Artigo – A “Amazonificação” das Universidades é uma tendência sem volta?

Por Oswaldo Bezerra

Estudei na Pennstate University nos EUA, em 1994. É uma Universidade pertencente ao Estado da Pensilvânia. Mesmo sendo uma entidade estatal, esta instituição de ensino superior guarda característica de uma empresa privada. Por exemplo, seus cursos não são gratuitos como as Universidades públicas brasileiras e seus departamentos têm liberdade burocrática tanto para contratar como demitir funcionários.

Esta liberdade burocrática é um fator diferencial para as Universidades norte-americanas, sejam estatais ou privadas. Elas podem contratar alguém que se destaque em alguma área da Ciência de qualquer parte do mundo.

Esta vantagem competitiva faz com que em todos os rankings de classificação universitária as norte-americanas sempre guardem pelo menos 4 entre as 5 melhores.

Elas podem oferecer altos salários e “roubarem” os melhores professores do mundo de outras Universidades. Nem tudo são flores quanto na questão de direitos trabalhistas nas instituições de ensino superior daquele país. Pelo menos é o que uma tendência tem demonstrado.

Na Collin College, uma instituição de ensino superior no Texas, dois professores envolvidos na organização sindical foram demitidos. O diretor daquela Universidade se orgulhou de uma “amazonificação” da instituição.

É um episódio que oferece um exemplo terrível da direção que o ensino superior está tomando naquele país. O que acontece lá rapidamente acontece aqui no Brasil também, é bom lembrar. O termo que o diretor da instituição usou é referente à diretriz tomada pela conhecida empresa Amazon. Esta empresa não tolera trabalhador sindicalizado. Trabalhadores que se envolvem com sindicatos são sumariamente demitidos pela Amazon.

Suzanne Jones e Audra Heaslip foram professores do Collin College no Texas, até 28 de janeiro de 2021. Naquele dia, os administradores da faculdade informaram ambos, um após o outro, que seus contratos de trabalho não seriam renovados.

Os dois educadores são líderes da Texas Faculty Association (TFA). Jones é a secretária da organização e Heaslip é o vice-presidente. O corpo docente no Texas já é proibido de negociar coletivamente. Contudo, associações como a TFA, que é afiliada da National Education Association, podem fornecer apoio jurídico e funcionar como sindicatos, ajudando os trabalhadores contra os empregadores.

O dia em que Jones e Heaslip foram dispensados ​​foi o mesmo dia em que a TFA agendou sua primeira reunião de recrutamento. No ano passado, os dois ajudaram a formar oficialmente diretrizes para o Collin College seguir no verão de 2020, devido à fraca resposta da faculdade à pandemia COVID-19. Na época, a administração da escola apresentou um plano de reabertura sem exigência do uso de máscara.

Havia motivo para preocupação. Em 14 de novembro de 2020, Iris Meda, uma professora de enfermagem morreu de COVID-19. Sentindo que não havia frutos dos argumentos dos professores, a TFA foi envolvida para ajudar a responsabilizar esse corpo, oferecendo outro meio para programar segurança.

Tanto Jones quanto Heaslip contrataram o conselho da TFA e estão exigindo sua reintegração no Collin College. Uma Petição patrocinada pela TFA descreve as “rescisões injustas e retaliatória” da dupla como “uma luta flagrante e perigosa pela liberdade acadêmica, governança compartilhada e condições seguras de trabalho”.

Além da demanda imediata, a dupla quer continuar se organizando para resistir à “corporatização” do ensino superior, um processo que enfraquece as reivindicações de liberdade de expressão e de reunião dessa instituição.

O diretor da Collin College, Matkin, usou a palavra “Amazonificação”. Ele está muito orgulhoso de ter implantado a Amazonificação na faculdade e quer simplificar o tratamento dos alunos como clientes.

Matkin é muito honesto sobre a direção que as instituições de ensino superior estão tomando, pois, reduzirá custos trabalhistas. Reverter essa transformação é um grande desafio para os trabalhadores da educação, mas sem sindicatos isso se torna impossível.

RG 15 / O Impacto

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