ADRIANA ALMEIDA: A CANDIDATA QUE PODE TER VOTOS MAS ESCOLHEU O PARTIDO ERRADO PARA SER ELEITA
Por Fábio Maia
Nas últimas semanas, esta coluna analisou dois casos que ilustram como o jogo eleitoral se decide muito antes das urnas. Primeiro, o de Chapadinha — um estrategista que calculou certo, mas foi derrubado por uma força externa maior do que o seu plano. Agora, vou falar de um caso diferente, e em certa medida mais inquietante: o de Adriana Almeida, pré-candidata a deputada federal pelo MDB.
A diferença fundamental entre os dois casos é essa: Chapadinha foi vítima de um movimento externo que desorganizou sua estratégia. Adriana, ao que tudo indica, caminhou por escolha — ou foi conduzida com habilidade — para uma armadilha que estava à vista de quem conhece o sistema.
O que os números dizem — e o que não dizem
Comecemos pelo que é real e não pode ser ignorado: Adriana Almeida é uma candidata com números. A pesquisa Doxa consolidada de 2026 — seis mil entrevistas, três ondas, registrada no TRE-PA — a coloca em 6º lugar entre os novos nomes para deputado federal no estado, com 2,15% das intenções de voto. No recorte específico do Oeste do Pará, ela lidera. Em Santarém, sua base histórica, aparece com presença consistente nas pesquisas locais.
Esses números têm substância. Adriana construiu uma trajetória real: eleita vereadora em 2020, a mais votada do seu partido à época (PV) para o cargo. Em 2022, disputou a Alepa e obteve 31.205 votos — terceira mais votada do União Brasil no estado, com cerca de 40% da votação concentrada em Santarém e o restante distribuído pelo interior do Pará. Tem carisma comprovado, projeto social visível — o “Bebê a Bordo”, com 250 famílias atendidas em comunidades ribeirinhas — e presença digital relevante.
Ela também tem um ativo que candidatos tradicionais levam anos para construir: a imagem de quem está fora do establishment. Odontóloga, sem mandato desde 2024 por escolha própria, com discurso de renovação e perfil de primeira mulher de Santarém a chegar à Câmara Federal. Num eleitorado cansado de caras conhecidas, isso tem valor.
Mas há uma diferença fundamental entre ter votos e ser eleita. E é aqui que o raciocínio precisa ir além dos percentuais de pesquisa.
O problema não é ela — é o partido
O MDB elegeu 9 dos 17 deputados federais pelo Pará em 2022 — mais da metade das vagas disponíveis. Para isso, acumulou mais de 1,2 milhão de votos na soma de todos os seus candidatos. É o partido mais poderoso do estado, com a maior bancada, a maior máquina e o maior governador.
E é exatamente por isso que o MDB não é o lugar certo para Adriana Almeida neste momento.
Entender isso exige entender como funciona o sistema proporcional — algo que esta coluna já abordou, e que merece ser repetido porque é o coração da questão. No sistema proporcional, eleger-se não depende apenas de quantos votos você tem. Depende de quantos votos o seu partido tem coletivamente, e de quantas vagas esse total garante. O MDB paraense tem muitos votos — mas tem ainda mais candidatos competindo por eles.
Em 2022, o piso individual para ser arrastado pelo MDB federal foi de 53.194 votos — e mesmo assim, candidatos do próprio partido com 73.798 votos não foram eleitos, porque o MDB havia esgotado as vagas disponíveis com nomes ainda mais votados. Adriana chegou à Alepa estadual em 2022 com 31.205 votos. Para federal pelo MDB em 2026, esse número não chega nem perto do necessário.
Foi escolha — ou foi convite?
Há um detalhe nos bastidores que não pode ser ignorado. A decisão de Adriana pelo MDB não foi solitária. Segundo noticiado pela imprensa local, dois fatores pesaram: acompanhar seu aliado João Pingarilho, que também migrou para o MDB para disputar a Alepa, e o convite direto do governador Helder Barbalho, que a recrutou para ser a principal referência do MDB no terceiro maior colégio eleitoral do Pará.
O convite de Helder é, por si só, uma análise que o eleitor precisa fazer. O governador tem interesse genuíno em eleger Adriana — ou tem interesse em ter o nome mais competitivo do Oeste do Pará dentro do MDB, onde ele fica sob controle do campo político governista, em vez de estar em um partido adversário onde poderia causar dano maior?
Não estou atribuindo má-fé a ninguém. Estou descrevendo como a política funciona. Helder Barbalho é um estrategista sofisticado, como já demonstramos nesta coluna ao analisar o caso do PSB e do Chapadinha. Recrutar candidatos competitivos para dentro do seu campo político — mesmo que eles não se elejam — é uma forma de enfraquecer o campo adversário. É xadrez, não generosidade.
A comparação que ilumina o problema
Na semana passada, analisei o caso de Chapadinha. Ele errou o partido por força externa — a manobra de Helder no PSB. Adriana parece ter errado o partido por uma lógica diferente: foi recrutada para o MDB com a promessa implícita de visibilidade e apoio, sem ponderar adequadamente o seu “tamanho político” em relação à concorrência interna que encontraria.
E aqui está a distinção que importa para o eleitor. Chapadinha calculou sua estratégia corretamente — o problema foi externo e imprevisível. No caso de Adriana, os dados estavam disponíveis antes de abril de 2026. O histórico do MDB federal no Pará é público. O quociente eleitoral de 2022 é público. A lista de candidatos do partido também seria pública. Com essas informações em mãos, era possível calcular que uma candidata com 31 mil votos de histórico estadual teria dificuldade estrutural para se eleger pelo maior partido do estado.
Ainda há um caminho — mas é estreito
Seria desonesto dizer que Adriana não tem chances. Ela tem. O MDB é tão grande no Pará que mesmo candidatos com votações modestas podem se beneficiar da força coletiva do partido — se o total de votos garantir mais vagas do que o esperado. Se o MDB confirmar uma bancada de 9 ou 10 federais novamente em 2026, os excedentes de votação podem arrastar candidatos que individualmente não atingiriam o piso.
Mas esse caminho tem uma condição que Adriana não controla: depende do desempenho de todo o partido, de todos os outros candidatos, da conjuntura nacional e de candidatos muito mais fortes do que ela, que serão servidos antes na fila das vagas.
Ter bons números em pesquisa é condição necessária para chegar lá. Não é condição suficiente.
O que isso ensina — de novo
Esta é a terceira semana consecutiva em que esta coluna analisa como candidatos chegam às eleições com suas possibilidades comprometidas antes mesmo de a campanha começar. Primeiro o eleitor sem critério, depois Chapadinha, agora Adriana. O padrão que emerge é sempre o mesmo: as decisões que definem quem vai ou não ao Congresso são tomadas em março e abril, nos cartórios eleitorais, nas reuniões de diretório, nos telefonemas com governadores. Não em outubro.
Adriana Almeida tem talento, tem carisma e tem base. Esses são ativos reais. A pergunta que ela — e o eleitor — deveria fazer é: esses ativos estão sendo bem aproveitados no ambiente em que ela escolheu competir? A resposta honesta, olhando os números, é que o MDB federal do Pará é um partido onde até candidatos com boa votação ficam de fora. E isso não é uma crítica a Adriana. É uma crítica à lógica do sistema — que favorece partidos grandes e frequentemente engole candidatos viáveis que deveriam estar em chapas menores e mais enxutas.
Política é gestão. E gestão começa com as escolhas certas — inclusive a escolha do ambiente onde se vai competir.
Até domingo que vem.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.



Na verdade essas personagens da politica local Santarena , ficam refem de grandes nomes da cenário paraense, principalmente dos da capital e a jogada de tapetão, se inicia antes mesmo da eleições de outubro, então impossível não é a referência, mais dificilmente fica para conseguirem uma cadeira no legislativo federal, por que o oeste do Pará, não é decidido com os representantes da região!