OSSADA HUMANA: POR TRÁS DO ACHADO, A HISTÓRIA DO SUÍÇO QUE ESCOLHEU ALTER DO CHÃO COMO PALCO CULTURAL

Jean-Pierre Schwartz, conhecido carinhosamente como Pierre, nasceu na Suíça e deixou marcas profundas na cultura, na música e na memória afetiva de todos que conviveram com ele na região de Santarém, Alter do Chão e nos territórios do Tapajós.

A ossada do suíço foi encontrada em setembro de 2025, mas somente em janeiro deste ano, após exames de comparação genética, foi confirmado que se tratava do morador de Alter do Chão, desaparecido desde o ano passado.

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Considerado por amigos como um homem de grande inteligência e sensibilidade. Inclusive, falava quatro idiomas, possuía uma família com boas condições financeiras em outro país, mas fez uma escolha de vida que definiu sua trajetória: viver na Amazônia, movido pela liberdade, pela curiosidade e pela paixão por essa terra.

Chegada em Alter do Chão 

Pierre chegou a Santarém ainda na década de 1984, estabelecendo-se em Alter do Chão, onde se tornou pioneiro no segmento de guia turístico. Atuou como verdadeiro desbravador, conhecedor profundo dos territórios do Tapajós, Arapiuns, Alter do Chão e da Floresta Nacional do Tapajós (Flona do Tapajós). Conhecia rios, trilhas, comunidades e histórias como poucos. Para muitos visitantes, foi mais do que um guia: um intérprete da Amazônia, alguém que apresentava o lugar com alma, vivência e respeito.

Sempre ligado ao meio artístico, Pierre trabalhou nos bastidores de grandes produções. Quando Michael Jackson veio ao Brasil pela primeira vez para gravar o famoso clipe na Bahia, passando por outras cidades, Pierre integrou a equipe de produção, atuando como motorista da van responsável pelo transporte da mídia e equipe. Ao final da turnê e das gravações, como forma de reconhecimento, foi presenteado com o próprio veículo, uma grande novidade na época, já que esse tipo de van ainda não existia no Brasil. Pierre foi um dos primeiros a possuir esse modelo em Santarém, fato que marcou a história local.

Pierre também participou da produção do filme Anaconda, gravado na Amazônia, contribuindo com seu conhecimento da região e da logística local. Além disso, participou de uma entrevista icônica no programa “11 e Meia”, apresentado por Gilson Soares, que foi ao ar na época e marcou sua visibilidade pública, embora não haja registro preservado.

Envolvimento cultural

Pierre era uma figura muito conhecida dentro de Alter do Chão e das comunidades adjacentes. Sempre próximo das pessoas, fazia parte do cotidiano local e era reconhecido por sua presença constante e por seu envolvimento cultural. A música sempre esteve presente em sua vida.

Pierre gostava profundamente de música e carregava o sonho de montar uma banda. Mesmo não sendo músico profissional, vivia a arte intensamente. Andava frequentemente com uma baqueta na mão, criando ritmos, batucando e improvisando onde estivesse. Desse desejo nasceu a banda Código 9, um projeto autoral com letras autênticas e ousadas, que traziam apelos sobre a preservação da Amazônia, críticas sociais e reflexões dirigidas ao poder público e à realidade vivida na região. As músicas refletiam seu olhar sensível e, ao mesmo tempo, inquieto sobre o mundo.

Pierre gravou um CD em Santarém, contando com a colaboração e produção de grandes nomes da música local e regional, deixando registrado um importante capítulo da sua trajetória artística e cultural.

Boto Tucuxi

Em 2018, período em que o São Raimundo se preparava para uma campanha histórica que culminaria no título de Campeão Brasileiro da Série D, Pierre demonstrava sua paixão incondicional pelo clube. Foi nesse mesmo ano que conheceu Izellon Pinto, renomado cantor, compositor e produtor musical santareno, conhecido por sua atuação como cantador do Boto Tucuxi. Na ocasião,  estava ocorrendo a gravação da música “Reggae do Pantera” no estúdio de Cleinido Vasconcelos, que tocou bastante naquele período. A partir daí, iniciava uma grande amizade que foi se fortalecendo ao longo dos anos.

Até que veio o convite, já que Pierre sempre esteve por perto, acompanhando, apoiando e incentivando. “Convidei-o a estar conosco, entregando-lhe uma camisa oficial da banda e abrindo espaço para que participasse do palco e da convivência. Assim, seguiram-se muitos anos de amizade, parceria e apoio cultural. Pierre tornou-se um grande incentivador do Boto Tucuxi, sempre presente e acreditando”, disse o amigo Izellon Pinto.

Mas a presença de Pierre não foi apenas marcada por ser incentivador ou artista, sua bondade ficou selada nos corações e na vida de amigos após presenteá-los com terrenos, em Alter do Chão.

“Recebi um desses presentes, assim como Edilberto, então presidente do Puxi, e Edilson Santana, cantador do grupo. Atitudes que revelavam sua generosidade e seu jeito intenso de viver. Gostava de contar histórias, muitas vezes exageradas, outras inventadas, sempre com uma dimensão maior que a realidade. Mas, dentro dessas narrativas, havia uma verdade essencial: quando prometia algo, muitas vezes cumpria”.

Fases ruins

Como muitos, Pierre enfrentou batalhas pessoais. Viveu períodos de equilíbrio e outros de recaída enfrentando o vício, o que lhe trouxe perdas ao longo da vida. Ainda assim, nunca perdeu completamente sua essência generosa, seu coração aberto e disposição em ajudar.

“A notícia da sua morte trouxe dor, silêncio e reflexão. Um fim trágico para uma vida intensa, livre e marcada por excessos, mas também por amizade, arte, generosidade e cultura. Pierre se vai, mas ficam as lembranças boas e os momentos marcantes. Seu fim não era para ser assim. Pierre foi um homem de bom coração, sempre disposto a ajudar, um sonhador, um grande amante da música, compositor e parceiro. Sua presença deixou marcas que o tempo não apaga”, concluiu o amigo Izellon Pinto.

Desaparecimento

Pierre foi dado como desaparecido e seu filho registrou um boletim de ocorrência, iniciando oficialmente as buscas. Em setembro de 2025, foram encontrados os restos mortais às margens da Rodovia Everaldo Martins, exatamente no trajeto que Pierre costumava percorrer até sua residência, em Alter do Chão.

Até o momento não foi esclarecido as circunstâncias da morte. Somente agora em janeiro de 2026 veio a confirmação oficial de que a ossada humana pertencia a Jean-Pierre Schwartz.

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Por Diene Moura

O Impacto 

Foto: Arquivo pessoal/Mafê Oliveira

2 comentários em “OSSADA HUMANA: POR TRÁS DO ACHADO, A HISTÓRIA DO SUÍÇO QUE ESCOLHEU ALTER DO CHÃO COMO PALCO CULTURAL

  • 1 de fevereiro de 2026 em 11:37
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    Pierre viveu intensamente; como poucos. O maior legado: viver a vida; ser curioso; buscar; aprender; desbravar!
    A vida passa rápido e o tempo não espera! Pierre encarnou isso no seu modo de viver! Que ele descanse das andanças e inspire por muito tempo as pessoas que fizeram parte da vida dele!

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  • 31 de janeiro de 2026 em 14:28
    Permalink

    História maravilhosa de superação. O programa em que o Pierre participou, foi, na verdade, PROGRAMADO DO JÔ ONZE E TRINTA, apresentado pelo saudoso e inteligentíssimo Jô Soares.

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