EDUCAÇÃO OU AMBIENTE DE NEGÓCIOS? O FRACASSO DO MODELO EDUCAÇÃO SEM OPORTUNIDADES
Por Fábio Maia – Colunista de O Impacto
“De que adianta educar se não há onde trabalhar?” – Reflexão necessária
Santarém virou um polo educacional impressionante. UFOPA, IESPES, UEPA, UNAMA, ULBRA, Estácio, FAC-SANTARÉM – a lista de instituições de ensino superior é extensa. Oferecemos graduação, pós-graduação, especializações, mestrados, doutorados. Formamos engenheiros, administradores, biólogos, médicos, advogados, economistas. Nossa juventude está cada vez mais qualificada, com diplomas que rivalizam com os melhores centros urbanos do país.
E então o que acontece? Esses jovens pegam seus diplomas e vão embora. Para Belém, para São Paulo, para Brasília. Alguns até para o exterior. Viramos uma fábrica de talentos para outras regiões, um centro de treinamento que forma profissionais qualificados para serem empregados em qualquer lugar – menos aqui.
O problema não é falta de educação. O problema é que nossos representantes ainda não entenderam uma verdade fundamental: educação é necessária, mas não é suficiente. Precisamos urgentemente criar um ambiente de negócios que gere oportunidades reais para nossos cérebros, para nossa mão de obra qualificada. Mas continuamos falhando miseravelmente nisso.
A PERGUNTA QUE NOSSOS POLÍTICOS NÃO FAZEM
O que vem primeiro: educação ou ambiente de negócios? Será que se investirmos massivamente apenas em educação estará tudo resolvido?
A resposta é um não retumbante. E Santarém é a prova viva disso.
Imagine: você forma centenas de engenheiros por ano. Mas se não tiver empresas, indústrias, projetos de infraestrutura para empregá-los, o que acontece? Eles vão embora. Você forma administradores, economistas, profissionais de gestão. Mas se não tiver um setor empresarial robusto, se o ambiente de negócios for hostil com burocracia kafkiana, insegurança jurídica e tributação asfixiante, qual o destino desses profissionais? Subemprego ou emigração.
Formamos biólogos, ambientalistas, especialistas em recursos naturais. Temos alguns dos melhores profissionais da Amazônia nessas áreas. E onde eles trabalham? Em ONGs financiadas por dinheiro internacional, em projetos de pesquisa com recursos federais limitados, quando não simplesmente deixam a região porque não há mercado para suas habilidades.
Formamos médicos. E vemos muitos deles indo para concursos em outros estados, porque aqui a estrutura de saúde pública é limitada e o setor privado é bloqueado por um ambiente de negócios que desestimula investimentos na área.
O AMBIENTE HOSTIL QUE CRIAMOS
Vamos ser diretos sobre o que torna Santarém e região um lugar hostil para reter os talentos que formamos:
Burocracia ambiental paralisante: Qualquer projeto empresarial enfrenta anos de licenciamento. A Área Portuária 2 está praticamente vazia não por falta de interesse, mas porque investidores fogem da insegurança jurídica. O Distrito Industrial ainda é promessa porque ninguém tem a garantia que conseguirá operar com infraestrutura e logística plena.
Insegurança jurídica institucionalizada: Como vimos na “recomendação” do MP sobre Alter do Chão, você pode investir milhões e de repente uma “recomendação” inviabiliza tudo. Que empresário em sã consciência arrisca capital nesse ambiente?
Infraestrutura deficiente: Energia cara e limitada. Estradas precárias. Logística complicada. Internet instável. Como competir pela atenção de empresas que poderiam empregar nossos talentos se nem o básico funciona direito?
Ideologia anti-desenvolvimento: Uma narrativa dominante que trata empresário como vilão, que vê qualquer projeto produtivo como ameaça ambiental, que prefere manter a região pobre, mas “preservada” a permitir crescimento econômico regulado.
O resultado? Formamos um engenheiro civil que não encontra empresa de construção de porte para trabalhar porque projetos imobiliários são bloqueados. Formamos um engenheiro ambiental que poderia trabalhar em indústrias fazendo gestão sustentável, mas não há indústrias porque o ambiente de negócios as afasta.
O ÊXODO DOS CÉREBROS
Conheço dezenas de histórias de jovens brilhantes formados aqui que tiveram que partir. O engenheiro que foi para Belém trabalhar em uma empreiteira. A administradora que está em São Paulo em uma multinacional. O biólogo que conseguiu vaga em um instituto de pesquisa em Brasília. A médica que passou em concurso no Sul.
Todos gostariam de ficar. Todos têm raízes aqui, família, identidade com a região. Mas não ficam esperando oportunidades que nunca chegam.
E não é culpa deles. É culpa nossa – de uma sociedade e de representantes políticos que não entenderam que diploma sem emprego é frustração, que conhecimento sem aplicação é desperdício, que formar talentos sem criar ambiente para retê-los é exportar nosso futuro.
Viramos fornecedores de mão de obra qualificada para outras regiões. Um absurdo econômico: investimos recursos públicos em educação superior, formamos profissionais de alto nível, e eles geram riqueza e pagam impostos em São Paulo, Brasília, Belém – em qualquer lugar menos aqui.
A LIÇÃO DOS PAÍSES QUE ERRARAM
Há exemplos pelo mundo de países que investiram massivamente em educação sem arrumar o ambiente econômico. Índia formou milhões de engenheiros e programadores nas décadas de 1980 e 1990. E o que aconteceu? Emigraram em massa para Estados Unidos, Europa, onde o ambiente de negócios em tecnologia era favorável.
Só quando a Índia começou a melhorar seu ambiente de negócios – com zonas econômicas especiais, menos burocracia, incentivos para empresas de tecnologia – é que conseguiu reter talentos e criar um setor de TI próprio.
Países da Europa Oriental investiram pesado em educação após o fim do comunismo. Formaram profissionais excelentes. Mas o êxodo para Europa Ocidental foi brutal porque o ambiente de negócios não acompanhou. Só recentemente, com melhorias no clima empresarial, começaram a reter e até atrair de volta seus talentos.
A lição é clara: educação de qualidade é essencial, mas sem ambiente de negócios favorável – com menos regulamentação excessiva, tributação justa, segurança jurídica, infraestrutura adequada – os talentos simplesmente vão embora para onde há oportunidades reais.
O QUE NOSSOS REPRESENTANTES NÃO ENTENDERAM
Nossos governadores, prefeitos, vereadores, deputados, senadores – especialmente os da região Norte – parecem acreditar que basta ter universidades e está tudo resolvido. Inauguram campus, celebram novos cursos, posam para fotos em formaturas.
Mas não fazem o básico: criar condições para que empresas se instalem e empreguem esses formandos.
Não lutam para destravar a Área Portuária 2, que poderia gerar dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos. Não brigam pela conclusão do Distrito Industrial, que daria oportunidades para engenheiros, administradores, técnicos. Não cobram pela conclusão da BR163 e Transamazônica, essencial para atrair indústrias e investimentos.
Pelo contrário: muitos deles embarcam na narrativa anti-desenvolvimento. Apoiam mais restrições ambientais. Celebram quando o MP “recomenda” criar mais uma UC que inviabilizará atividade econômica. Repetem como papagaios que “desenvolvimento não é prioridade, preservação sim” – como se fossem mutuamente excludentes.
O resultado é que continuamos formando talentos para exportar. Continuamos vendo nossa juventude mais qualificada partir. Continuamos desperdiçando o investimento público em educação superior porque não criamos oportunidades para aplicá-la aqui.
OS NÚMEROS DO DESPERDÍCIO
Vamos falar de números para dimensionar o absurdo:
UFOPA e UEPA formam anualmente centenas de profissionais em diversas áreas. Some-se a isso os formandos das outras instituições privadas. Estamos falando de mais de mil profissionais de nível superior formados por ano na região.
Quantos desses encontram emprego qualificado aqui? Quantos trabalham efetivamente em suas áreas de formação? Quantos ganham salários compatíveis com sua qualificação?
Uma minoria. A maioria ou emigra, ou fica subempregada, ou trabalha em áreas completamente diferentes de sua formação.
O custo de formar um profissional de nível superior em universidade pública é alto – facilmente dezenas de milhares de reais por aluno ao longo de 4-5 anos. Multiplique isso pelos milhares já formados. Estamos falando de centenas de milhões de reais investidos em educação superior na última década.
E qual o retorno para a região desse investimento? Praticamente nulo na balança, porque a maioria dos formados vão gerar riqueza em outras cidades.
O AMBIENTE DE NEGÓCIOS É O QUE GERA RIQUEZA
Aqui chegamos ao ponto central: o ambiente de negócios é o que gera riqueza e oportunidades reais. Não adianta ter mil engenheiros se não há empresas de engenharia. Não adianta ter economistas se não há setor financeiro robusto. Não adianta ter administradores se não há empresas crescendo.
E empresas só surgem, crescem e geram empregos qualificados quando o ambiente é favorável. Quando há:
- Segurança jurídica: Investidor precisa saber que se cumprir as regras, seu empreendimento não será embargado por “recomendação” do MP ou por interpretação criativa de norma ambiental.
- Burocracia razoável: Licenças e autorizações com prazos definidos, não processos infinitos. Regras claras, não subjetivas.
- Infraestrutura: Portos, energia, transporte, comunicação funcionando. Não dá para atrair indústria sem logística adequada.
- Tributação justa: Não dá para competir com impostos estaduais e municipais entre os mais altos do país.
- Narrativa pró-desenvolvimento: Parar de tratar empresário como inimigo. Parar de ver todo projeto como ameaça. Criar uma cultura que valoriza quem investe, gera emprego, cria riqueza.
Sem isso, não importa quantos doutores formemos. Eles vão embora.
O CAMINHO DUPLO QUE PRECISAMOS
A solução não é escolher entre educação OU ambiente de negócios. Precisamos dos dois. Mas urgentemente precisamos parar de achar que só educação resolve.
Sim, continuemos investindo em educação de qualidade. Nossa cidade universitária é uma conquista que deve ser valorizada e fortalecida. Ter jovens formando-se em nível superior é essencial.
Mas, pelo amor de Deus, criem condições para esses jovens ficarem. Destravem a Área Portuária 2. Viabilizem o Distrito Industrial. Melhorem a infraestrutura. Criem segurança jurídica. Parem de bloquear todo projeto com burocracia ambiental infinita.
É possível ter desenvolvimento com responsabilidade ambiental. A Cargill está aí há mais de 20 anos sem ter causado a catástrofe ambiental que previram. É possível ter indústria, portos, empresas sem destruir a Amazônia. Mas exige inteligência, regulação adequada, fiscalização efetiva – não paralisia total.
O APELO FINAL
Aos nossos representantes políticos – Governadores, prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, senadores – façam uma reflexão:
De que adianta celebrar a formação de mais uma turma de engenheiros se eles vão trabalhar em outras capitais Brasil à fora?
De que adianta ter mestres e doutores se a região não oferece oportunidades fora do setor público?
De que adianta investir milhões em educação superior se o retorno econômico desse investimento acontece em São Paulo, não aqui?
Vocês foram eleitos para defender os interesses da região. E o maior interesse agora não é mais uma universidade, mais um curso. É criar ambiente para que nossos talentos fiquem, trabalhem, enriqueçam, construam futuro aqui.
Isso significa:
- Lutar pela desburocratização do licenciamento ambiental
- Garantir segurança jurídica para investidores
- Cobrar infraestrutura adequada – Portos, transporte, comunicação
- Atrair empresas com incentivos fiscais inteligentes
- Criar uma narrativa pró-desenvolvimento na região
- Parar de apoiar restrições que inviabilizam atividade econômica
É trabalho difícil, eu sei. É mais fácil inaugurar campus e posar para foto. Mas é o trabalho necessário se quisermos parar de exportar nossos melhores cérebros.
PORTANTO
Santarém e região viraram um centro educacional notável. Temos universidades, cursos, qualificação crescente de nossa juventude. Isso é motivo de orgulho.
Mas continuamos falhando miseravelmente em dar oportunidades que esses jovens merecem. Formamos talentos de alto nível e os vemos partir porque não criamos ambiente econômico que os retenha.
Nossos representantes ainda não entenderam que não basta apenas educação. Deve haver também ambiente para a economia fluir, para empresas surgirem, para empregos qualificados existirem.
Educação é necessária, mas não é suficiente. Sem ambiente de negócios favorável, formamos talentos para outras regiões explorarem, investimos recursos públicos para gerar riqueza em outros lugares, preparamos nossa juventude para emigrar.
É um modelo falido que precisa mudar urgentemente.
A escolha é clara: ou criamos condições para reter nossos talentos, ou continuaremos sendo eternos fornecedores de mão de obra qualificada para capitais e países desenvolvidos – pobres apesar dos diplomas, estagnados apesar da educação, fracassados apesar dos cérebros brilhantes que formamos.
Santarém merece mais. Nossa juventude merece mais. Nossos profissionais qualificados merecem trabalhar em sua própria terra, não serem forçados a emigrar por falta de oportunidades.
Mas para isso, precisamos de representantes que entendam: desenvolvimento não é inimigo de preservação. Ambiente de negócios favorável não é vilania. Atrair empresas não é traição ambiental.
É simplesmente dar futuro para quem estudou, se qualificou, e quer ficar – se houver motivo para ficar.
Vamos criar esse motivo, ou continuaremos formando doutores para exportar?
Fábio Maia é pesquisador em desenvolvimento regional e das questões amazônicas, e é articulista do jornal O Impacto. Escreve semanalmente sobre política, ambientalismo e soberania nacional. Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir clicando aqui.
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