2.105 EMPREGOS: OS NÚMEROS QUE REVELAM UMA ECONOMIA À BEIRA DO COLAPSO

Por Fábio Maia – Colunista de O Impacto

“Números não mentem – revelam verdades que preferimos ignorar”

Os noticiários de Santarém divulgaram com orgulho os dados do primeiro semestre de 2025: 2.105 empregos formais criados pelo setor privado, segundo o Novo CAGED. Saldo positivo. Motivo de comemoração. Notícia divulgada como conquista.

Mas os números revelam muito além desse “saldo positivo” superficial. Quando analisados com seriedade, esses mesmos dados expõem uma economia profundamente doente, artificialmente sustentada por dinheiro público, caminhando para um colapso anunciado que muitas instituições públicas e privadas, preferem ignorar.

Os 2.105 empregos não são vitória – são um alerta vermelho piscando. São a prova estatística de uma região que bloqueou seus setores produtivos, tornou-se refém de transferências governamentais, e agora marcha inexoravelmente para o dia em que a conta não vai fechar.

O QUE OS NÚMEROS REALMENTE REVELAM

Vamos além do saldo positivo. Vamos aos dados que mostram a anatomia de uma economia em queda constante:

Total de movimentações no semestre:

  • 10.036 admissões
  • 8.531 desligamentos
  • Saldo: apenas 2.105

Composição setorial:

  • Comércio: setor dominante nas contratações
  • Serviços: segundo maior empregador (incluindo turismo)
  • Indústria: participação mínima, quase inexistente
  • Construção Civil: irregular, dependente de obras públicas
  • Agropecuária: presença marginal

Está vendo o problema? Não está nos 2.105 empregos criados. Está nos setores que NÃO aparecem nos números. Está na ausência gritante de Indústria. Está na construção anêmica. Está na agropecuária sufocada e no turismo desestruturado.

A ECONOMIA ARTIFICIAL: QUANDO O DINHEIRO PÚBLICO SUSTENTA O PRIVADO

Aqui chegamos ao cerne da questão que ninguém quer discutir abertamente: a economia de Santarém é artificial, sustentada por transferências públicas, não por geração real de riqueza.

Por que Comércio e Serviços dominam completamente as contratações? A resposta é simples e assustadora.

Primeiro: São os únicos setores que conseguem sobreviver no ambiente hostil que criamos. Não precisam de licenciamento ambiental federal complexo. Não dependem de infraestrutura pesada. Não enfrentam a burocracia paralisante que destrói Indústria, Construção e Agropecuária.

Segundo – e mais grave: Esses setores existem para capturar o dinheiro público que circula na cidade. Não geram riqueza nova. Apenas redistribuem a renda que chega de fora através de salários de servidores públicos e repasses governamentais.

Vamos aos números brutalmente honestos:

Dinheiro público que entra mensalmente em Santarém (estimativa conservadora):

  • Servidores municipais: R$ 30-40 milhões
  • Servidores estaduais: R$ 40-50 milhões
  • Servidores federais: R$ 20-30 milhões
  • Programas sociais federais: R$ 15-25 milhões
  • Total: R$ 105-145 milhões/mês

Isso representa aproximadamente R$ 1,3-1,7 bilhões por ano de dinheiro público circulando na economia local. Com um PIB estimado em R$ 8-10 bilhões, estamos falando de 15-20% da economia sustentada por transferências públicas.

E para onde vai esse dinheiro? Para o comércio – supermercados, lojas, farmácias. Para serviços – restaurantes, salões, oficinas, escolas particulares. São esses setores que “crescem” e geram os 2.105 empregos que comemoramos.

Mas não há geração real de riqueza. Há apenas captura de renda pública que circula e volta para o setor privado local.

A AUSÊNCIA QUE CONDENA: ONDE ESTÃO OS SETORES PRODUTIVOS?

Agora vamos ao que os números NÃO mostram – e que revela a tragédia:

INDÚSTRIA: O setor fantasma

Participação mínima nas contratações. Por quê? Porque não temos indústria. Porque o Distrito Industrial ainda é promessa eterna. Porque a Área Portuária 2 está vazia. Porque qualquer projeto industrial enfrenta anos de licenciamento ambiental e insegurança jurídica que espanta investidores.

Indústria é o setor que GERA riqueza real. Pega matéria-prima, agrega valor, exporta produto. Traz dinheiro de fora, não redistribui dinheiro de dentro. Cria empregos bem remunerados, não subempregos no comércio.

Mas não temos. E os 2.105 empregos provam isso.

CONSTRUÇÃO CIVIL: O termômetro do fracasso

Construção deveria ser robusta em uma região em crescimento. Deveria estar construindo hotéis em Alter do Chão, galpões industriais no Distrito, terminais portuários na Área 2, condomínios residenciais para população crescente.

Mas mal aparece nos números. Por quê? Porque bloqueamos tudo. Licenciamento impossível. MP “recomendando” mais UC. Projetos embargados. Insegurança jurídica total.

Construção fraca não é falta de demanda – é excesso de obstáculos.

AGROPECUÁRIA: O potencial sufocado

Estamos na Amazônia, com terras férteis, água abundante, posição logística privilegiada. Agropecuária deveria ser gigante. Mas é marginal nos números de emprego formal.

Por quê? Burocracia ambiental, narrativa Anti-Produção, dificuldade de regularização fundiária, falta de infraestrutura, ausência de agroindústria para processar produtos.

O resultado: produzimos pouco, importamos alimentos, e a agropecuária não gera os empregos que poderia.

O CÍRCULO VICIOSO QUE NOS CONDENA

Entenda a armadilha mortal em que caímos:

FASE 1 – Bloqueio dos setores produtivos:

  • Indústria inviabilizada (Distrito travado, licenciamento impossível)
  • Construção sufocada (projetos embargados, burocracia infinita)
  • Agropecuária limitada (restrições ambientais, falta de processamento)

FASE 2 – Sobra apenas redistribuição:

  • Comércio e Serviços crescem porque são os únicos viáveis
  • Mas vivem de dinheiro público, não de riqueza gerada
  • Emprego existe, mas é precário e dependente

FASE 3 – Dependência sistêmica:

  • Sem setores produtivos, não geramos impostos suficientes
  • Município depende de repasses estaduais e federais
  • Economia refém de decisões tomadas em Belém e Brasília

FASE 4 – Vulnerabilidade crescente:

  • População aumenta naturalmente
  • Assistencialismo cresce com pobreza
  • Mas empregos produtivos não acompanham
  • Conta não fecha – e vai piorar

A BOMBA-RELÓGIO DEMOGRÁFICA

Aqui chegamos ao ponto que ninguém quer ver: a conta não vai fechar.

População de Santarém:

  • 2010: 294.580 habitantes
  • 2022: 308.339 habitantes
  • 2025: ~320.000 habitantes (estimativa)
  • Crescimento: ~1,5% ao ano

Projeção para 2035: 370.000-380.000 habitantes

Agora vejam o problema:

Se continuarmos gerando apenas 4.000 empregos formais por ano (projeção dos 2.105 do semestre), em 10 anos teremos criado 40.000 empregos.

Mas a população crescerá em 50.000-60.000 pessoas, incluindo dezenas de milhares de jovens entrando no mercado de trabalho.

Resultado: Déficit crescente de oportunidades. Mais desemprego. Mais informalidade. Mais assistencialismo. Mais dependência de programas sociais.

E de onde virá o dinheiro para sustentar essa população crescente sem emprego? De repasses federais que não crescem na mesma proporção. De uma base tributária municipal que não expande porque não temos setores produtivos.

A matemática é simples e cruel:

  • População: +1,5% ao ano
  • Empregos formais: +0,3% ao ano (se mantivermos ritmo atual)
  • Assistencialismo necessário: crescimento exponencial
  • Capacidade de financiar: estagnada

Em algum momento, a conta não fecha. E esse momento está cada vez mais próximo.

A COMPARAÇÃO QUE EXPÕE A FARSA

Vamos comparar Santarém com regiões que fizeram escolhas diferentes:

Sinop (MT) – população similar, foco em agronegócio e indústria:

  • Gera 8.000-12.000 empregos formais/ano
  • Indústria robusta (frigoríficos, processamento de grãos)
  • Agropecuária produtiva
  • PIB per capita: 3x maior que Santarém

Marabá (PA) – também na Amazônia, apostou em mineração e siderurgia:

  • Gera 6.000-10.000 empregos formais/ano
  • Indústria presente, apesar de problemas ambientais
  • PIB per capita: 2x maior que Santarém

Santarém – travou setores produtivos:

  • Gera 4.000 empregos formais/ano
  • Indústria praticamente inexistente
  • Economia dependente de setor público
  • PIB per capita: estagnado

A diferença não é destino. É escolha. Escolhas que continuamos fazendo errado.

OS VILÕES DO BLOQUEIO PRODUTIVO

Quem é responsável por inviabilizar os setores que deveriam estar gerando 20-30 mil empregos por ano ao invés de 4 mil?

O MP que legisla além de suas funções: “Recomenda” criar mais UC, matando milhares de empregos potenciais no turismo e construção. Atua como braço jurídico de ONGs, bloqueando desenvolvimento.

A burocracia ambiental desenhada para inviabilizar: Licenciamentos que levam 3-5 anos. Estudos intermináveis. Consultas sem critérios objetivos. Tudo pensado não para regular, mas para bloquear.

Representantes políticos omissos ou cúmplices: Que não lutam pela Área Portuária 2. Que não garantem o Distrito Industrial. Que não cobram segurança jurídica. Que repetem mantras ambientalistas enquanto a população empobrece.

A narrativa ideológica anti-desenvolvimento: Que trata empresário como vilão. Que vê indústria como inimiga. Que prefere população pobre mas “sustentável”, à riqueza com regulação.

Todos contribuem para o mesmo resultado: setores produtivos inviabilizados, economia artificial, dependência crescente, bomba-relógio demográfica armada.

O FUTURO QUE NOS ESPERA SE NADA MUDAR

Vamos fazer a projeção honesta do que acontecerá se continuarmos neste caminho:

2030 (5 anos):

  • População: 345.000 habitantes
  • Empregos formais criados: 20.000 (ritmo atual)
  • Déficit de oportunidades: crescente
  • Dependência de assistencialismo: 25-30% da população
  • Economia: ainda sustentada por dinheiro público

2035 (10 anos):

  • População: 375.000 habitantes
  • Empregos formais criados: 40.000 (acumulado desde 2025)
  • Desemprego e informalidade: disparados
  • Assistencialismo: 35-40% da população dependente
  • Crise fiscal: município sem capacidade de arcar com demandas crescentes

2040 (15 anos):

  • População: 405.000 habitantes
  • Sistema em colapso: mais gente, mesma base produtiva, recursos insuficientes
  • Santarém vira cidade-dormitório, exportadora de mão de obra
  • Juventude qualificada: 80%+ emigra para outras regiões
  • Economia: estagnação total, pobreza sistêmica

Isso não é cenário apocalíptico. É extrapolação matemática do que está acontecendo AGORA.

A JANELA DE OPORTUNIDADE QUE SE FECHA

Ainda dá tempo de mudar. Mas a janela está se fechando rapidamente.

Se em 2026 começarmos a criar ambiente real para setores produtivos, em 5 anos poderíamos estar gerando 15-20 mil empregos formais por ano. Em 10 anos, teríamos uma economia robusta, diversificada, gerando riqueza própria.

Mas isso exige ações imediatas e concretas:

Destravar setores produtivos:

  • Área Portuária 2 com segurança jurídica garantida
  • Distrito Industrial operando em 2-3 anos, não em promessa eterna.
  • Alter do Chão livre para desenvolver turismo com regulação inteligente
  • Agropecuária com menos burocracia e mais processamento local

Criar ambiente favorável:

  • Licenciamento com prazos máximos definidos por lei
  • Fim das “recomendações” que viram ordens sem base legal
  • Infraestrutura adequada: Portos, energia, estradas, logística
  • Incentivos fiscais para atrair indústrias e serviços de alto valor

Mudar a narrativa:

  • Parar de tratar desenvolvimento como inimigo
  • Celebrar empresários que geram empregos
  • Defender setores produtivos com a mesma paixão que defendem restrições

Cobrar resultados:

  • Prazos para Distrito Industrial funcionando
  • Metas de empregos industriais criados
  • Indicadores além de “saldo positivo” de comércio

Mas nada disso está acontecendo. Pelo contrário, continuamos no caminho oposto – mais restrições, mais bloqueios, mais dependência.

O VEREDICTO FINAL: OS NÚMEROS NÃO MENTEM

2.105 empregos formais privados em seis meses. A manchete celebra o saldo positivo. Mas os números revelam muito além disso:

Revelam uma economia artificial, sustentada por dinheiro público, não por geração real de riqueza.

Revelam setores produtivos inviabilizados – Indústria praticamente inexistente, Construção anêmica, Agropecuária marginal.

Revelam dependência sistêmica de transferências governamentais que sustentam um Comércio e Serviços que apenas redistribuem renda, não criam riqueza nova.

Revelam uma bomba-relógio demográfica: população crescendo 1,5% ao ano, empregos formais crescendo 0,3% ao ano. A matemática não fecha.

Revelam que estamos caminhando inexoravelmente para o dia em que a conta não vai fechar – mais gente, mais assistencialismo, mesma base produtiva insuficiente, recursos escassos.

Os 2.105 empregos não são vitória. São o alerta final antes do colapso.

E o mais trágico: tudo isso é escolha. Escolha de bloquear setores produtivos. Escolha de criar ambiente hostil para quem gera riqueza. Escolha de preferir dependência confortável a desenvolvimento desafiador.

Outras regiões com menos recursos, pior localização, menos potencial, estão gerando 3, 5, 10 vezes mais empregos que nós. Não por sorte. Por escolhas diferentes.

Santarém tem tudo para ser uma potência econômica regional. Localização estratégica. Recursos naturais. Infraestrutura básica. Capital humano qualificado. Falta apenas uma coisa: vontade política para destravar os setores que realmente geram riqueza.

Mas preferimos comemorar 2.105 empregos de comércio e serviços sustentados por dinheiro público. Preferimos ignorar que Indústria, Construção e Agropecuária – os setores que deveriam ser nossos pilares – estão inviabilizados.

Preferimos não olhar para a bomba-relógio que está armada: população crescendo, empregos não acompanhando, assistencialismo aumentando, recursos minguando.

Até o dia em que a conta não vai mais fechar. E aí não teremos “saldo positivo” para comemorar. Teremos apenas a amarga constatação de que os números tentaram nos avisar, mas preferimos ignorar.

Os 2.105 empregos não mentem. Revelam exatamente onde estamos: à beira do colapso de uma economia artificial que bloqueou o que realmente importa.

A pergunta não é mais SE a conta vai deixar de fechar. É QUANDO.

E pelos números, esse quando está chegando mais rápido do que gostaríamos de admitir.

Fábio Maia é pesquisador em desenvolvimento regional e das questões amazônicas, e é articulista do jornal O Impacto. Escreve semanalmente sobre política, ambientalismo e soberania nacional. Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir clicando aqui.

2 comentários em “2.105 EMPREGOS: OS NÚMEROS QUE REVELAM UMA ECONOMIA À BEIRA DO COLAPSO

  • 8 de janeiro de 2026 em 08:25
    Permalink

    Aí eu te pergunto como integrante ACES. Cadê o pólo industrial que vocês tanto propagam, que ia gerar empregos, renda e divisas para o município de Santarém ???

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  • 7 de janeiro de 2026 em 11:28
    Permalink

    Verdade, temos um potencial muito grande para sermos um município bem desenvolvido e sem dependências de repasses, das esferas , estaduais e federais, mas infelizmente o MP e as ONGs são inimigas dos empreendedores, além da falta de interesses políticos, com uma falta enorme de compromissos com a população!

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