BETS, LOTERIAS E RENTISMO: A ECONOMIA DA ILUSÃO E O PREÇO PAGO PELO POVO BRASILEIRO
Por Manoel Chaves Lima – Advogado tributarista e trabalhista, inscrito na OAB/PA nº 7677, com mais de 26 anos na advocacia cível
O Brasil vive, de forma silenciosa e preocupante, uma das mais graves distorções sociais e econômicas da sua história recente: a institucionalização da jogatina como política econômica indireta. Sob o discurso da modernidade, da arrecadação fiscal e da liberdade de mercado, as apostas online — as chamadas BETS, regulamentadas em janeiro de 2025, começou com 37 e já passa de 183, que representa um aumento de quase 400% — avançam sobre a renda das famílias brasileiras, especialmente das mais pobres, drenando recursos que deveriam estar destinados às necessidades básicas e ao desenvolvimento produtivo do país.
Os números são alarmantes e não comportam relativizações ideológicas. Enquanto a arrecadação anual estimada com apostas gira em torno de R$ 12 bilhões, os custos sociais e econômicos ultrapassam R$ 38 bilhões por ano, segundo estudos amplamente divulgados. Esse valor inclui gastos com saúde mental, afastamentos do trabalho, desemprego, endividamento familiar, depressão, ansiedade, colapso financeiro de lares inteiros e, nos casos mais extremos, o suicídio. (FONTE: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-12).
É uma conta que não fecha, nem sob a ótica econômica, nem sob a ótica social, nem — muito menos — sob a ótica moral.
Mais grave ainda é constatar que a atividade das bets não gera riqueza real. Não produz bens, não cria empregos relevantes, não fortalece o comércio, não impulsiona a indústria, não estimula o agronegócio e tampouco a agricultura familiar. Trata-se de uma atividade essencialmente extrativa, que apenas retira recursos da economia real e os concentra em plataformas digitais e grupos financeiros, muitos deles com capital estrangeiro.
O dinheiro apostado some da circulação produtiva. Não compra alimentos, não movimenta o comércio, não gera reformas e nem infraestrutura, não constrói moradias, não adquire máquinas, não fomenta inovação tecnológica. O resultado é previsível: redução do poder aquisitivo e consequente queda no consumo, fechamento de pequenos negócios, retração industrial, desestímulo à produção agrícola e aumento da informalidade e do desemprego.
Paralelamente, esse fenômeno ocorre em um ambiente dominado pelo rentismo financeiro, estimulado por juros elevados (SELIC 15%), que tornam mais vantajoso aplicar recursos em títulos e produtos bancários (CDB’s e outros) do que investir na produção, assumindo riscos e gerando empregos. Qual empresário, com capital limitado, optará por produzir, empregar e inovar, se pode obter ganhos elevados sem criar um único posto de trabalho?
Essa combinação perversa — jogatina digital e rentismo — esvazia o futuro do país.
Outro aspecto profundamente preocupante é o papel da publicidade. As bets invadiram os meios de comunicação, os eventos esportivos, os uniformes dos clubes, as transmissões televisivas e as redes sociais. Ídolos do esporte, da música e do entretenimento passaram a vender a ilusão do ganho fácil. Já não se anunciam veículos, tratores, máquinas, alimentos, moradias, eletrodomésticos ou bens duráveis.
Anuncia-se apenas a aposta, o risco, o sonho improvável.Isso não é progresso.
É um atalho para o empobrecimento coletivo e para o adoecimento social.
Some-se a isso o fato de que milhões de reais oriundos de programas sociais, como o Bolsa Família, foram destinados às apostas, inclusive por meios eletrônicos como o Pix.
Trata-se de um contrassenso cruel: recursos públicos criados para combater a fome e a miséria acabam alimentando plataformas de jogos de azar.
Se o Estado entende que a legalização das apostas é um caminho sem volta, então não pode se omitir. É dever do poder público implementar regulação firme, fiscalização rigorosa, restrição severa de publicidade, proteção efetiva a menores e pessoas vulneráveis, além de políticas públicas estruturadas de prevenção, acolhimento e tratamento no sistema de saúde.
No entanto, o que se vê, em grande parte, é a omissão, o silêncio conveniente e, em alguns casos, a conivência. A política, em todas as esferas dos três Poderes da República, parece mais preocupada com interesses próprios do que com o bem-estar da coletividade. A mídia tradicional, por sua vez, precisa urgentemente recuperar sua credibilidade, resgatando o jornalismo sério, responsável e comprometido com a verdade e com o interesse nacional.
Chegamos a 2026, ano de eleições. E as eleições não são apenas um ritual democrático: são um instrumento legítimo de correção de rumos. Cabe ao povo observar atentamente quem são os candidatos, qual foi sua atuação no passado, a quem serviram e quais interesses defenderam. O passado revela o futuro.
O Brasil não precisa de salvadores da pátria, mas de lideranças responsáveis, comprometidas com a economia produtiva, com a dignidade humana, com a geração de empregos, com a saúde, a educação, a infraestrutura e o desenvolvimento sustentável.
Nenhuma nação se desenvolve apostando contra si mesma. Nenhum povo prospera vivendo de ilusões.
É hora de escolher entre a economia que produz e a economia que adoece.
Entre o trabalho e a aposta.
Entre o futuro e a ilusão.
Que Deus ilumine o povo brasileiro nesta escolha — porque dela depende não apenas o resultado de uma eleição, mas o destino de toda uma geração.
O Impacto


