“Ouvir também é se posicionar”
Por Pânysa Monteiro
Vivemos tempos estranhos, e Leandro Karnal descreve isso com precisão no livro Todos Contra Todos. Ele diz que estamos “cada vez mais apaixonados por nossas certezas e mais cegos para o diálogo”. A polarização não é mais apenas um fenômeno político; é um comportamento que se espalhou para todos os campos da vida, inclusive as instituições.
O problema da polarização é que ela transforma o contraditório em ameaça e faz do outro um inimigo a ser combatido. No lugar da escuta, surge o cancelamento. No lugar do debate, o rótulo. E quando cada um se coloca como dono da verdade, não sobra espaço para a democracia.
A advocacia não pode cair nessa armadilha. Como advogados e advogadas, sabemos o valor do contraditório e da ampla defesa. Defender as prerrogativas da classe passa, necessariamente, por preservar o diálogo – mesmo quando ele é desconfortável.
Por isso, neste momento em que a OAB participa do processo do Quinto Constitucional, nossa subseção decidiu abrir as portas igualmente para todos os candidatos da região. Ouvir cada um deles, sem escolher lados institucionais, é uma forma ética e responsável de conduzir esse processo.
Como presidente, sigo cuidando da instituição com neutralidade. Mas, como advogada, tenho minhas escolhas pessoais, meus candidatos definidos e minha consciência tranquila sobre isso. A diferença é que não confundo o espaço da presidência com o exercício do meu voto.
Sei que essa postura não agrada a todos. Há quem prefira o apoio explícito, há quem critique a escuta de quem já cometeu erros. Mas é preciso lembrar: ouvir não significa concordar. Ouvir não é ausência de posicionamento; é justamente o contrário. É um compromisso com a democracia interna, com a advocacia plural e com o respeito às escolhas individuais de cada colega.
Recentemente, li uma frase da Gabriela Prioli que me representa muito: “Que nossos silêncios nunca sejam de submissão. Que sejam sempre silêncios estratégicos. Quando retrucamos a todas as provocações, quem nos pauta é o outro.”
Nem tudo precisa ser respondido no calor da hora. Nem toda provocação merece eco. Nosso papel, enquanto instituição, não é alimentar rivalidades ou medos, e sim abrir espaço para que o processo democrático aconteça com maturidade.
Continuarei defendendo esse caminho: o da escuta, do respeito às escolhas individuais e da pluralidade de ideias.
Porque, no fim das contas, democracia não é sobre agradar todo mundo. É sobre garantir que todas as vozes possam ser ouvidas – inclusive as que discordam da nossa.
O Impacto


