Artigo – O espírito cabano

Por Oswaldo Bezerra

O paraense tem nas veias o sangue revolucionário e progressista. Hoje dorme o sono do engano das mídias, das notícias falsas, mas tem dentro de si o sangue revolucionário. Este espírito ainda vive. Das muitas revoltas populares que existiram no Brasil, nenhuma foi tão intensa e genuína como a Cabanagem.

A dimensão da Cabanagem só foi superada por sua tragédia. No entanto, serviu de alerta. O povo tem limite quanto ao seu grau de exploração. Ir além deste limite é jogar faísca na gasolina. Naquela revolta se uniram negros escravizados, mestiços, índios e brancos em 6 de janeiro de 1835.

Os revoltosos invadiram o Palácio do Governo Provincial de onde retiraram o governador Bernardo Sousa Lobo junto com o chefe de força militar e os mataram. Isso aconteceu apenas dez anos depois do massacre do Brigue Palhaço.

O presidente da Província era escolhido pelo Rio de Janeiro e na maioria das vezes eram pessoas sem o tato para governar a região. Um estado com muita miséria e direitos não igualitários serviram de ingrediente para a revolução.

Havia a participação de índios, quilombolas, escravos, mestiços mas havia também uma pequena parte da elite. A liderança foi de Felix Malcher. Este era um coronel ligado a Guarda Nacional. No primeiro momento da Cabanagem ele tomou o poder da Província do Grão Pará. Só ficou no poder 1 mês e meio.

Felix Malcher fez um acordo com o Rio de Janeiro e traiu a causa cabana em busca de perpetuação do poder. Devido a esta traição Felix foi morto pelos seus ex-aliados. Quem assumiu o poder foi Francisco Vinagre. Do mesmo jeito que seu antecessor, Vinagre confabula com seus aliados para entregar o poder de novo ao Império. Foi afastado do poder por isso.

Assumiu o poder Eduardo Nogueira, que ganhou o nome de Eduardo Angelim por ser um homem duríssimo em suas ações. Por falar em nomes, os cabanos se auto-intitulavam “Patriotas”. Cabanos foi o nome dado pela regência. Em oito meses foram três governos diferentes quando finalmente o Império atacou a Província do Grão Pará.

O Barão de Caçapava veio para destruir a rebelião. Por isso, antes de descer em terras paraenses promoveu intenso bombardeio a cidade das Mangueiras. Toda a liderança cabana fugiu de Belém e estabeleceram uma nova capital na cidade de Cametá, a 235 quilômetros de Belém.

Uma vez em terra, o Barão de Caçapava encontrou uma Belém abandonada e destruída. Os militares vindos do Rio só encontraram na cidade mulheres e crianças. Todos os revoltosos tinham fugido para Cametá e entranhas dos rios. Muitos dos revoltosos espalharam a rebelião para o litoral nordestino e para regiões interioranas da Amazônia.

O Barão de Caçapava tinha em suas mãos a Guarda Nacional, efetivos do Exército e muitos mercenários ingleses. Ele resolveu fazer com que as tropas adentrassem as malhas fluviais da Amazônia para eliminar todos os revoltosos.

Na época da revolução cabana a Província do Grão Pará tinha uma população de cento e vinte mil habitantes. Deste total, vinte e cinco mil eram índios, quarenta e cinco mil eram mestiços, trinta mil eram negros e apenas vinte mil eram brancos. Em 1940, quando a revolução terminou trinta mil paraenses haviam sido assassinados pelas tropas do Império. O número populacional do estado só foi recuperado 60 anos depois.

A rebelião foi domada. Eduardo Angelim foi preso e enviado para Fernando de Noronha. Ficou no exílio até 1950. A história reescrita tentou apagar o maior genocídio do Brasil praticado por suas forças armadas.

A primeira menção histórica sobre a cabanagem foi fabricada por Domingos Raiol em 1865. Foi uma versão totalmente distorcida da história em uma visão totalmente imperialista. O historiador Caio Prado Júnior afirmou que a cabanagem foi uma das mais genuínas revoltas populares da história do Brasil. Isso porque, segundo ele, a população pobre chegou efetivamente ao poder da Província.

A Cabanagem foi inspirada na Revolução Francesa.  Na época do Rei Luís Filipe foi da França, em meados de 1814, em, sentavam-se à direita dele os políticos que apoiavam medidas que favorecessem a elite como banqueiros, magnatas e grandes burgueses. Sentados ao lado esquerdo do Rei, ficavam os políticos que apoiavam medidas que favorecessem trabalhadores e camponeses. Assim nasceu a classificação de Esquerda e Direita na política.

O Rei francês decidiu seguir o mais fácil e apoiou somente a Direita. O resultado foi uma revolução sem precedentes que foi batizada de “Era do Terror”.

Um governo precisa entender que nem tanto ao mar nem a terra. Deverá haver um equilíbrio nas suas políticas em relação às elites e ao povo. O legado e a memória política dos cabanos seguem vivos para provar isto. Apesar de tentarem apagá-la.

RG 15 / O Impacto

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