NÃO À DRAGAGEM DO TAPAJÓS
Conheço o rio Tapajós desde a sua foz até as corredeiras do distrito de São Luiz, verdadeiro fim de linha das embarcações de curso regular. A partir dali, apenas pequenas voadeiras de alumínio se aventuram, desafiando a cachoeira que se lança sobre lajeiros de pedra.
Essa familiaridade me permite compreender os riscos da navegabilidade ao longo do seu curso. Meu avô materno possuía embarcação que fazia a linha entre Santarém e Itaituba, experiência que marcou nossa história familiar e moldou, desde garoto, meu olhar atento e respeitoso sobre essas águas. Meus avós paternos, que elegeram o Vale do Tapajós como centro de suas atividades, possuíam terras que alcançavam o rio Cupari.
Minha mãe, professora normalista, iniciou sua vida no magistério em Aveiro, onde se casou. Tenho nove irmãos; os cinco mais velhos nasceram naquele município, em frente a Daniel de Carvalho (localidade ribeirinha lembrada como entreposto pecuário que abastecia Fordlândia e Belterra). Essas raízes profundas explicam por que me manifesto com conhecimento de causa e vínculo afetivo genuíno sobre o Tapajós, que considero o rio mais belo do mundo.

Casarão da família Campos, do século XIX.
Sempre censurei a inoperância das autoridades diante da dragagem do rio cristalino promovida pelo garimpo clandestino, críticas que, lamentavelmente, jamais encontraram eco.
Dito isso, como tapajônico que ama sua terra e sua gente, manifesto-me com legitimidade para registrar meu protesto contra a privatização e a dragagem do majestoso rio por força de inusitado decreto presidencial, diante do iminente risco de dano irreversível ao meio ambiente e às comunidades que dele dependem.
Dragagens podem ser justificadas quando existe estrutura portuária consolidada e necessidade econômica efetivamente comprovada, acompanhadas de consulta prévia e adequada mitigação ambiental.
Tornam-se, contudo, controversas quando se pretende adaptar um rio essencialmente natural a uma lógica que não lhe é própria, sobretudo em sistemas ambientalmente sensíveis, como os da Amazônia.
Prefiro que a natureza siga seu curso de autorregulação. Intervenções dessa ordem podem gerar alterações sensíveis e imprevisíveis no ecossistema, comprometendo a vida ao longo de seu leito e em todo o seu entorno.
A beleza do Vale do Tapajós, para mim, não tem preço. É inegociável.
O Impacto



Conheço o Tapajós de perto e entendo o valor simbólico e material que ele tem para as comunidades. Penso que o ponto central aqui é simples: decisão administrativa do Executivo (decreto) que pode afetar povos indígenas e ribeirinhos exige Consulta Prévia, Livre e Informada (Convenção 169/OIT), além de licenciamento ambiental robusto, não como formalidade, mas como condição de legitimidade. Desenvolvimento não se impõe: se constrói com transparência, estudo sério e participação real. Tapajós não é só rota logística; é território, sustento e identidade.
Tapajós em risco: por que os protestos são legítimos
O rio Tapajós não é apenas uma rota logística. Ele é território, sustento e identidade de povos que vivem há séculos em suas margens. A proposta de dragagem do rio, associada à flexibilização do licenciamento ambiental, reacende um conflito conhecido na Amazônia: decisões tomadas sem diálogo e sem respeito à lei.
Os protestos indígenas em Santarém, que já duram semanas, são legítimos e amparados pela Constituição e pela Convenção 169 da OIT, que garante o direito à consulta livre, prévia e informada. Ignorar esse direito não é progresso — é violação institucional.
Os impactos já são sentidos na cidade: tráfego pesado no trecho urbano da Cuiabá–Santarém, aumento da poluição, degradação da infraestrutura, insegurança para pedestres e perda de qualidade de vida. Ainda assim, persiste a omissão dos poderes públicos locais, com pouca fiscalização, pouca escuta e pouca ação efetiva.
Quando instituições se calam, a sociedade se manifesta. Defender o Tapajós não é ser contra o desenvolvimento — é exigir que ele respeite a lei, o meio ambiente e as pessoas.
Ouvir os povos do rio não é concessão. É dever. Por Paulo Scherer Analista de Sistemas e Técnico em Meio Ambiente.
Sugestão ao advogado José Ronaldo, ao médico Eric Jennings que também já se manifestou contra. Seria interessante criar uma comitiva da sociedade civil, igreja, e representantes dos diversos segmentos, que são contrários a essa obra, e ir até Brasília junto aos ministérios dos transportes, turismo, DNIT, Secretaria da presidência, e levar abaixo assinado, depoimentos de moradores, pescadores, ribeirinhos, etc. Mostrar quão será o tamanho do prejuízo (irreversível), que essa obra trará para todos que dependem dessa obra prima da natureza.