142 FÁBRICAS VIRARAM 87: A DESINDUSTRIALIZAÇÃO PROGRAMADA DE SANTARÉM

Por Fábio Maia*

Existe um documento técnico do IBGE, frio e burocrático como todo relatório governamental, que conta uma história de destruição silenciosa. Chama-se “Censo Industrial” e registra, sem emoção, um genocídio econômico: entre 1991 e 1998, Santarém perdeu 55 estabelecimentos industriais. De 142 para 87. Uma queda de 38,7% em apenas sete anos.

Não foram fábricas que fecharam por incompetência. Não foram empresas que faliram por má gestão. Foram empreendimentos sistematicamente inviabilizados por combinação letal de burocracia ambiental, insegurança jurídica e abandono institucional.

E o mais grave: ninguém liga. Ninguém fala. Ninguém protesta.

Porque na Santarém de hoje, fábrica fechada é “vitória ambiental”. Empresário que desiste é “explorador derrotado”. Desemprego industrial é “transição necessária para a sustentabilidade”.

É a linguagem orwelliana em seu estado mais puro: destruição virou progresso. Empobrecimento virou consciência. Dependência virou liberdade.

AS FÁBRICAS QUE EXISTIRAM

Para entender o que perdemos é preciso lembrar o que tínhamos.

Na década de 1980, Santarém tinha um parque industrial diversificado e pujante para os padrões regionais:

Serrarias e beneficiadoras de madeira: Mais de 40 estabelecimentos processavam madeira legal, geravam centenas de empregos diretos e exportavam produtos beneficiados para outras regiões. Não era desmatamento predatório — era manejo florestal que sustentava famílias inteiras.

Fábricas e beneficiamento de grãos: Arroz, milho e outros produtos regionais eram processados localmente. Agregava-se valor à produção, gerava-se emprego, fortalecia-se a cadeia produtiva.

Frigoríficos e processamento de pescado: A abundância dos rios sustentava indústrias de beneficiamento que forneciam para o mercado regional. Peixe fresco virava produto com valor agregado.

Olarias e cerâmicas: Produção de tijolos, telhas e materiais de construção para abastecer o crescimento urbano. Pequenas, mas importantes.

Cooperativas agroindustriais: Processamento de juta, castanha, óleos vegetais. Eram a ponte entre o produtor rural e o mercado.

Indústrias de bebidas e alimentos: Refrigerantes, sorvetes, panificação em escala. Geração de renda local, consumo local.

Somadas, essas indústrias representavam 21% do PIB municipal em 1985. Empregavam milhares de pessoas. Sustentavam famílias. Movimentavam o comércio. Pagavam impostos.

E foram sistematicamente destruídas.

O MASSACRE COMEÇA (1988-1998)

A virada aconteceu em 1988, com a criação da Floresta Nacional do Tapajós. Foi o marco simbólico de uma mudança de paradigma: a partir dali a Amazônia não seria mais território de desenvolvimento, mas de contenção.

O efeito sobre as indústrias foi imediato e brutal.

As serrarias: Entre 1990 e 1998, mais de 60% das serrarias de Santarém fecharam as portas. Não por falta de madeira — havia madeira de manejo legal, certificada, sustentável. Fecharam porque o licenciamento virou tortura burocrática. Porque cada autorização demorava anos. Porque a insegurança jurídica tornava impossível planejar o negócio.

Um empresário madeireiro que conheço pessoalmente contou que, em 1995, abriu processo para renovar sua licença de operação. O processo tramitou por três anos e meio. Quando finalmente saiu a autorização, ele já tinha demitido todos os funcionários e vendido os equipamentos.

Os frigoríficos: A indústria de processamento de pescado foi devastada por regulamentações ambientais que tratavam pequenos frigoríficos artesanais como se fossem Belo Monte. Exigências técnicas adequadas para grandes complexos industriais foram impostas a empreendimentos familiares, inviabilizando economicamente a atividade.

Resultado: frigoríficos fechados, pescadores sem comprador, peixe local perdendo mercado para produto importado de Mato Grosso.

As beneficiadoras de grãos: Com a retração da agricultura familiar — pressionada pelas mesmas restrições territoriais — a matéria-prima sumiu. Arroz que antes vinha das várzeas deixou de ser produzido. Milho regional virou memória. As fábricas, sem o que processar, simplesmente morreram.

As cooperativas: Desarticuladas pela falta de crédito, ausência de assistência técnica e pressão ambiental sobre os produtores associados. Uma a uma foram se extinguindo. Levaram com elas não apenas empregos, mas toda uma cultura de cooperação e organização produtiva.

OS NÚMEROS DA VERGONHA

Os dados do IBGE são frios, mas devastadores:

AnoNúmero de IndústriasParticipação no PIBVariação
1985~150 (estimativa)21%
199114214%Base
1998879%-38,7%
2010685%-52,1%
2021513%-64,1%

Fonte: IBGE — Censo Industrial e Cadastro Central de Empresas (CEMPRE)

Não é queda. É colapso estrutural.

Em três décadas, Santarém perdeu dois terços de sua base industrial. A participação da indústria no PIB municipal despencou de 21% para 3% — queda de mais de 85%.

E enquanto isso acontecia, o setor público crescia de 23% para 47% do PIB. A mensagem é cristalina: produzir é pecado, viver do Estado é virtude.

AS CAUSAS DO MASSACRE

Não foi acidente. Não foi conjuntura adversa. Não foi incompetência empresarial.

Foi sabotagem institucional programada.

  1. Burocracia ambiental como arma de bloqueio

Licenciar uma serraria em Santarém nos anos 1990 exigia:

  • Plano de Manejo Florestal aprovado pelo IBAMA
  • Licença Estadual da SECTAM (atual SEMAS)
  • Autorização de Exploração Florestal
  • Documento de Origem Florestal para cada lote
  • Relatórios trimestrais de monitoramento
  • Vistorias periódicas (muitas vezes sem agendamento)

O processo demorava, em média, 18 a 36 meses. Custava milhares de reais em taxas, consultorias e deslocamentos. E no final, podia ser negado sem justificativa técnica adequada, apenas com base em “pressão social” ou “preocupação ambiental”.

Nenhuma empresa sobrevive com essa insegurança.

  1. Judicialização e criminalização do empreendedor

A partir dos anos 2000, o Ministério Público Federal começou a tratar todo empresário como criminoso em potencial. Licença estadual válida? “Irregular por natureza”. Autorização do IBAMA? “Insuficiente”. Manejo sustentável certificado? “Greenwashing”.

Empresários que seguiram todas as regras foram processados, multados, embargados. Equipamentos foram apreendidos. Reputações foram destruídas na imprensa antes de qualquer condenação.

O recado foi claro: não empreenda em Santarém. Você será tratado como bandido mesmo fazendo tudo certo.

  1. Falta total de apoio institucional

Enquanto outros estados criavam distritos industriais, ofereciam incentivos fiscais, simplificavam licenciamentos e atraíam investimentos, o Pará fez o oposto.

Santarém nunca teve um distrito industrial funcional. Nunca teve linha de crédito específica para industrialização regional. Nunca teve programa de capacitação técnica. Nunca teve nada.

A mensagem implícita era: queremos que você feche mesmo.

  1. Bloqueio territorial

Com 45% do território sob restrição ambiental e outros 45% em indefinição fundiária, não havia onde expandir. Não havia como crescer. Não havia matéria-prima regularizada para processar.

As serrarias não tinham acesso a florestas manejadas. Os frigoríficos não tinham pescado em volume suficiente. As beneficiadoras não tinham produção agrícola para processar.

Não se mata indústria cortando energia. Mata-se cortando acesso à matéria-prima.

AS CONSEQUÊNCIAS EM CASCATA

Quando 142 fábricas viram 87, não são apenas 55 empresas que morrem. É todo ecossistema econômico que desaba.

Empregos diretos perdidos: Estimativa conservadora aponta para 3.000 a 4.000 postos de trabalho industrial eliminados entre 1991 e 2021.

Empregos indiretos: Para cada emprego industrial, geram-se de 2 a 3 indiretos (transporte, comércio, serviços). Ou seja, mais 6.000 a 12.000 empregos destruídos.

Arrecadação municipal: ICMS e ISS que deixaram de entrar nos cofres públicos. Estimativa: R$ 40 a 60 milhões anuais não arrecadados (valores atualizados).

Êxodo urbano qualificado: Técnicos, engenheiros, administradores migraram para outras regiões. Santarém perdeu cérebros.

Dependência crescente: Sem indústria, sem emprego, sem renda — sobrou assistencialismo. As famílias que viviam da indústria, a grande maioria passaram a viver na informalidade e do Bolsa Família.

O EXEMPLO QUE MOSTRA O CAMINHO INVERSO

Enquanto Santarém destruía sua indústria, Sinop (MT) fazia o oposto.

Nos anos 1990, Sinop tinha perfil industrial semelhante ao nosso: serrarias, beneficiadoras, agroindústrias. Mas em vez de bloquear, o município criou Distrito Industrial, ofereceu incentivos fiscais, simplificou licenciamentos e atraiu investimentos privados.

Resultado em 2021:

  • PIB industrial: 28% do total (vs. 3% de Santarém)
  • PIB per capita: R$ 47.892 (vs. R$ 18.197 de Santarém)
  • IDH: 0,808 (vs. 0,683 de Santarém)
  • Taxa de pobreza: 12,3% (vs. 43,2% de Santarém)

Mesma região amazônica. Mesmos desafios logísticos. Mesmas restrições ambientais federais.

A diferença? Vontade política de permitir que o setor privado prosperasse.

A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER

Se a desindustrialização foi tão desastrosa, por que continuou acontecendo?

Se os números são tão claros, por que ninguém reverteu o processo?

Se o modelo de Sinop funciona, por que Santarém não o replica?

A resposta é politicamente incômoda: porque há quem lucre com nossa pobreza.

Uma população dependente de programas sociais é uma população controlável eleitoralmente. Economia baseada em funcionalismo público gera cabos eleitorais. Uma região sem indústria não questiona, não pressiona, não exige.

Santarém pobre é Santarém domesticada.

PORTANTO…

Entre 1991 e 2021, Santarém não perdeu 91 fábricas por acaso. Perdeu porque houve um projeto deliberado de desindustrialização.

Cada licença negada foi uma escolha.
Cada processo demorado foi uma decisão.
Cada empresa embargada foi uma sentença.
Cada empresário criminalizado foi uma mensagem.

E a mensagem era clara: não produza. Não empreenda. Não cresça. Apenas consuma o que vem de fora e dependa do que o Estado oferece.

Hoje, olhamos para os galpões abandonados, para as estruturas enferrujadas, para os terrenos vazios onde antes havia fábricas, e chamamos isso de “progresso ambiental”.

Olhamos para os 43,2% da população na pobreza e dizemos que “estamos preservando a Amazônia”.

Olhamos para os jovens que fogem da cidade e celebramos que “não há desmatamento”.

É a vitória da narrativa sobre a realidade. Da ideologia sobre a fome. Do discurso sobre a dignidade.

142 fábricas viraram 87. E ninguém está em greve.

Porque quem poderia protestar está ocupado demais tentando sobreviver.

Ou preenchendo formulários do Cadastro Único.


Fábio Maia é vice-diretor de Patrimônio da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (ACES) e autor do estudo “Relatório Analítico da Crise Econômica de Santarém — 1950 a 2025”.

Um comentário em “142 FÁBRICAS VIRARAM 87: A DESINDUSTRIALIZAÇÃO PROGRAMADA DE SANTARÉM

  • 11 de novembro de 2025 em 11:46
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    que tapa na cara da sociedade, eu como jovem luto pra crescer nessa cidade ,mas vejo que é impossível, por isso estamos indo embora ..empreender aqui é quase impossível..Santarém virou uma cidade onde não pode ,onde ONGs dominam a cidade …Santarém parou no tempo …

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