DA DIVERSÃO AO VÍCIO: PSICÓLOGA FAZ ALERTA SOBRE OS JOGOS DE AZAR
Em um cenário de crescente digitalização e acesso facilitado a plataformas de apostas, o que começa como entretenimento descompromissado pode se transformar em um grave problema de saúde pública.
Em entrevista à TV Impacto, a psicóloga e docente da UNAMA Santarém, Pâmela Tavares, detalhou a repórter Sarah Beatriz, como o vício em jogos de azar — potencializado pelo uso constante de smartphones e promessas de lucro fácil nas redes sociais — afeta o comportamento humano e a economia familiar.
A especialista alerta que o reconhecimento dos primeiros sinais de perda de controle e a busca por ajuda profissional são passos cruciais para evitar desfechos trágicos, como a falência e o suicídio.
O vício em jogos de azar não escolhe perfil social, idade ou raça. Segundo a psicóloga Pâmela Tavares, o mecanismo de dependência está diretamente ligado ao sistema de recompensa do cérebro. Ao jogar, o indivíduo experimenta picos de dopamina que geram uma sensação imediata de alívio e prazer, especialmente, em pessoas que vivem rotinas de alto estresse.
“Tudo aquilo que ele vai ativar o nosso sistema de recompensa dentro do nosso cérebro vai gerar dopamina, vai me gerar um certo tipo de alívio. Se eu venho de um ambiente extremamente ansioso, muito estresse, e eu tiver qualquer coisa que me gere essa quantidade de dopamina e de hormônio muito rápido, automaticamente eu vou querer ficar ali”.
A estratégia de marketing por trás dessas plataformas também é um fator determinante. Muitas vezes, o jogador é induzido a ganhar nas primeiras rodadas, criando a falsa percepção de que o dinheiro virá de forma rápida e sem esforço. Quando as perdas inevitavelmente surgem, o cérebro envia um comando para “recuperar” o prejuízo, prendendo o indivíduo em um ciclo vicioso.
Sinais de alerta: quando a diversão vira doença
A transição do lazer para a patologia costuma ser silenciosa, mas apresenta sinais claros que devem ser observados por familiares e amigos. O isolamento social, a mudança brusca de rotina, a ansiedade constante e o hábito de mentir sobre o tempo ou o dinheiro gasto com os jogos são os principais indicadores.
“As pessoas, às vezes, quando elas já estão viciadas, elas dizem que não estão. Então, a gente entender o que está mudando, quando isso começa a me afetar negativamente. A rotina que eu tinha antes começou a mudar. São os primeiro sinais, como: o isolamento social, uma ansiedade, a gente começa a mentir porque estava jogando”.
A psicóloga ressalta que a facilidade do acesso — “o perigo está dentro de casa”, na palma da mão — torna crianças e desempregados alvos vulneráveis.
Influenciadores digitais desempenham um papel central ao promover os jogos como “renda extra”, atingindo diretamente pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.
O papel da rede de apoio e o planejamento
Para aqueles que já perderam o controle, o primeiro passo é o choque de realidade. A rede de apoio deve ajudar o indivíduo a visualizar o padrão de perdas financeiras e o tempo desperdiçado. Pâmela sugere estratégias práticas, como o uso de softwares que bloqueiam anúncios de jogos e o monitoramento do tempo de uso do celular.
“Trazer o processo de consciência mesmo, o contato com a realidade… ‘Ah, sim, ontem eu perdi 50, anteontem eu perdi 100’. Olha, tem um padrão acontecendo. Se tem um padrão de perdas, sinalize isso para a pessoa”.
No entanto, ela adverte que o vício muitas vezes mascara uma negação profunda.
“Não é fácil a gente sair desse processo de vício. Quase ninguém diz: ‘Ah, eu sou viciado’. Pelo contrário, a gente diz: ‘Não, eu paro a hora que eu quero’. Mas, não consegue ficar uma hora sem pensar no jogo, um dia inteiro sem pegar no celular”.
Consequências extremas e onde buscar ajuda
A gravidade do problema pode escalar rapidamente para a dilapidação de patrimônios familiares, afetando até economias de terceiros. O estágio mais crítico, segundo a especialista, é quando a frustração da perda total leva à idealização ou tentativa de suicídio.
“O último limite dentro dos jogos de azar é a tentativa de suicídio e a concretização, muitas vezes, do suicídio. Então, precisa buscar ajuda enquanto há tempo”.
Em Santarém, a Clínica de Psicologia da UNAMA oferece atendimento social para a comunidade, realizado por acadêmicos sob supervisão e profissionais graduados.
O serviço funciona de segunda a sexta-feira e é uma alternativa para quem não possui condições financeiras para tratamentos particulares. Também há os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que são unidades do SUS, abertas e comunitárias, focadas no atendimento de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, incluindo o uso de álcool e drogas.
A psicóloga conclui que, embora o suporte profissional seja fundamental, o reconhecimento individual da necessidade de mudança é o único ponto de partida eficaz para qualquer tratamento.
Por Baía
O Impacto


