O DIAGNÓSTICO FINAL: COMO SANTARÉM TROCOU A PRODUÇÃO PELO ASSISTENCIALISMO

Por Fábio Maia

Relatório inédito traça a rota de 75 anos que transformou a potência regional em um território dependente de repasses públicos. Esta série investigará como uma das regiões mais férteis da Amazônia se tornou refém de sua própria terra.

INTRODUÇÃO

Santarém já foi o coração pulsante do Baixo Amazonas. Um entreposto comercial que abastecia cidades, um polo agroindustrial que transformava a riqueza da floresta em produtos, e uma terra onde o trabalho nas roças, nos rios e nas fábricas garantia o sustento e a dignidade de seu povo. Hoje, esse coração bate por aparelhos. Os sinais vitais da economia produtiva foram substituídos pelo fluxo constante de repasses públicos, salários de funcionários e a onipresença do cartão de benefícios sociais. O que aconteceu conosco?

Um diagnóstico econômico e territorial inédito, que embasará meu próximo livro, mapeou 75 anos da nossa história (1950-2025) e revela uma transformação estrutural profunda e assustadora: Santarém trocou a produção pela dependência. Esta série de artigos vai desvendar, semana após semana, como uma das regiões mais férteis do planeta foi levada a essa encruzilhada.

O GRANDE DIVISOR: A INVERSÃO ECONÔMICA

Os números não mentem e a história que eles contam é de uma inversão completa dos pilares de nossa riqueza. Em 1999, o setor produtivo de Santarém – a soma de agropecuária, indústria e comércio – era a espinha dorsal da economia. A administração pública respondia por 31% do nosso PIB. Um percentual alto, mas que ainda deixava espaço para a iniciativa privada respirar.

Avancemos para 2021. O quadro se inverteu de forma dramática. A participação do setor público no PIB municipal disparou para 47%. Enquanto isso, a indústria de transformação, outrora representada por serrarias, olarias e beneficiamento de grãos, definhou de 9% para um mero 3% do PIB. O comércio também encolheu.

Em outras palavras, para cada R$ 1 gerado em Santarém, quase a metade vem diretamente dos cofres públicos. É uma economia que não gera riqueza nova; apenas redistribui e consome a riqueza que vem de fora, via impostos e transferências.

O MAPA DA DEPENDÊNCIA

Como se chegou a esse ponto? A resposta é um coquetel de fatores que será detalhado nesta série, mas o relatório aponta um eixo central: o cerco territorial.

Enquanto a máquina pública inchava, o território disponível para a produção era sistematicamente asfixiado. Dados consolidados do MapBiomas, ICMBio e FUNAI mostram que 45% do território da microrregião de Santarém (incluindo Belterra e Mojuí dos Campos) está hoje sob o jugo de regimes de restrição: unidades de conservação de proteção integral, terras indígenas e áreas de proteção permanente.

Outros 45% permanecem em um limbo fundiário, sem titularidade ou regularização, inviabilizando o acesso ao crédito e a qualquer investimento de longo prazo. O resultado? Sobram apenas 2,4% de área efetivamente produtiva em uma região de solo fértil e potencial imenso. É um bloqueio econômico disfarçado de política ambiental.

O NOVO PERFIL SOCIAL: DO TRABALHO AO AUXÍLIO
O impacto social dessa transformação foi devastador. O êxodo rural, iniciado com o colapso da juta, foi acelerado por essas políticas. As famílias que produziam alimentos foram expulsas para as periferias urbanas. Sem terra e sem estímulo, o que lhes restou?

A dependência.

Segundo o Cadastro Único, em 2023, cerca de 57% das famílias santarenas recebem algum tipo de benefício de transferência de renda, como Bolsa Família, Auxílio Gás ou Seguro Defeso. O Estado, que deveria criar condições para o cidadão prosperar com seu próprio trabalho, tornou-se o provedor final. O ciclo é vicioso: menos produção, mais pobreza; mais pobreza, mais dependência; mais dependência, menos produção.

CONCLUSÃO: O ALERTA

Este primeiro artigo da série não é um obituário, mas um diagnóstico crucial. Ele mostra o tamanho do buraco em que nos metemos. Santarém deixou de ser um polo gerador de riqueza para se tornar um centro administrador de repasses. A renda que circula no comércio não vem mais do suor da produção e da geração de riqueza, mas da folha de pagamento do funcionalismo e dos cofres federais.

É um modelo frágil, insustentável e, acima de tudo, humilhante para um povo que tem em seu DNA a capacidade de trabalhar e produzir.

Nos próximos artigos, vamos investigar as causas específicas: o colapso da indústria, o fim da autossuficiência alimentar, a armadilha do agronegócio sem inclusão, a BR-163 inacabada e a perda de nossa voz política. A crise não é acidental. Ela foi construída. E só entendendo sua arquitetura poderemos começar a desconstruí-la.

A pergunta que fica, santareno, é: vamos aceitar ser uma sociedade de beneficiários assistidos ou vamos lutar para voltar a ser uma comunidade de produtores livres?

Fábio Maia é Diretor da ACES, pesquisador e escritor, autor da trilogia “Análise Estrutural do Subdesenvolvimento da Amazônia”.


Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir a versão impressa clicando aqui ou na imagem abaixo:

Um comentário em “O DIAGNÓSTICO FINAL: COMO SANTARÉM TROCOU A PRODUÇÃO PELO ASSISTENCIALISMO

  • 3 de novembro de 2025 em 15:29
    Permalink

    Como o cidadão diz que faz parte da diretoria da ACES, faço uma simples e humilde pergunta. Quando começa a funcionar o propalado distrito industrial de Santarém, que ia gerar centenas de empregos, renda e divisas para o município ??? Ou o tal distrito continuará a ser somente um cabo eleitoral dos politiqueiros ?

    Resposta

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