O PARADOXO DO VOTO REGIONAL: POR QUE SANTARÉM PERDE RECURSOS NA ALEPA

Por Fábio Maia Colunista Político – O Impacto

A cada quatro anos, o eleitor santareno vai às urnas com a melhor das intenções: escolher um deputado estadual que defenda os interesses da região. O problema é que, historicamente, essa escolha tem se revelado um tiro no pé. Dados levantados por esta coluna mostram que Santarém está entre as cidades paraenses que menos recebem emendas parlamentares estaduais proporcionalmente ao seu tamanho populacional.

O fenômeno não é novo, mas seus efeitos são cada vez mais visíveis. Enquanto outras cidades do interior do Pará conseguem asfaltar ruas, construir escolas e modernizar postos de saúde com recursos de emendas de “seus” deputados, Santarém amarga uma espécie de “órfandade legislativa”. E a culpa, em grande medida, é nossa.

OS NÚMEROS NÃO MENTEM

Um levantamento feito com base em dados públicos do portal da transparência da Assembleia Legislativa do Pará revela um cenário preocupante. Entre 2020 e 2024, Santarém – com seus aproximadamente 310 mil habitantes – recebeu cerca de R$ 18 milhões em emendas parlamentares estaduais. Parece muito? Não é.

Para efeito de comparação, Marabá, com população similar (cerca de 280 mil habitantes), recebeu no mesmo período aproximadamente R$ 47 milhões – quase o triplo. Parauapebas, com menos da metade da população de Santarém (cerca de 150 mil habitantes), embolsou R$ 32 milhões.

A diferença não está na importância das cidades, nem na qualidade de suas demandas. Está em um fator simples e objetivo: Marabá e Parauapebas elegem deputados estaduais que moram lá, conhecem a realidade local e têm compromisso direto com o eleitorado que os elegeu. Santarém, historicamente, vota em candidatos de Belém ou de outras regiões.

O CICLO VICIOSO DO VOTO “DE FORA”

O problema se perpetua por um ciclo vicioso que já dura décadas. O eleitor santareno, desencantado com a política local ou seduzido por campanhas bem financiadas de candidatos da capital, opta por nomes “de fora”. Esses candidatos, quando eleitos, naturalmente priorizam suas bases eleitorais – que estão em Belém, na região metropolitana ou em outras áreas do estado.

Não se trata de má-fé. É uma questão de lógica política elementar: um deputado estadual destina recursos para onde tem votos, vínculos e compromissos. Um candidato eleito com 80% dos votos em Belém e apenas 5% em Santarém não tem incentivo político para priorizar nossa região. Ele responde aos eleitores que o elegeram – e esses eleitores não estão aqui.

O resultado prático é devastador. Projetos ficam sem financiamento. Obras são adiadas. Demandas urgentes da população – como reforma de escolas, construção de pontes, asfaltamento de bairros periféricos – entram numa fila interminável, porque não há um deputado estadual para quem Santarém seja prioridade número um.

LIÇÕES DE OUTRAS REGIÕES

Não é preciso ir longe para encontrar exemplos de como a representação regional faz diferença. Marabá, que elegeu três deputados estaduais em 2022 (todos com forte votação local), viu sua infraestrutura urbana se transformar nos últimos quatro anos. Foram mais de 50 quilômetros de asfalto novo, dezenas de escolas reformadas e ampliadas, postos de saúde modernizados.

A coincidência não existe em política. Marabá tem deputados que conhecem cada bairro, cada liderança comunitária, cada demanda urgente. Quando uma emenda parlamentar é destinada, ela vai exatamente para onde é mais necessária – porque quem decide conhece a realidade, vive lá, responde ao eleitor local.

Parauapebas é outro exemplo emblemático. A cidade elegeu dois deputados estaduais em 2022, ambos ex-prefeitos. O resultado? Nos últimos quatro anos, Parauapebas recebeu recursos estaduais suficientes para construir um hospital regional, reformar toda a rede de ensino fundamental e pavimentar praticamente todos os bairros ainda não asfaltados.

O CUSTO DA FALTA DE REPRESENTAÇÃO

Mas quanto exatamente Santarém perde por não ter um deputado estadual da região? Vamos aos cálculos.

Se Santarém tivesse recebido, proporcionalmente à sua população, o mesmo volume de emendas que Marabá nos últimos quatro anos, teríamos embolsado cerca de R$ 50 milhões a mais do que recebemos. Cinquenta milhões de reais que poderiam ter sido investidos em infraestrutura, saúde, educação, segurança.

Para dimensionar o impacto: R$ 50 milhões dão para asfaltar aproximadamente 40 quilômetros de ruas (o que resolveria o problema de dezenas de bairros periféricos). Ou construir 15 escolas de médio porte. Ou reformar e equipar todos os postos de saúde da zona urbana e da zona rural.

Não estamos falando de fantasias políticas. Estamos falando de recursos reais, previstos em orçamento, que foram destinados a outras regiões simplesmente porque elas têm quem as represente. E nós não.

A PROXIMIDADE FAZ DIFERENÇA

Há um elemento adicional que pesa nessa equação: a proximidade entre deputado e município facilita não apenas a destinação, mas também a fiscalização e a eficiência do uso dos recursos.

Um deputado estadual que mora em Santarém, que conhece os secretários municipais, que participa de reuniões com lideranças comunitárias, que visita bairros regularmente, tem muito mais condições de garantir que as emendas sejam bem aplicadas. Ele consegue acompanhar obras, cobrar prazos, ajustar projetos conforme a realidade local.

Um deputado que mora em Belém e visita Santarém uma ou duas vezes por ano não tem como fazer esse acompanhamento. Resultado: mesmo quando o recurso chega, muitas vezes ele é mal aplicado, desviado ou simplesmente não atende à real necessidade da população.

ELEIÇÕES 2026: A OPORTUNIDADE DE MUDAR

As eleições de 2026 se aproximam e, com elas, a oportunidade de romper esse ciclo vicioso. Santarém terá pela frente uma escolha crucial: continuar elegendo deputados “de fora” e seguir na fila dos esquecidos, ou optar por representantes que tenham vínculos reais com a região.

Não se trata de regionalismo tacanho. Trata-se de pragmatismo político. Trata-se de entender que, no jogo da política estadual, quem não tem deputado jogando pelo seu time está fadado a perder.

A pergunta que o eleitor santareno deveria fazer em 2026 não é “qual candidato tem a melhor propaganda?”. É “qual candidato vai colocar Santarém como prioridade número um?”. E a resposta para essa pergunta é óbvia: apenas um candidato que more aqui, conheça nossa realidade e responda diretamente ao nosso eleitorado.

CONCLUSÃO

Os dados são claros. As comparações são evidentes. O prejuízo é mensurável. Santarém perde dezenas de milhões de reais por mandato por não ter representação regional efetiva na Assembleia Legislativa.

A pergunta que fica é: até quando vamos aceitar isso? Até quando vamos assistir outras cidades do interior se desenvolverem com recursos que poderiam – e deveriam – estar sendo investidos aqui?

A política é feita de escolhas. E em 2026, o eleitor santareno terá a chance de fazer uma escolha que pode mudar o rumo desta região pelos próximos 20 anos. Espero que, desta vez, a escolha seja baseada em dados, em realidade, em pragmatismo – não em promessas vazias de candidatos que mal conhecem nossa cidade.

O voto regional não é favor. É interesse próprio bem compreendido.

Fábio Maia é colunista político de O Impacto e analista de políticas públicas.

Um comentário em “O PARADOXO DO VOTO REGIONAL: POR QUE SANTARÉM PERDE RECURSOS NA ALEPA

  • 21 de janeiro de 2026 em 22:11
    Permalink

    Infelizmente isso acontece por causa de muitas e grandes enganações aos eleitores Santarenos, aqueles que pouco tem conhecimento suficiente do que é uma realidade social e econômica para nosso município e nossa região, se não temos representatividade parlamentar na ALEPA , fica ainda mais difícil vir emendas parlamentares para a gestão municipal!

    Resposta

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