QUANDO A NARRATIVA SUBSTITUI OS FATOS: INCOERÊNCIAS EM MANIFESTAÇÕES REVELAM URGÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO DEMOCRÁTICA
Por Fábio Maia
Uma recente manifestação em frente às instalações da Cargill em Santarém trouxe à tona, mais uma vez, as incoerências que têm caracterizado parte significativa do movimento indigenista regional. O episódio, protagonizado pelo Cacique Rogério Arapiuns, da Aldeia Akayuwasu (RESEX Tapajoara), expõe contradições que merecem análise criteriosa — e reforçam a urgência da instalação de uma Comissão Especial de Estudos na Câmara Municipal.
A PERFORMANCE MIDIÁTICA E SUAS CONTRADIÇÕES
Durante a manifestação, amplamente divulgada pela mídia regional, o cacique apresentou uma série de alegações que, quando confrontadas com fatos verificáveis e documentos oficiais, revelam profundas inconsistências.
Primeira contradição: Alegou que “empreendimentos e o agronegócio estão tirando seus direitos e entrando em seus territórios”, mas não especificou quais empresas estariam invadindo, nem apresentou documentação que comprovasse tais invasões. Enquanto isso, os próprios autos do INCRA (Processo nº 54190.001862/2004-92) mostram que a Gleba Lago Grande, onde ele alega haver invasões, sequer estava cadastrada no sistema fundiário nacional até 2016, e que a maior ameaça à regularização são os inúmeros lotes já titulados dentro da área, e não novas invasões empresariais.
Segunda contradição: Mencionou estar “em defesa do Rio Tapajós”, que estaria “em licitação para fazer escavação”, demonstrando desconhecimento sobre o projeto de concessão da Hidrovia do Tapajós — uma obra de infraestrutura essencial para o desenvolvimento amazônico. Mas o verdadeiro risco ao Rio e às comunidades, segundo documentos oficiais, é a falta de delimitação clara do PAE Lago Grande, que depende de um mapa e memorial descritivo que nunca foram feitos — uma omissão do Estado, não das empresas.
Terceira contradição — a mais reveladora: O cacique afirmou que querem “protestar contra as grandes empresas que não geram lucros para os índios, apenas lucros para as empresas”. A pergunta que emerge é inevitável: estariam os autodeclarados indígenas reivindicando participação nos lucros de empresas privadas? Que modelo econômico seria esse, onde a identidade étnica — declarada unilateralmente — geraria direito a dividendos empresariais?
O CASO COROCA: QUANDO A GEOGRAFIA E A HISTÓRIA DESMENTEM A NARRATIVA
Mas foi ao abordar o caso da reintegração de posse na Comunidade Coroca que as incoerências atingiram níveis insustentáveis.
O cacique afirmou que a família removida judicialmente era “DA NOSSA ALDEIA”. Porém, um simples olhar no mapa e nos registros oficiais revela: a Aldeia Akayuwasu localiza-se na RESEX Tapajoara, Comunidade São Miguel, do outro lado do Rio Arapiuns. A família removida estava em área particular documentada dentro da Gleba Lago Grande, um Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) completamente distinto — e que, segundo relato do advogado que acompanhou um dossiê de estudo da criação do PAE, foi imposto pelo MPF em 2006 contra a recomendação técnica do próprio INCRA, que previa a inviabilidade do modelo puramente extrativista.
Como uma aldeia pode “reconhecer” famílias de outra gleba, outro lago, outra jurisdição? Simples: quando a narrativa importa mais que a geografia, quando a autodeclaração vale mais que documentos registrados em cartório.
TURISMO “CLANDESTINO” OU ATIVIDADE LEGÍTIMA E DOCUMENTADA?
O cacique acusou a proprietária da área de operar “empreendimento de turismo clandestino”, alegando que “por causa disso” as famílias indígenas estariam sendo expulsas.
Mas os fatos contam outra história, agora com respaldo documental:
- A atividade turística é privada e documentada, autorizada pelo Plano de Utilização do PAE Lago Grande.
- A família proprietária é tradicional ribeirinha, nativa da região há gerações.
- A reintegração de posse foi decisão judicial, atestando a legitimidade da propriedade.
- O próprio INCRA reconhece em despacho de 2016 que a gleba possui dezenas de lotes titulados — ou seja, a propriedade privada dentro do PAE é um fato registrado, não uma invenção.
Se houve decisão judicial favorável à proprietária, isso não demonstra precisamente a legalidade da propriedade? E mais: o que a Cargill — alvo da manifestação — teria a ver com uma disputa fundiária entre particulares em área documentada e judicialmente reconhecida?
A conexão não existe. Mas a performance midiática precisa de um vilão. Empresas multinacionais servem perfeitamente ao papel, enquanto o verdadeiro vilão — a morosidade e a descoordenação estatal — passa despercebido.
A INDÚSTRIA DA AUTODECLARAÇÃO E O DESCASO ESTATAL
O que presenciamos é a consolidação de uma verdadeira indústria da autodeclaração étnica, alimentada por um Estado ausente e ineficiente. Enquanto o INCRA deixou de titular centenas de famílias na década de 1980 e depois criou um PAE inviável por pressão judicial, movimentos midiáticos aproveitam o vácuo de regularização para implantar narrativas distorcidas.
Nesse cenário:
- Narrativas substituem documentação oficial.
- Performances midiáticas substituem processos legais.
- Autodeclarações valem mais que títulos de propriedade históricos.
- E o barulho substitui o debate técnico e documentado.
O LATIFÚNDIO IDENTITÁRIO E A PARALISIA PRODUTIVA
O movimento indigenista no Brasil — ao menos em sua vertente mais ruidosa — transformou-se em um latifúndio identitário, onde propriedades documentadas, histórias familiares e decisões judiciais tornam-se detalhes diante de uma narrativa emotiva e midiática.
Mas há um custo real: o PAE Lago Grande, conforme relatos técnicos da época, foi estruturado para falhar. Proibiu a agricultura e a pecuária, atividades tradicionais das comunidades, em nome de um extrativismo que nunca se sustentou. O resultado foi a estagnação econômica, o empobrecimento e a dependência de projetos assistencialistas — enquanto lideranças midiáticas culpam empresas que nada têm a ver com o problema real.
POR QUE UMA COMISSÃO ESPECIAL É URGENTE
Se já existisse a Comissão Especial de Estudos sobre a Proliferação de Grupos e Territórios Étnicos na Câmara Municipal de Santarém, esse cacique teria a oportunidade de explicar, em audiência pública e com direito ao contraditório:
- Como uma aldeia de uma gleba “reconhece” famílias de outra gleba, desrespeitando limites geográficos e registrais?
- Qual a base legal para reivindicar lucros de empresas privadas?
- Que documentos comprovam as alegadas “invasões” em áreas que, segundo o INCRA, estão em conflito fundiário há décadas?
- Por que manifestar contra a Cargill em uma disputa fundiária local e documentada?
A Comissão não seria instrumento de perseguição, mas de transparência democrática. Não negaria direitos legítimos, mas exigiria que narrativas públicas sejam confrontadas com documentos oficiais.
CONCLUSÃO: A VERDADE ESTÁ NOS AUTOS, NÃO NO GRITO
Vivemos tempos onde confunde-se volume com verdade, onde gritaria substitui argumentação, onde performances midiáticas valem mais que documentos cartoriais e despachos oficiais.
Mas a verdade sobre o PAE Lago Grande está registrada nos autos do INCRA, nas certidões imobiliárias, nos relatos técnicos e nas decisões judiciais. Está na gleba não cadastrada, nos lotes titulados sobrepostos, no memorial descritivo que nunca saiu do papel, no modelo extrativista imposto e fracassado.
Enquanto o movimento indigenista midiático fabrica vilões empresariais, o verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento regional segue sendo a incompetência estatal, a judicialização da política fundiária e a espetacularização de conflitos.
Santarém merece mais que narrativas. Merece fatos, documentos, transparência e um debate que não se deixe amedrontar pelo barulho.
A Comissão Especial é o primeiro passo para separar o ruído da realidade — e exigir que o Estado cumpra seu papel, em vez de servir de palco para performances vazias.
Referências documentais utilizadas:
- Processo INCRA nº 54190.001862/2004-92 (despacho de 11/03/2016)
- Depoimento do advogado responsável pelo dossiê de criação do PAE Lago Grande
- Certidão imobiliária da Gleba Lago Grande (fls. 376–387)
- Notícias e manifestações midiáticas envolvendo o Cacique Rogério Arapiuns (2026)
Fábio Maia é pesquisador em desenvolvimento regional e das questões amazônicas, e é articulista do jornal O Impacto. Escreve semanalmente sobre política, ambientalismo e soberania nacional. Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir clicando aqui.
O Impacto



Infelizmente estamos vivendo nos dias atuais, tanto no mundo como no Brasil, com esses movimentos de ativistas ambientais, que são patrocinados por países até mesmo empresas privadas globalistas como é o caso dos Soros , que investem em ambientalistas globalistas , através de ONGs, que usam o povo local e sem conhecimento do problema agrário que ocorre em nosso país , e isso também ocorrendo no sul país , que estão importando indígenas do Paraguai para se passarem por brasileiros com a intenção de prejudicar os produtores do agro, e não é diferente no município de Santarém, esses movimentos, por causa da falta de responsabilidade política com a população, principalmente com os pequenos, médios e grandes produtores!