Covid-19: Morte de idosos aumenta pobreza de famílias que contavam com aposentadorias

Por Thays Cunha

Após um ano convivendo com a chegada do novo coronavírus, famílias pelo Brasil precisam lidar não só com a dor ocasionada pela perda de um ente querido como também com as dificuldades financeiras que vêm a passar após essas mortes, pois muitos do que se foram por causa da doença eram justamente os provedores do lar. Esse cenário dramático, além de trazer para as pessoas o trauma da ausência, impacta a vida financeira daqueles que ficam e, consequentemente, a economia do país. Esses mais de 330 mil mortos já contabilizados até agora eram filhos, mães, pais, mas também eram uma enorme e rica força de trabalho composta por médicos, enfermeiros, professores, motoristas, e outros, ou seja, eram pessoas que contribuíam não só para o sustento de suas famílias como também para o desenvolvimento econômico.

Com a piora na crise que o país tem atravessado nos últimos anos, muitas pessoas foram perdendo os seus empregos. Segundo o IBGE, até o 4º semestre de 2020 o Brasil chegou ao número de 13,9 milhões de desempregados. E com o cenário agravado pela pandemia, muitos desses então, sem ter como suprirem suas necessidades, acabaram por voltar a morar com parentes, amontoando vários núcleos familiares em uma mesma residência. E, em alguns desses casos, a única renda com a qual podem contar para as despesas de todos provém das aposentadorias dos idosos, uma vez que esse é um dinheiro pago com precisão todos os meses.

No entanto, desde o início da pandemia os mais afetados pela doença não só no Brasil como em todo mundo foram os idosos por serem mais vulneráveis às complicações causadas pelo vírus. De acordo com o boletim do Ministério da Saúde, até o início do ano de 2021 a covid-19 já tinha tirado a vida de pelo menos 140.000 pessoas acima de 60 anos. Isso nos leva a inferir que milhares de lares nos quais os ganhos desses idosos eram um complemento da renda ou mesmo a única fonte ficaram sem esse provento, uma vez que o recebimento da aposentadoria/benefício é cessada após o falecimento da pessoa. Isso significa que a dor ocasionada pelo óbito vem logo em seguida acompanhada pelo medo de não haver mais dinheiro nem mesmo para comer.

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulado “Os dependentes da renda dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres?”, no momento há uma alta dependência da renda daqueles com mais de 60 anos. Foi observado que em 20,6% do total de domicílios brasileiros a aposentadoria/benefício do idoso era responsável por mais de 50% da renda total da casa. “A renda mensal per capita desses domicílios era de R$ 1.621,8. Se esses idosos morressem, o rendimento médio per capita cairia para R$ 425,5. O impacto seria muito grande, uma redução de quase 75% que afetaria cerca de 11,6 milhões de pessoas, sendo 2,1 milhões com menos de 15 anos”.

Já na categoria na qual a renda do idoso era a única fonte de subsídios encontravam-se 12,9 milhões de domicílios, o que representa 18,1% do total. Para essas famílias a pandemia se mostra ainda mais cruel, pois muitas dessas pessoas que antes sobreviviam somente com o salário mínimo mensal recebido pelo idoso, ou até menos, se vêem sem provento algum após a perda desse aposentado/pensionista para a covid-19. Essa alta dependência de seus parentes idosos está levando muitos cidadãos a ultrapassarem a linha da pobreza, sendo a maioria crianças e adolescentes.

Isso vem então desmistificar a ideia de que o idoso, após criar a família, viverá o fim de sua vida com certa segurança e conforto em uma casa sossegada. Para complementar a renda, agora ainda mais apertada, muitos desses idosos até volta ao mercado de trabalho, seja de forma formal ou informal. Assim, nesse novo cenário quase de guerra ocasionado pela pandemia da covid-19, idosos que recebem algum provento do governo tem desempenhando um papel importante como provedores, uma vez que agora voltaram a sustentar os filhos e até os netos. Fica então o questionamento do que será dessas famílias atingidas pela mortalidade do vírus, pois se percebe que nada está sendo feito para amparar socialmente essas pessoas. No momento a única medida tomada pelo governo foi a volta do auxílio emergencial, contudo, além do menor valor e da não possibilidade da realização de novos cadastros, ele ainda será distribuídos para um número bem menor de beneficiários. Vivemos um período assombroso, com a educação em deterioração, falta de oportunidade de emprego, o que leva jovens e adultos a não conseguirem alcançar sua independência financeira, o que os obriga a viver nessa situação de dependência daqueles que tem algo a oferecer. E enquanto isso, políticos aumentam os seus salários, pois acreditam que os milhares de reais que recebem todos os meses não é o suficiente para que tenham uma vida decente. Se esse ritmo de desemprego e perda de renda continuar a crescer sem que nada seja feito para amenizar as consequências, cada vez mais famílias continuarão a depender de seus idosos, o que faz com que nenhuma dessa pessoas possa ter uma vida realmente digna e com todas as suas necessidades supridas.

RG 15 / O Impacto

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