CULTURA POPULAR: “FAZER UMA VAQUINHA”.

Por Célio Simões (*)

Vez por outra, somos gentilmente convocados a FAZER UMA VAQUINHA, isto é, comparecer com algum, se coçar, meter a mão no bolso (ou na bolsa), entrar num “ra-chá-chá” para ajudar alguém em uma dificuldade financeira, que necessita fazer uma cirurgia, comprar os cacarecos para o casamento, saldar um compromisso e tantas outras situações do cotidiano.

Há quem diga que as famigeradas “taxas extras” dos condomínios, que faz o regalo dos síndicos e o pesadelo dos condôminos, na verdade não passam de vaquinhas institucionalizadas, assim como as más línguas arriscam afirmar que a coleta de óbolos nas sacolinhas dos templos, durante os ofícios religiosos, é outra modalidade de vaquinha indispensável para ajudar nas obras sociais das casas paroquiais.

Mas de onde será que surgiu esta curiosa expressão usada em todo o País? Segundo o professor Ari Riboldi, no livro “O Bode Expiatório”, a expressão surgiu de uma prática de premiação no futebol, inspirada no jogo do bicho. Nessa inédita obra, o autor põe em destaque certas expressões envolvendo apenas o mundo animal, cuja origem quase sempre está lastreada em antigos costumes, lendas, mitos e no folclore.

Assim com a de hoje, outras estão alinhadas, como espírito de porco, tempo de vacas magras, tem boi na linha, bicho de sete cabeças, burro amarrado na sombra, idade da loba, boi de piranha, missa do galo, estar com a macaca, deu zebra, matar cachorro a grito, pagar o pato, lágrimas de crocodilo, memória de elefante, papagaio de pirata, soltar a franga, falar cobras e lagartos, ovelha negra, cabra da peste, deu zebra, cavalo dado não se olha os dentes, etc.

Relativamente a FAZER UMA VAQUINHA, consta que em 1923, a torcida do Vasco da Gama, tradicional Clube do Rio de Janeiro, resolveu motivar os atletas do time concedendo-lhes generosas premiações em dinheiro, desde que se empenhassem nas disputas conseguindo vitórias ou, se impossível, tornando difícil o êxito dos adversários.

Com esse desiderato, a fanática torcida vascaína dedicou-se a arrecadar numerário entre seus integrantes e simpatizantes, sendo que o valor apurado tinha inspiração nos números do jogo do bicho.

No padrão monetário da época, o 5 do cachorro, equivalia a 5 mil-réis, em caso de empate; o10 do coelho, equivalia a 10 mil-réis, em caso de vitória num prélio comum; e o 25 da vaca equivalia a 25 mil-réis, o maior dos prêmios, somente concedido em triunfos maiúsculos, contra os adversários mais fortes ou mais famosos, alcançados em partidas decisivas, como por exemplo, uma disputa no final do campeonato carioca.

Nesta última hipótese, era comum os torcedores afirmarem que tinham conseguido “fazer uma vaca”, isto é, juntar uma grana polpuda, correspondente ao prêmio máximo daquela época.

O tempo, que tudo transforma, se incumbiu de tornar a expressão “FAZER UMA VAQUINHA” (já no diminutivo) ser utilizada sempre que um grupo de pessoas deseja organizar uma festa, comprar algo de maior valor, enfrentar uma despesa inesperada, como até hoje se faz para quitar uma conta “salgada” num restaurante, conhecida como a “dolorosa”, propiciar meios para um doente fazer uma cirurgia, comprar uma cadeira de rodas, quitar dívida com agiota e até com a clássica coroa de flores, durante o velório de alguém que se foi e seja merecedor dessa derradeira homenagem.

Lembro da pacata Santarém dos anos 70 onde, inebriada pela fragrância dos jasmins do velho Mascote, a “Turma do América” se reunia às sextas-feiras para jogar conversa fora, curtir as patranhas dos contadores de lorotas, entregar-se ao embalo dos violeiros ou degustar aquele sorvete básico em generosas taças, acompanhados de outra com água tão estupidamente gelada que doía na nuca ao primeiro gole. Ao término do colóquio, almas refertas pelos prazeres mundanos, até os sabidamente faltos de “bufunfa” entravam na “vaquinha” para gratificar o estimado, prestativo e tolerante garçom que nos atendia (ou aturava) com invariável e invulgar presteza.

Os tempos mudaram e hoje existem vaquinhas na internet para quase tudo, criadas em sites específicos, algumas extravagantes, como a de cantores neófitos para gravarem seu primeiro disco, sendo muitas delas falsas, criadas apenas para capitalizar espertalhões, por isso se diz que vaquinha confiável é aquela que se faz com a cumplicidade dos amigos mais chegados, de induvidosa honestidade e em prol de uma causa justa.

Acontece também, infelizmente, a execrável “vaquinha reversa”, aquela que você comparece com o “dindim” sem ser consultado, ouvido ou cheirado, para rechear a conta bancária de celerados inescrupulosos, que lavam a fortuna rapinada adquirindo mansões, apartamentos, carrões, joias, barras de ouro, motos, fazendas ou flauteando em hotéis de luxo, estourando o que roubaram.

A propósito desta última, pergunte aos aposentados e pensionistas se eles anuíram com os descontos em seus benefícios, realizados pelo INSS, em favor de associações sobre as quais nunca ouviram falar. Os 6,3 bilhões de reais subtraídos homeopaticamente, mês a mês, durante anos, vitimando impiedosamente simplórios jubilados urbanos, rurais e até indígenas, mercê do gigantesco montante surrupiado, extrapola o conceito de “vaquinha”, de vaca gorda, de elefante ou de outro animal de porte semelhante.

A monumental pilhagem mais parece o Tiranossauro Rex, predador famoso da pré-história, que pela voracidade insaciável sobre o patrimônio alheio, está na alça de mira de uma CPMI no Congresso Nacional, que o contingente de quatro milhões de lesados torce expectante para não acabar como aquela deliciosa iguaria italiana, feita de massa de pão, recoberta de queijo, tomate, diversos outros ingredientes e cozida de preferência em forno de lenha, que no cotidiano das lanchonetes e restaurantes, a grã-finagem posuda e endinheirada ou a patuleia desprovida e humilde, chamam normalmente de pizza…


(*) CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra e titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados é coautor de outros quatro e recebeu três prêmios literários.

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