo e estamos aí, lutando por um selo de verificação para ver se me deixam em paz.

Sobre os ganhos, Biga relatou que “o Instagram em si não te dá dinheiro, ele faz você ganhar dinheiro. No caso eu ganhava dinheiro devido ter muito seguidores e ter muitas visualizações nos stories, então as empresas me procuravam e me pagavam para eu publicar o trabalho deles e dessa forma eu ganhava o meu dinheiro. Quando maior o teu alcance, maior o teu cachê. Eu vivi dois anos assim”.

Em relação à candidatura para as últimas eleições municipais de Santarém, Kalahare falou sobre o surgimento da ideia e da oportunidade. Como era figura conhecida, os amigos e algumas pessoas lhe deram a ideia, mas foi por vontade de fazer mudança, por ser da periferia, que aceitou encarar o desafio.  “No começo de tudo eu não tinha o intuito de ir para a política não. Mas as coisas vão acontecendo, e nós nunca temos que falar não, pois estamos propícios a mudanças, você pode dormir com um pensamento e acordar com outro. E aconteceu isso, me elegi, e vou tentar fazer o meu melhor para a comunidade, para Santarém, porque o meu sonho, e eu acho que agora posso conseguir realizar, é ver Santarém como pólo do turismo. Quem já viajou muito pelo Pará sabe que a gente tem uma vasta riqueza, ou seja, temos um lugar que tem tudo para “bombar” no turismo. E agora eu, com o poder que eu tenho, a facilidade que tenho, vou focar muito nisso”.

Inevitavelmente, conversamos sobre a sua sexualidade. Biga diz, sem nenhum medo de ser quem é, que se assumiu “bicha” aos 19 anos. Tal jeito de falar sobre si pode soar para os mais conservadores como desagradável, mas em um país tão intolerante como o nosso é interessante ver alguém, principalmente na política, não ter receio de assumir a homossexualidade de forma natural. Das mais de 58.208 vagas para vereador distribuídas pelo Brasil (TSE), somente 80 foram ocupadas por pessoas LGBTI+ (site vermelho.org). Embora seja um número histórico e expressivo, ainda é absurdamente pouco se comparado ao total.

Kalahare conta que nunca antes havia sido filiado a algum partido, mas assim que se envolveu com política escolheu o PT. “Eu sempre me particularizei com o PT porque até então, no meu conhecimento, é um dos partidos que mais busca para dentro dele a galera esquecida, a galera negra, índia, gay. Não vejo outros partidos que tenham isso, e quando têm eles não deixam o gay, o índio, o preto à vontade. Tanto que foi através do PT, em 2004, que tivemos a primeira mulher negra eleita em Santarém, que foi a Odete. O PT sempre quebrando tabus e barreiras”.

Biga respondeu ao questionamento sobre como será o seu trabalho no parlamento santareno dizendo que como é o único representante dos LGBTQI+ vai focar muito nessa classe e tentar projetos que sejam aprovados para ajudá-los. Também falou sobre as críticas e comentários que surgiram logo após o resultado da eleição.  “Eu procuro nem olhar, e geralmente quando eu via algum comentário era porque alguém me mandava, mas eu pedia para não mandar mais. Porque quando falam de você, mesmo não sendo verdade, aquilo machuca, te deixa pra baixo e com raiva. Eu não olhava, mas meus amigos me defendiam”.

Algumas pessoas usaram as redes sociais para postar imagens de Biga em uma comemoração vista como exagerada e com bastante bebida. Biga disse que as pessoas no Brasil acreditam em tudo o que veem e ouvem de primeira. “A questão daquelas imagens que soltaram, são fotos antigas. A única foto que tem da época da campanha e que é real é a que estou recebendo a notícia de que ganhei”. E junto com os comentários surgiram mais críticas de pessoas que afirmavam que Biga poderia não concluir o mandato por não saber se comportar. “Bom, aí a gente vai saber agora no decorrer desses quatro anos”, respondeu com segurança e bom humor. “Minha equipe e eu estamos fazendo cursos para conhecermos o regimento interno. Tenho um assessor jurídico, Arlisson, que é advogado, e tenho o assessor parlamentar, que é o Ciro, que também é advogado, então eu estou sendo muito bem instruído. E tem a assessora Daina Abenathar. Ou seja, estou muito bem assistido”.

Por fim, Biga Kalahare, o vereador, agradece aos 1276 votos. “E muito obrigado também a você que me difamou, porque foi graças a vocês que tomei uma proporção maior”, retrucou. “E vou trabalhar para ambos, tá? Pra geral. E espero que vocês me deem força, porque me dando força, isso faz com que eu consiga exercer melhor o meu mandato para com todos, e assim deixar Santarém linda, maravilhosa e bombástica”.

Por: Thays Cunha

RG 15 / O Impacto

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