57% NO CADASTRO ÚNICO: A GERAÇÃO QUE TROCOU A ROÇA PELO AUXÍLIO
Por Fábio Maia*
O que ouvimos falar hoje: “Meu avô plantava mandioca. Meu pai vendia farinha na feira. Eu, preencho formulário do Bolsa Família.”
Três gerações. Três destinos. Uma trajetória descendente que resume perfeitamente a transformação econômica e social de Santarém nas últimas décadas.
Não é uma história individual. É a história de milhares de famílias que, em uma única geração, passaram de produtoras a assistidas. De autônomas a dependentes. De protagonistas de sua economia a beneficiárias de programas sociais.
E os números são brutalmente claros: 57% das famílias de Santarém estão inscritas no Cadastro Único para programas sociais. Isso significa que mais da metade da população depende, direta ou indiretamente, de transferências governamentais para sobreviver.
Não é porque são preguiçosas. Não é porque não querem trabalhar. É porque destruíram sistematicamente todas as alternativas produtivas e deixaram apenas uma porta aberta: a porta do assistencialismo.
OS NÚMEROS DA DEPENDÊNCIA
Vamos aos dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento Social e Cadastro Único:
| Ano | Famílias no CadÚnico | % da População | Principal Benefício |
| 2010 | 18.500 | 26,3% | Bolsa Família |
| 2015 | 31.200 | 38,7% | Bolsa Família |
| 2020 | 42.100 | 49,2% | Bolsa Família / Auxílio Emergencial |
| 2024 | 47.200 | 57,0% | Bolsa Família / Auxílio Brasil |
Fonte: CadÚnico/MDS (2024)
Em 14 anos, o número de famílias dependentes de programas sociais cresceu 155%. A população cresceu apenas 19,7% no mesmo período.
Ou seja: o crescimento da dependência foi oito vezes maior que o crescimento populacional.
E não estamos falando apenas de Bolsa Família. Somam-se:
- Benefício de Prestação Continuada (BPC): 8.400 beneficiários
- Auxílio Gás: 38.200 famílias
- Seguro Defeso (pescadores): 4.700 beneficiários
- Pensões rurais e urbanas não contributivas
- Tarifa Social de Energia Elétrica
Quando se soma tudo, chega-se a um número ainda mais alarmante: 72.000 famílias recebem algum tipo de benefício federal regular. Isso representa aproximadamente 68% dos domicílios de Santarém.
Dois terços da cidade vivendo de transferências governamentais.
O DINHEIRO QUE VEM DE FORA
Mas quanto dinheiro estamos falando?
Segundo dados consolidados do Ministério da Economia, Tesouro Nacional e Cadastro Único:
Total de transferências diretas a pessoas físicas em Santarém (2024):
- Bolsa Família / Auxílio Brasil: R$ 387 milhões/ano
- BPC: R$ 168 milhões/ano
- Seguro Defeso: R$ 18 milhões/ano
- Outros auxílios: R$ 107 milhões/ano
- TOTAL: R$ 680 milhões anuais
Agora compare com a massa salarial do setor privado formal:
- Massa salarial privada (2024): R$ 558 milhões/ano (RAIS/CAGED)
Leiam de novo.
As transferências sociais (R$ 680 milhões) superam em 22% a massa salarial de TODO o setor privado formal de Santarém (R$ 558 milhões).
Isso significa que mais dinheiro circula na economia local via programas assistenciais do que via trabalho privado.
É a inversão completa do modelo produtivo. A economia não funciona mais pelo trabalho — funciona pela transferência.
O PERFIL DA DEPENDÊNCIA
Mas quem são essas famílias no CadÚnico?
Segundo análise do perfil socioeconômico (Cadastro Único, 2023):
Por faixa de renda:
- Extrema pobreza (até R$ 218/mês per capita): 32,1%
- Pobreza (R$ 218 a R$ 436/mês per capita): 41,8%
- Baixa renda (R$ 436 a R$ 654/mês): 26,1%
Por situação de domicílio:
- Urbana: 71,3%
- Rural: 28,7%
E aqui está o dado mais revelador: 71,3% das famílias dependentes vivem na área urbana.
Não são ribeirinhos isolados. Não são indígenas em aldeias remotas. São famílias urbanas, ex-produtores rurais que migraram forçadamente para as periferias da cidade quando suas terras foram bloqueadas, quando o licenciamento virou impossibilidade, quando a roça deixou de compensar.
Por escolaridade do responsável:
- Analfabeto ou fundamental incompleto: 54,2%
- Fundamental completo: 28,7%
- Médio completo ou superior: 17,1%
Por situação de trabalho:
- Desempregado: 38,4%
- Trabalho informal/eventual: 43,2%
- Trabalho formal: 12,8%
- Aposentado/pensionista: 5,6%
Mais de 80% das famílias dependentes não têm trabalho formal. Vivem de bicos, trabalhos eventuais ou simplesmente não trabalham porque não há onde trabalhar.
A TRAJETÓRIA DO EMPOBRECIMENTO
Para entender como chegamos aqui, é preciso recontar a história das últimas três décadas:
Anos 1990 – O Começo do Êxodo:
Com a expansão das Unidades de Conservação e o início das restrições ambientais severas, milhares de famílias rurais começaram a perder acesso às terras que cultivavam há gerações.
Não foi expulsão violenta. Foi inviabilização gradual: licenças negadas, crédito cortado, assistência técnica sumida, preços de produtos agrícolas despencando.
O produtor rural tentava resistir. Plantava menos. Diversificava menos. Investia menos. Até que um dia simplesmente desistia e migrava para a cidade, procurando qualquer trabalho na periferia urbana.
Anos 2000 – A Consolidação da Dependência:
Com o boom das commodities e a expansão dos programas sociais do Governo Federal (especialmente Bolsa Família a partir de 2003), a assistência virou válvula de escape.
Família que chegava da roça, sem qualificação urbana, sem capital, sem perspectiva, encontrava uma solução imediata: o cadastro social.
Preenchia formulário, comprovava baixa renda (fácil, já que estava desempregada), recebia o cartão e começava a receber mensalmente.
Não era muito. Mas era garantido. E na lógica da sobrevivência imediata, garantido é melhor que incerto.
Anos 2010 – A Naturalização:
Com o passar dos anos, receber benefício deixou de ser “ajuda temporária” e virou condição permanente. Filhos cresceram vendo os pais receberem auxílio. Netos nasceram em famílias já dependentes.
A cultura do trabalho produtivo foi substituída pela cultura do benefício. A pergunta deixou de ser “onde vou trabalhar?” e passou a ser “qual programa eu me enquadro?”
Anos 2020 – A Explosão Final:
A pandemia acelerou brutalmente o processo. O Auxílio Emergencial, embora necessário naquele momento, consolidou a dependência de milhões.
Em Santarém, famílias que nunca haviam sido beneficiárias entraram no sistema. E quando o auxílio emergencial acabou, simplesmente migraram para outros programas.
O resultado está nos dados: de 42.100 famílias (2020) para 47.200 (2024).
O CICLO PERVERSO DA DEPENDÊNCIA
Aqui está a armadilha sistêmica que ninguém explica publicamente:
- Benefício condiciona comportamento
Para manter o Bolsa Família, a família precisa:
- Manter renda per capita abaixo do limite
- Comprovar matrícula escolar dos filhos
- Cumprir calendário de vacinação
- Participar de ações de assistência social
Nada disso é ruim em si. O problema é que cria um incentivo perverso para manter-se pobre.
Se o pai conseguir emprego formal que eleve a renda familiar acima do limite, perde o benefício. Se começar a empreender informalmente e declarar a renda, perde o benefício. Se melhorar de vida visivelmente, corre risco de perder o benefício.
A lógica é: ficar pobre compensa mais que tentar sair da pobreza.
- Dependência gera subordinação política
Quem paga o benefício? O governo (na percepção popular).
Quem pode cortar o benefício? O governo.
Quem decide quem entra ou sai do programa? O governo.
O voto deixa de ser escolha política baseada em projeto de futuro e vira defesa do benefício presente. Vota-se não em quem promete desenvolvimento, mas em quem garante a continuidade da transferência.
É o cabresto eleitoral moderno, muito mais eficiente que o antigo: não precisa ameaçar diretamente, basta criar a percepção de que “se o outro ganhar, corta o benefício”.
- Desmobilização produtiva
Uma geração inteira crescendo vendo que trabalho não compensa (salário baixo, instável, sem direitos) mas benefício é garantido (valor fixo, sem esforço, sem risco).
O que essa geração aprende? Que o caminho é a dependência, não a produção.
Jovens que poderiam estar empreendendo, estudando para qualificação profissional, investindo em negócio próprio, simplesmente desistem antes de tentar. Porque o modelo social ensina que dependência é mais segura que autonomia.
- Perpetuação da pobreza
E assim o ciclo se fecha: sem trabalho, recorre-se ao benefício. Com benefício, desmobiliza-se a busca por trabalho. Sem trabalho, mantém-se a pobreza. Com pobreza, justifica-se mais benefício.
É o círculo autofágico da dependência. E funciona perfeitamente para quem quer manter controle social e político.
O CUSTO PARA A ECONOMIA LOCAL
Mas qual o impacto real dessa inversão para a economia de Santarém?
- Perda de base produtiva
Cada família que saiu da roça é uma família que deixou de produzir alimentos. Multiplicado por milhares de famílias ao longo de décadas, o resultado é a dependência alimentar atual: Santarém importa mais de 85% do que come.
- Economia de consumo sem produção
Os R$ 680 milhões anuais em transferências entram na economia, circulam rapidamente pelo comércio (pagando aluguel, comida, remédio, roupas) e saem da região sem gerar riqueza permanente.
Não constroem fábricas. Não abrem empresas. Não investem em tecnologia. Apenas mantêm o consumo mínimo e evaporam.
- Drenagem de capital humano
Jovens qualificados, vendo que não há oportunidades produtivas, migram para outras cidades. Ficam os menos qualificados, os mais velhos, os desistentes.
Santarém perde cérebros e fica com dependentes.
- Estagnação da arrecadação própria
Benefícios sociais não pagam IPTU, não geram ISS, não aumentam arrecadação municipal. Apenas circulam e vão embora.
A prefeitura fica cada vez mais dependente de repasses, gastando cada vez mais com folha de pagamento, sobrando cada vez menos para investimento.
A COMPARAÇÃO BRUTAL
Enquanto isso, em Sinop (MT):
| Indicador | Santarém | Sinop |
| % famílias no CadÚnico | 57,0% | 18,4% |
| % população em situação de pobreza | 43,2% | 12,3% |
| Transferências vs massa salarial privada | 122% | 34% |
| Crescimento empregos formais privados (2010-2024) | +1,8% | +156,3% |
Fontes: CadÚnico/MDS; IBGE; RAIS
Sinop manteve o foco na produção. Incentivou trabalho. Gerou emprego formal. Resultado: baixa dependência, alta renda.
Santarém fez o oposto. Bloqueou produção. Destruiu emprego. Expandiu assistência. Resultado: alta dependência, baixa renda.
A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER
É moralmente aceitável que 57% das famílias de uma cidade dependam de programas sociais do governo federal?
É economicamente sustentável que transferências sociais superem a massa salarial do setor privado?
É socialmente saudável criar gerações inteiras acostumadas à dependência em vez de ensinar autonomia produtiva?
A resposta óbvia é: não.
Mas a pergunta seguinte é devastadora: se não é aceitável, por que persiste? Por que cresce?
Porque há quem lucre com isso. Porque dependência gera controle. Porque assistencialismo produz votos. Porque uma população que sobrevive de benefícios não tem energia nem organização para questionar o sistema que a mantém pobre.
Santarém dependente é Santarém controlada.
PORTANTO…
Muitos avôs plantavam mandioca. Tinham dignidade, autonomia, orgulho do próprio sustento.
Muitos pais vendiam farinha na feira. Educaram filhos com o trabalho das próprias mãos.
Filhos preenchem formulários do CadÚnico. Esperam o dia 18 para receber R$ 600 que mal pagam o aluguel.
Três gerações. Uma trajetória de empobrecimento programado.
E a quarta geração? Essa nem sequer conhecerá o que é trabalhar a terra, produzir o próprio sustento, ter autonomia econômica.
Conhecerá apenas o formulário. O cadastro. O benefício. A dependência.
E chamará isso de “direito conquistado”.
Quando na verdade é a corrente mais eficiente já inventada para aprisionar um povo: a corrente que ele mesmo defende, porque garante sua sobrevivência mínima enquanto destrói sua possibilidade de prosperar.
57% no Cadastro Único.
Não é estatística. É capitulação.
Não é política social. É projeto de subordinação.
Não é ajuda. É armadilha.
E funciona perfeitamente.
Infelizmente para todos nós.
Fábio Maia é vice-diretor de Patrimônio da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (ACES) e autor do estudo “Relatório Analítico da Crise Econômica de Santarém — 1950 a 2025”.
O Impacto



Alguma noticia sobre a inauguração do tal Distrito Industrial de Santarém, que ia gerar emprego, renda e divisas para o município de Santarém ??????????????????????
Fábio , bela fotografia da nossa cidade . Infelizmente teus dados são todos verdadeiros . E a tendência é piorar . Até qdo aguentaremos ?abs . Darivaldo Coimbra .