BELTERRA E MOJUÍ: DOIS MUNICÍPIOS QUE HERDARAM A MESMA MALDIÇÃO
Por Fábio Maia
Quando Belterra se emancipou de Santarém em 1995, e Mojuí dos Campos em 2013, havia esperança. A narrativa era sedutora: municípios menores seriam mais ágeis, mais próximos da população, capazes de decisões mais rápidas e eficientes. A autonomia administrativa traria desenvolvimento.
Passadas décadas, a realidade é outra.
Belterra e Mojuí não se desenvolveram. Replicaram, em escala menor, exatamente o mesmo modelo de dependência, estagnação e empobrecimento que caracteriza Santarém. Como se a maldição econômica regional fosse contagiosa, transmitida automaticamente no ato da emancipação.
Os números são brutais e reveladores: os três municípios compartilham o mesmo destino de pobreza programada. Não por acaso. Mas porque estão submetidos às mesmas políticas de bloqueio territorial, à mesma judicialização predatória, ao mesmo ambientalismo destrutivo.
E ninguém fala sobre isso. Como se fosse normal três municípios vizinhos, com potencial imenso, afundarem juntos na dependência e na miséria.
BELTERRA: A FORDLÂNDIA QUE VIROU REPARTIÇÃO PÚBLICA
Belterra tem uma história que deveria envergonhar qualquer gestor: foi fundada pela Ford nos anos 1930 como polo de produção de borracha. Tinha infraestrutura avançada para a época, planejamento urbano, sistema de saúde e educação. Era símbolo de desenvolvimento na Amazônia.
Hoje? É símbolo de dependência.
Os números de Belterra (2021-2024):
| Indicador | Valor | Comparação |
| PIB total | R$ 663 milhões | 13x menor que Santarém |
| PIB per capita | R$ 17.420 | Abaixo da média estadual |
| Participação setor público no PIB | 47,1% | Maior que Santarém (47%) |
| População em situação de pobreza | 51,3% | Pior que Santarém (43,2%) |
| Famílias no CadÚnico | 68,2% | Pior que Santarém (57%) |
| Área sob restrição ambiental | 52,7% | Pior que Santarém (45,3%) |
Fontes: IBGE (2021); CadÚnico (2024); MapBiomas (2023)
Leiam com atenção: Belterra é PIOR que Santarém em praticamente todos os indicadores.
Mais dependente. Mais pobre. Mais bloqueada territorialmente. Mais refém do setor público.
Estrutura econômica de Belterra (2021):
- Setor público: 47,1% do PIB
- Agropecuária: 18,3% (concentrada em soja de grandes propriedades)
- Comércio e serviços: 28,9%
- Indústria: 5,7%
A cidade que foi ícone de industrialização da borracha hoje tem apenas 5,7% de participação industrial. Menos que Santarém (8%). Menos que a média estadual (11,2%).
Emprego formal em Belterra (2023):
- Setor público: 1.840 postos (52,3% do total)
- Setor privado: 1.680 postos (47,7%)
Mais da metade dos empregos formais vem do Estado. E o setor privado? Basicamente comércio de subsistência e agronegócio mecanizado que gera pouco emprego.
MOJUÍ DOS CAMPOS: O MUNICÍPIO QUE JÁ NASCEU DEPENDENTE
Mojuí dos Campos é ainda mais recente — emancipação em 2013. Tinha tudo para fazer diferente. Aprender com os erros de Santarém e Belterra. Construir um modelo novo.
Fez o oposto. Copiou exatamente o mesmo padrão de dependência, só que em versão acelerada.
Os números de Mojuí (2021-2024):
| Indicador | Valor | Comparação |
| PIB total | R$ 431 milhões | Menor da microrregião |
| PIB per capita | R$ 16.890 | Pior da microrregião |
| Participação setor público no PIB | 42,3% | Altíssima para município novo |
| População em situação de pobreza | 48,7% | Segunda pior da região |
| Famílias no CadÚnico | 63,1% | Segunda pior da região |
| Área sob restrição ambiental | 41,2% | Bloqueio severo |
Fontes: IBGE (2021); CadÚnico (2024); MapBiomas (2023)
Mojuí tem apenas 12 anos de existência. E já está completamente capturado pelo modelo de dependência.
Estrutura econômica de Mojuí (2021):
- Agropecuária: 28,4% (soja e milho mecanizados)
- Setor público: 42,3%
- Comércio e serviços: 24,1%
- Indústria: 5,2%
A agropecuária forte engana: é concentrada em poucas propriedades grandes, mecanizada, que gera pouquíssimo emprego. A maior parte da população não trabalha no campo — trabalha para a prefeitura ou depende de programas sociais.
Emprego e renda em Mojuí:
- Funcionários públicos municipais: 980 (cresceu 78% desde 2013)
- Empregos privados formais: 720 (praticamente estagnado)
- Famílias no Bolsa Família: 7.200 (63,1% do total)
Em apenas 12 anos, Mojuí já tem mais servidores públicos que empregos privados formais. Já nasceu doente. Já nasceu dependente.
O PADRÃO QUE SE REPETE: COMPARAÇÃO DOS TRÊS MUNICÍPIOS
Coloquemos os três lado a lado para ver o padrão:
| Indicador | Santarém | Belterra | Mojuí | Padrão Regional |
| % setor público no PIB | 47,0% | 47,1% | 42,3% | Dominância estatal |
| % indústria no PIB | 8,0% | 5,7% | 5,2% | Desindustrialização |
| % pobreza | 43,2% | 51,3% | 48,7% | Pobreza massiva |
| % famílias CadÚnico | 57,0% | 68,2% | 63,1% | Dependência assistencial |
| % território bloqueado | 45,3% | 52,7% | 41,2% | Estrangulamento territorial |
Fontes: IBGE (2021); CadÚnico (2024); MapBiomas (2023)
O padrão é matematicamente inegável:
- Setor público dominante (42-47% do PIB)
- Indústria praticamente morta (5-8%)
- Pobreza estrutural (43-51%)
- Dependência assistencial massiva (57-68%)
- Território bloqueado (41-53%)
Três municípios. Mesma doença. Mesmos sintomas. Mesmo prognóstico: estagnação perpétua.
AS CAUSAS COMUNS
Por que três municípios diferentes, com histórias diferentes, chegaram ao mesmo resultado catastrófico?
Porque estão submetidos às mesmas políticas destrutivas:
- Bloqueio Territorial Equivalente
- Santarém: 45,3% sob restrição + 44,7% indefinição = 90% bloqueado
- Belterra: 52,7% sob restrição + 42,1% indefinição = 94,8% bloqueado
- Mojuí: 41,2% sob restrição + 46,8% indefinição = 88% bloqueado
Nos três casos, sobram menos de 10% de área produtiva disponível.
É impossível desenvolver economia quando 90% do território está bloqueado ou indefinido.
- Judicialização Predatória Compartilhada
O MPF atua nos três municípios com a mesma ferocidade:
- Embarga empreendimentos licenciados
- Criminaliza produtores regulares
- Ignora poluição urbana, mas persegue atividade rural
- Exige estudos onde a lei não exige
- Trata licença estadual como “papel sem valor”
- Ausência de Política Industrial
Nenhum dos três municípios tem:
- Distrito industrial funcional
- Incentivos fiscais para atração de empresas
- Programas de fomento à industrialização
- Infraestrutura para processamento local de produtos
Resultado: produtos primários são exportados in natura, sem agregação de valor, gerando pouquíssimo emprego.
- Dependência Estrutural de Transferências
| Município | Receita Própria | Transferências | Dependência (%) |
| Santarém | 26% | 74% | 74% |
| Belterra | 14% | 86% | 86% |
| Mojuí | 11% | 89% | 89% |
Fonte: SICONFI/STN (2023)
Belterra depende 86% de repasses externos. Mojuí depende 89%.
São prefeituras que administram repasses, não economias. Caixas de passagem de dinheiro federal e estadual.
O CUSTO HUMANO DA REPLICAÇÃO
Mas o que significa, na prática, esse padrão replicado de dependência?
Êxodo Juvenil Regional:
- Santarém perde 8,3% dos jovens qualificados anualmente
- Belterra perde 11,7%
- Mojuí perde 9,4%
Renda Familiar Média (2023):
- Santarém: R$ 1.820/mês
- Belterra: R$ 1.620/mês
- Mojuí: R$ 1.710/mês
- Sinop (MT): R$ 4.340/mês
Autossuficiência Alimentar:
- Santarém produz 15% do que consome
- Belterra produz 9%
- Mojuí produz 12%
Os três municípios juntos não conseguem alimentar suas próprias populações. Dependem de caminhões vindos de Paragominas, Mato Grosso, Tocantins.
A COMPARAÇÃO BRUTAL: LUCAS DO RIO VERDE E SORRISO (MT)
Enquanto isso, municípios mato-grossenses que se emanciparam na mesma época fizeram escolhas diferentes:
| Indicador | Microrregião Santarém | Lucas/Sorriso (MT) |
| PIB per capita médio | R$ 17.377 | R$ 52.800 |
| % setor público no PIB | 45,5% | 16,2% |
| % indústria no PIB | 6,3% | 24,7% |
| % pobreza | 47,7% | 9,8% |
| % território bloqueado | 46,1% | 19,4% |
Lucas do Rio Verde e Sorriso são três vezes mais ricos, com um terço da pobreza.
A diferença? Liberdade produtiva. Segurança jurídica. Apoio ao setor privado. Infraestrutura funcional.
A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER RESPONDER
Se a emancipação era para trazer desenvolvimento, por que Belterra e Mojuí estão piores que Santarém?
Se autonomia administrativa era a solução, por que replicaram exatamente o mesmo modelo de dependência?
Se gestão local seria mais eficiente, por que 89% da receita de Mojuí vem de fora?
A resposta é incômoda: porque o problema não é administrativo. É estrutural.
Não importa quantos municípios se criem. Não importa quantos prefeitos se elejam. Não importa quantas promessas se façam.
Enquanto 90% do território estiver bloqueado, enquanto a judicialização criminalizar produção, enquanto o ambientalismo destruir emprego, enquanto ONGs controlarem a narrativa — o resultado será sempre o mesmo: pobreza, dependência, estagnação.
Belterra e Mojuí não fracassaram por incompetência de gestores.
Fracassaram porque herdaram a mesma maldição que condena Santarém.
E continuarão fracassando até que alguém tenha coragem de nomear e enfrentar a causa real:
O bloqueio territorial. A judicialização predatória. O ambientalismo que empobrece.
PORTANTO…
Três municípios. Uma microrregião. Um único destino: dependência programada.
Belterra e Mojuí não são casos isolados de má gestão. São a prova viva de que o modelo regional está sistemicamente falido.
E criar mais municípios, eleger novos prefeitos, prometer mudanças — nada disso resolverá.
Porque enquanto 90% do território estiver bloqueado e a judicialização criminalizar quem produz, não há gestor capaz de gerar desenvolvimento.
A maldição é estrutural. E continuará matando qualquer tentativa de prosperidade.
Infelizmente para Santarém, Belterra, Mojuí e todos nós.
Fábio Maia é vice-diretor de Patrimônio da Associação Comercial e Empresarial de Santarém (ACES) e autor do estudo “Relatório Analítico da Crise Econômica de Santarém — 1950 a 2025”.
Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir clicando aqui.
O Impacto



O artigo demonstra como a região vê as relações político economico social de maneira limitada. Principalmente, qdo resolve comparar os 3 municípios paraenses com 2 matogrossenses.
As únicas verdades se referem aos estados econômicos dos municípios. Todavia as causas mencionadas demonstram um viés de defesa a seguimentos predatórios.
ainda falta de fontes nas informações repassadas, principalmente na questão da terra supostamente bloqueada, tem que ter no mínimo dados do Incra.