QUANDO O ESTADO SUBSTITUIU O TRABALHO: A ASCENSÃO DO FUNCIONALISMO E A MORTE DA PRODUÇÃO
Por Fábio Maia*
Existe um momento preciso em que a economia muda de natureza. Não é dramático como um golpe de Estado. Não é visível como uma guerra. É silencioso, gradual, quase imperceptível no dia a dia. Mas quando você olha os números de uma década inteira, a transformação é brutal e inegável.
Em Santarém, esse momento pode ser datado com precisão cirúrgica: aconteceu entre 1999 e 2021.
Foi quando o setor público ultrapassou o setor produtivo como principal motor da economia local. Foi quando o Estado deixou de ser coadjuvante para se tornar protagonista. Foi quando trabalhar virou exceção e servir ao governo virou regra.
Em 1999, o setor público representava 31% do PIB municipal. A iniciativa privada — agricultura, indústria, comércio, serviços — respondia por 69%.
Em 2021, a situação inverteu: setor público chegou a 47% do PIB. O setor produtivo encolheu para 53%.
Mas espere. Fica pior.
Desses 53% “privados”, boa parte é comércio e serviços que dependem diretamente da renda pública — supermercados que vivem do dia do pagamento dos servidores, farmácias que faturam com benefícios sociais, lojas que só vendem quando o FPM cai na conta da prefeitura.
Traduzindo: a economia real, genuinamente produtiva e autossustentável, não passa de 30% do PIB local.
Santarém não é mais uma cidade que produz. É uma cidade que administra repasses.
A EXPLOSÃO DO FUNCIONALISMO
Os dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) contam uma história de inversão assustadora:
| Ano | Empregos Públicos | Empregos Privados Formais | Participação Pública (%) |
| 2002 | 9.800 | 24.700 | 28,4% |
| 2010 | 15.300 | 26.200 | 36,8% |
| 2022 | 21.600 | 25.000 | 46,3% |
Fonte: RAIS/MTE (2023)
Leiam novamente, com atenção.
Entre 2002 e 2022:
- Empregos públicos cresceram 120,4% (de 9.800 para 21.600)
- Empregos privados cresceram 1,2% (de 24.700 para 25.000)
Vinte anos. O setor privado praticamente estagnou. O setor público mais que dobrou.
E aqui está o detalhe que deveria envergonhar qualquer gestor: a população de Santarém cresceu 19,7% no mesmo período. Ou seja, o crescimento do funcionalismo foi seis vezes maior que o crescimento populacional.
Não foi para melhorar serviços públicos. Foi para criar empregos onde a iniciativa privada não conseguia mais criar.
O PERFIL DO NOVO EMPREGO PÚBLICO
Mas quem são esses novos servidores? O que fazem?
Segundo dados do Portal da Transparência e da Prefeitura de Santarém, entre 2010 e 2023:
Saúde e Educação: Crescimento de 42% no número de servidores. Justificável? Em parte. Mas quando se analisa o número de alunos por professor e pacientes por profissional de saúde, os índices não melhoraram proporcionalmente. Contratou-se mais gente, mas a qualidade dos serviços estagnou.
Administração Geral: Crescimento de 78%. Aqui entram cargos de assessoria, coordenações, diretorias, secretarias, subsecretarias. Estrutura sobre estrutura. Burocracia alimentando burocracia.
Cargos Comissionados: Crescimento de 134%. Cargos de livre nomeação, sem concurso, distribuídos conforme conveniência política. Em 2023, Santarém tinha mais de 1.200 cargos comissionados. Para uma cidade de 318 mil habitantes, é um cargo político para cada 265 pessoas.
É o inchaço da máquina. Não por eficiência, mas por necessidade política de criar aparência de emprego onde a economia real não gera mais oportunidades.
A FOLHA QUE ENGOLIU O ORÇAMENTO
O crescimento do funcionalismo tem um custo direto e mensurável.
Segundo dados do SICONFI (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público) e da Secretaria do Tesouro Nacional:
| Ano | Despesa com Pessoal (R$ milhões) | % da Receita Corrente | Status LRF |
| 2012 | 287,4 | 48,2% | Limite prudencial |
| 2016 | 421,8 | 51,7% | Acima do prudencial |
| 2021 | 682,3 | 54,3% | Acima do prudencial |
| 2023 | 758,1 | 56,8% | Crítico |
Fonte: SICONFI/STN; Portal da Transparência
A Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece que municípios não podem gastar mais de 54% da receita corrente líquida com pessoal. Santarém ultrapassou esse limite em múltiplos exercícios.
O “limite prudencial” — gatilho de alerta que deveria impedir novos gastos — é de 51,3%. Santarém está acima desde 2016.
E a consequência prática? Não sobra dinheiro para investimento.
Em 2023, dos R$ 1,33 bilhão de orçamento municipal:
- 56,8% foram para folha de pagamento
- 28,4% para custeio (água, luz, combustível, terceirizados)
- Sobraram míseros 14,8% para investimento em infraestrutura, saúde, educação, desenvolvimento
É a prefeitura vivendo para pagar a si mesma. É o Estado se alimentando do Estado.
A DEPENDÊNCIA DOS REPASSES
Mas de onde vem o dinheiro que paga esse funcionalismo inchado?
Não vem da economia local. Vem de Brasília e Belém.
| Origem da Receita | 2002 | 2021 | Variação |
| Receitas próprias (IPTU, ISS, taxas) | 42% | 26% | -38,1% |
| Transferências FPM | 31% | 38% | +22,6% |
| Transferências ICMS | 18% | 24% | +33,3% |
| Outras transferências (SUS, FUNDEB, etc.) | 9% | 12% | +33,3% |
Fonte: FINBRA/STN
Em duas décadas, Santarém passou a depender 74% de transferências externas. Apenas 26% da receita vem de arrecadação própria.
Traduzindo: para cada R$ 1,00 que a prefeitura gasta, apenas R$ 0,26 vêm da economia local. O resto é esmola constitucional de Brasília e Belém.
E aqui está a armadilha: quanto mais cresce o funcionalismo, mais cresce a dependência de repasses. Quanto mais depende de repasses, menos investe em economia produtiva. Quanto menos investe em produção, menos arrecada. Quanto menos arrecada, mais precisa de repasses.
É o círculo vicioso perfeito. A serpente que devora o próprio rabo.
A ILUSÃO DO CRESCIMENTO
Os defensores desse modelo argumentam: “Mas o PIB de Santarém cresceu! Passou de R$ 849 milhões em 2002 para R$ 8,2 bilhões em 2021!”
Verdade. Cresceu nominalmente 866%.
Mas quando se desconta a inflação acumulada do período (IPCA) e analisa o PIB per capita real, a realidade é outra:
- PIB per capita nominal 2002: R$ 3.200
- PIB per capita nominal 2021: R$ 25.800
- PIB per capita real (corrigido): crescimento de apenas 16,8% em 19 anos
Menos de 1% ao ano. Praticamente estagnou.
E esse crescimento microscópico foi impulsionado majoritariamente por:
- Aumento de transferências federais (Bolsa Família, BPC, etc.)
- Crescimento da folha de pagamento público
- Expansão limitada do agronegócio mecanizado (soja/milho)
Nada veio de indústria. Nada veio de comércio vigoroso. Nada veio de inovação ou empreendedorismo local.
Foi crescimento artificial. Crescimento sustentado por dinheiro que vem de fora, circula rapidamente e vai embora, sem gerar riqueza permanente.
O COMPARATIVO BRUTAL
Agora vejamos o que aconteceu em Sinop (MT) no mesmo período:
| Indicador | Santarém 2002-2021 | Sinop 2002-2021 |
| Crescimento empregos públicos | +120,4% | +45,2% |
| Crescimento empregos privados | +1,2% | +187,3% |
| Participação setor público no PIB | 31% → 47% | 22% → 18% |
| PIB per capita real | +16,8% | +142,6% |
| Taxa de pobreza | 43,2% | 12,3% |
Fontes: IBGE, RAIS, IPEA
Sinop fez o oposto de Santarém:
- Conteve o crescimento do funcionalismo
- Incentivou a iniciativa privada
- Reduziu a participação do Estado na economia
- Resultado: crescimento real, renda alta, pobreza baixa
Santarém fez o contrário:
- Dobrou o funcionalismo
- Sufocou a iniciativa privada
- Ampliou a participação do Estado
- Resultado: estagnação real, renda baixa, pobreza alta
Mesma Amazônia Legal. Mesmos desafios logísticos. Mesma legislação ambiental federal.
A diferença? Escolhas políticas.
AS CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS
Quando o Estado substitui o trabalho, não são apenas números que mudam. É toda uma cultura que se deforma.
- Aspiração ao funcionalismo
Pergunte a um jovem santareno o que ele quer ser quando crescer. A resposta mais comum não é “empresário”, “engenheiro”, “cientista”. É “servidor público”.
Não porque ame servir ao público. Mas porque é o único emprego estável visível na cidade.
O funcionalismo virou sonho de consumo. Concurso público virou loteria salvadora. Cargo comissionado virou troféu político.
- Morte do empreendedorismo
Por que arriscar abrir uma empresa se o caminho mais seguro é um cargo público?
Por que investir em negócio próprio se a burocracia inviabiliza tudo?
Por que empreender se o Estado é o único empregador confiável?
A mentalidade empreendedora foi sistematicamente destruída. Hoje, Santarém forma jovens para serem empregados do Estado, não criadores de riqueza.
- Clientelismo estrutural
Com mais de 21 mil servidores públicos e suas famílias dependendo direta ou indiretamente do Estado, cria-se uma massa de eleitores cativos.
Quem paga o salário do servidor? O prefeito (na percepção popular).
Quem renova o contrato temporário? O secretário.
Quem nomeia para cargo comissionado? O vereador.
O voto deixa de ser escolha política e vira dependência econômica. É o cabresto moderno, civilizado, travestido de emprego público.
- Estagnação da base tributária
Com o setor privado esmagado, a base de arrecadação própria definha. A prefeitura arrecada menos IPTU (propriedades urbanas desvalorizadas), menos ISS (serviços em retração), menos taxas (comércio enfraquecido).
E como compensa? Dependendo ainda mais de transferências. E gastando ainda mais com funcionalismo para “gerar emprego”.
É o ciclo autofágico em funcionamento.
A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER
É sustentável ter uma economia onde 47% do PIB vem do setor público?
É razoável que 46,3% dos empregos formais sejam públicos?
É saudável que 56,8% da receita vá para folha de pagamento?
A resposta óbvia é: não.
Mas a pergunta seguinte é ainda mais incômoda: se não é sustentável, por que continua?
Porque há quem lucre com isso. Porque funcionalismo inchado gera controle eleitoral. Porque dependência econômica gera subordinação política. Porque uma população que vive do Estado não questiona o Estado.
Santarém pobre e dependente é Santarém controlável.
PORTANTO…
Entre 1999 e 2021, Santarém trocou produção por administração. Trocou trabalho por funcionalismo. Trocou autonomia por dependência.
O Estado não cresceu para servir melhor. Cresceu para substituir o setor privado que foi deliberadamente destruído.
Hoje, somos uma cidade de repartições públicas, não de fábricas. Uma economia de salários públicos, não de lucros privados. Uma sociedade de servidores e assistidos, não de empreendedores e produtores.
E enquanto 56,8% da receita for para folha de pagamento, enquanto 74% do orçamento vier de repasses externos, enquanto o setor público for maior que o produtivo, continuaremos exatamente onde estamos:
Pobres, dependentes e sem futuro.
Porque Estado não gera riqueza. Estado apenas redistribui o que outros produzem.
E quando não há mais quem produza, só resta redistribuir pobreza.
Fábio Maia é vice-diretor de Patrimônio da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (ACES) e autor do estudo “Relatório Analítico da Crise Econômica de Santarém — 1950 a 2025”.
O Impacto



Artigo de 1@ qualidade . Retrato correto e verdadeiro de nossa cidade . Infelizmente . Darivaldo Coimbra