DO OURO VERDE À DEPENDÊNCIA: QUANDO SANTARÉM DEIXOU DE PRODUZIR PARA SOBREVIVER DE REPASSES

Por Fábio Maia

Existe uma fotografia em preto e branco, guardada nos arquivos do IBGE, que mostra o porto de Santarém em 1966. Dezenas de embarcações atracadas. Centenas de trabalhadores carregando fardos de juta. Armazéns lotados. Movimento intenso de caminhões. É o retrato de uma cidade que produzia, exportava e prosperava.

Hoje, o mesmo porto movimenta principalmente grãos que vêm de longe, atravessam nossa cidade e seguem para fora. Santarém virou passagem. Virou entreposto. Virou testemunha do desenvolvimento alheio enquanto assiste, passiva, à sua própria decadência.

A transformação não aconteceu da noite para o dia. Foi um processo gradual, sistemático e — ouso dizer — deliberado. Santarém não faliu por incompetência de seu povo. Faliu porque escolheram, por ela, que seria melhor viver de repasses do que de produção.

E os números não mentem.

O TEMPO DO OURO VERDE

Entre 1950 e 1966, Santarém vivia seu apogeu econômico. A juta — o “ouro verde” — era o motor de tudo. O município respondia por mais de 60% da produção nacional, segundo o Anuário Estatístico do Brasil (IBGE, 1967). Não eram apenas números. Era emprego para milhares de famílias. Era renda circulando no comércio local. Era autonomia econômica.

A base da economia era sólida: mais de 70% da população economicamente ativa estava vinculada à agricultura e ao extrativismo vegetal. Produzíamos juta, borracha, castanha-do-pará. Tínhamos serrarias, beneficiadoras de fibras, pequenas indústrias de transformação. A cidade crescia não porque o governo injetava dinheiro — crescia porque produzia riqueza.

O setor público representava míseros 10% do PIB local em 1950. O restante? Fruto do trabalho, do suor, da capacidade produtiva da nossa gente.

Mas aí chegaram as fibras sintéticas importadas. E com elas, o colapso.

A QUEDA BRUTAL (1965-1974)

Em menos de uma década, a produção de juta despencou mais de 80%. O PIB per capita local, segundo estimativas retroativas do IPEA, caiu aproximadamente 25% em valores reais entre 1965 e 1975.

O impacto foi imediato e devastador. Milhares de trabalhadores rurais migraram para os bairros periféricos — Mapirí, Prainha, Laguinho. A renda sumiu. O desemprego explodiu. Santarém sangrou.

Mas aqui está o ponto crucial: o colapso da juta era previsível. Era uma cultura dependente de mercado externo, vulnerável a inovações tecnológicas. Qualquer planejador minimamente competente sabia que era necessário diversificar, criar alternativas, preparar a transição.

E o que fizeram? Nada. Absolutamente nada.

Deixaram a economia ruir. Deixaram as famílias migrarem. Deixaram a cidade definhar. E quando tudo desabou, a solução foi simples: ampliar o Estado.

O ESTADO COMO SUBSTITUTO (1975-1998)

Durante o “milagre econômico” dos anos 1970, o governo federal prometeu desenvolvimento para a Amazônia. A BR-163 seria a salvação. Os investimentos viriam. A industrialização aconteceria.

Vieram alguns investimentos públicos. Veio infraestrutura básica. Veio a pavimentação parcial da BR-163. Mas a industrialização prometida? Essa nunca chegou.

O que chegou foi o inchaço da máquina pública. O setor público ampliou sua participação de 12% (1970) para 23% (1985) na economia local. Não porque havia mais serviços públicos de qualidade. Mas porque o funcionalismo público virou válvula de escape para uma economia que não gerava mais empregos produtivos.

A receita municipal passou a depender cada vez mais de transferências — FPM, ICMS, repasses federais. A cidade deixou de produzir para viver do que Brasília e Belém mandavam.

E o padrão se consolidou: menos produção, mais Estado. Menos autonomia, mais dependência.

Os dados são brutais:

PeríodoSetor Produtivo (% PIB)Setor Público (% PIB)Característica
1950-1965~72%~10%Economia autossuficiente
1966-1974~58%~14%Colapso da juta
1975-1985~52%~23%Expansão do Estado
1986-1998~41%~31%Dependência fiscal

Fonte: IBGE (Censos Econômicos e Agropecuários); IPEAData (Séries Históricas Regionais)

A EXPANSÃO AMBIENTALISTA E O GOLPE FINAL

Se a década de 1970 trouxe o inchaço do Estado, os anos 1990 trouxeram o golpe final: o ambientalismo burocrático.

A criação da Floresta Nacional do Tapajós em 1974 foi apenas o começo. Ao longo das décadas seguintes, Unidades de Conservação se multiplicaram. Terras indígenas foram demarcadas. Áreas de proteção ambiental surgiram por decreto.

Hoje, 45% do território municipal está sob algum tipo de restrição legal de uso. Outros 45% permanecem em situação fundiária irregular, impossibilitando acesso a crédito, licenciamento ou investimento. Sobram 2,4% de área efetivamente produtiva.

O resultado? Entre 1991 e 1998, o número de estabelecimentos industriais caiu de 142 para 87 (IBGE — Censo Industrial). A arrecadação municipal própria estagnou. O setor agropecuário sofreu retração contínua.

E a cidade, que já dependia dos repasses, passou a depender ainda mais.

A SANTARÉM DE HOJE: NÚMEROS QUE ENVERGONHAM

Avancemos para 2021. O que encontramos?

  • Setor público: 47% do PIB municipal
  • Indústria: 8% do PIB (queda de 62% desde 1999)
  • Agropecuária: 24% (concentrada em grãos mecanizados que vêm de fora)
  • 57% das famílias recebem algum tipo de benefício social federal

A economia “cresceu” em termos nominais. O PIB passou de R$ 849 milhões (2002) para R$ 8,2 bilhões (2021). Mas é “crescimento de fachada”. Crescimento sustentado por repasses, não por produção.

O PIB per capita real — corrigido pela inflação — cresceu míseros 16,8% em 21 anos. Praticamente estagnou. Enquanto isso, a folha de pagamento municipal cresceu 74% em termos reais entre 2012 e 2021.

Traduzindo: a cidade não enriqueceu. O Estado engordou.

A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER

Existe algum lugar do mundo, em qualquer época da história, que tenha prosperado destruindo sua força produtiva e substituindo-a por funcionalismo público e assistencialismo?

Existe alguma cidade que tenha se desenvolvido transformando produtores em assistidos?

Existe alguma economia sustentável baseada em consumir o que outros produzem e viver do que o governo repassa?

A resposta é não. Nunca existiu. Nunca existirá.

Porque prosperidade não nasce de dependência. Nasce de produção. E Santarém, deliberadamente, escolheu (ou foi escolhido para ela) o caminho da dependência.

O PROJETO DE EMPOBRECIMENTO

Olhando a trajetória de 75 anos, fica impossível não perceber o padrão:

  1. Permitiram o colapso da juta sem preparar alternativas
  2. Expandiram o Estado como válvula de escape
  3. Criaram restrições ambientais que inviabilizaram a produção
  4. Burocratizaram processos até torná-los impossíveis
  5. Substituíram renda produtiva por transferências assistenciais
  6. Consolidaram uma economia dependente e estagnada

Cada etapa foi apresentada como solução. Cada medida foi vendida como progresso. Mas o resultado final é inegável: Santarém deixou de ser protagonista de sua economia para ser espectadora de sua própria miséria programada.

E o mais perverso? Fizeram isso com nosso apoio. Com nosso voto. Com nossa passividade.

O CUSTO DA OMISSÃO

Hoje, 43,2% da população de Santarém vive em situação de pobreza. O IDH está estagnado desde 2015. Jovens qualificados fogem da cidade. Empreendedores desistem antes de começar. Investidores evitam a região.

E nós? Continuamos aplaudindo cada nova restrição ambiental como “vitória”. Continuamos celebrando cada novo programa social como “conquista”. Continuamos elegendo os mesmos que perpetuam esse modelo de dependência.

A fotografia de 1966 mostra uma cidade que produzia. A fotografia de 2025 mostra uma cidade que sobrevive.

A diferença entre as duas não é evolução. É rendição.

PORTANTO…

Santarém não é pobre por falta de recursos. É pobre por excesso de Estado e escassez de liberdade produtiva.

Não somos subdesenvolvidos por incompetência de nosso povo. Somos subdesenvolvidos porque substituíram trabalho por assistência, produção por repasse, autonomia por dependência.

E continuaremos assim — cada vez mais pobres, cada vez mais dependentes — até que tenhamos coragem de nomear o problema pelo que é: um projeto deliberado de subordinação econômica, travestido de proteção ambiental e preocupação social.

Do ouro verde à dependência. Da produção ao repasse. Da autonomia à miséria programada.

Essa é a história de Santarém em 75 anos.

E se nada mudar, será também nosso futuro pelos próximos 75.

A escolha, como sempre, é nossa.

Infelizmente para todos nós.


Fábio Maia é vice-diretor de Patrimônio da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (ACES) e autor do estudo “Relatório Analítico da Crise Econômica de Santarém — 1950 a 2025”.


Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir a versão impressa clicando aqui ou na imagem abaixo:

4 comentários em “DO OURO VERDE À DEPENDÊNCIA: QUANDO SANTARÉM DEIXOU DE PRODUZIR PARA SOBREVIVER DE REPASSES

  • 7 de novembro de 2025 em 16:44
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    Provavelmente o nobre articulista desconhece a história da econômica desta região. Não só Santarém mas, todos os municípios da região viveram seu apogeu econômico. Só que com o extrativlsmo. Logo, de onde se tira e não repõe acaba. Vivemos em ciclos produtivos. Até a juta o grosso da produção era em Parintins que abastecis a TCEJUTA e a CTC em Castanhal, esta produzia sacos de aniagem, principalmente, para o setor cafeeiro no sul e sudeste do Brasil. Santarém ainda, de modo particular, viveu sob a influência do ciclo do ouro de Itaituba (bancos se instalaram na Lameira Bitencourt) e a influência da construção da Hidroelétrica de Curua-Una (movimentou o comércio, (creio que a pecuária para alimentar peão de outros estados que vieram trabalhar na construção da usina). A UHE de Curua-Una enruqueceu alguns comerciantes locais. É isso. Agora vivemos o ciclo da Soja, o porto certamente não é o trapiche que virou ponto “turístico”. O distrito industrial vem rolando anos e não sai da gaveta. Santarém tenta fazer outro porto sem respeitar a legislação ambienta e aí enfrenta a justiça.

    .

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  • 7 de novembro de 2025 em 13:48
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    Alguma notícia sobre a data de inauguração do distrito industrial de Santarém, que ia gerar centenas de empregos, renda e divisas para o município de Santarém?? Ou será que vai ser inaugurado no dia 30 de fevereiro??

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  • 6 de novembro de 2025 em 16:49
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    Excelente reflexão, que nos convoca a uma nova postura diante da passividade. Por uma Santarém próspera e produtiva

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  • 6 de novembro de 2025 em 14:39
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    eu leio as matérias tendendeciosas desse cara só pra rir,essa militância quer nos transformar em seringueiros e coletores de castanha a qualquer custo. hoje os tempos são outros e preferimos ser carreteiros, operadores de máquinas pesadas ,e tombadores e secadores… queremos trabalhar embarcados,ser balanceiros, encarregados….pra isso dependemos de portos!!!

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