DO PLANO PERFEITO AO FONA: A HISTÓRIA DE COMO CHAPADINHA PERDEU O JOGO ANTES DE ENTRAR EM CAMPO
Por Fábio Maia
Na política, existe um tipo de derrota que dói mais do que ser derrotado nas urnas. É a derrota que acontece antes da eleição — quando o tabuleiro muda embaixo dos seus pés e você só percebe quando já não há mais o que fazer. É exatamente isso que está acontecendo com Chapadinha, pré-candidato a deputado federal pelo Pará em 2026.
A história merece ser contada em detalhes, porque ela ilustra, com precisão cirúrgica, como funciona o jogo político de verdade — não o que aparece nos discursos, mas o que acontece nos bastidores, nas ligações de madrugada e nas viradas de mesa que ninguém anuncia publicamente.
O plano era bom — e estava funcionando
Chapadinha foi deputado federal pelo Pará entre 2015 e 2019. Obteve 63.671 votos em 2014, sendo o único representante de Santarém na Câmara naquela legislatura. Depois disso, ficou dois ciclos eleitorais inteiros fora das urnas — 2018 e 2022 sem candidatura. Para quem conhece o sistema proporcional, sabe que dois ciclos de ausência são dois ciclos de esquecimento.
Para tentar voltar, Chapadinha precisava de uma estratégia inteligente. E ele encontrou uma. O plano era simples e elegante: filiar-se ao PSB ao lado de Alessandra Haber — a deputada federal mais votada do Pará em 2022, com 258.907 votos — e ser o segundo nome de uma chapa enxuta. Alessandra puxaria o quociente com sua votação expressiva; Chapadinha colheria a reboque. Não é uma estratégia desonrosa, aliás. É exatamente como o sistema proporcional funciona — e muitos deputados foram eleitos assim.
O acordo tinha lógica territorial clara: Alessandra tem base em Belém e na região metropolitana; Chapadinha tem história no Oeste do Pará. Os dois não se canibalizam. A chapa seria enxuta, calibrada, eficiente. O candidato de Daniel Santos — pré-candidato ao governo do Pará pelo campo de oposição a Helder Barbalho — teria viabilidade real.
Era um plano bom. O problema é que Helder Barbalho também sabia que era um plano bom.
Helder Barbalho entra em campo — e muda tudo
O governador Helder Barbalho não é conhecido por deixar o adversário se estruturar em paz. Quando percebeu que o PSB estava prestes a se tornar um veículo competitivo para o grupo de Daniel Santos, agiu. A manobra foi sofisticada: prometeu chapas fortes a vários partidos — PSB, Republicanos, União Brasil — para impedir que candidatos do campo adversário se filiassem a essas legendas. Com as promessas no ar, os partidos esperaram. E esperaram. E quando o prazo de filiação chegou ao fim, em 3 de abril de 2026, a realidade se impôs.
O PSB ficou sem chapa. A direção nacional do partido foi pega de surpresa. Helder havia prometido uma nominata competitiva que nunca se materializou — porque o MDB, partido dele, ficou com os melhores nomes. Alguém sempre fica de fora quando um único jogador faz promessas para muitas mesas ao mesmo tempo.
E Alessandra Haber? Ela não foi para o PSB. Migrou para o Podemos — o partido de Daniel Santos, seu marido, candidato ao governo do Pará. A movimentação, vista de fora, parece simples. Vista de dentro, foi o golpe final no plano de Chapadinha.
O Podemos que Chapadinha encontrou — não era o Podemos que ele esperava
Chapadinha também foi para o Podemos. Até aí, tudo bem — Alessandra estava lá, o acordo poderia ser adaptado. Mas o partido que ele encontrou não era mais aquela chapa enxuta e calibrada que o plano original previa. Era um partido que havia atraído, no mesmo movimento, nomes muito mais pesados do que ele.
Olival Marques, deputado federal em exercício, reeleito em 2022 com 102.435 votos pelo MDB — migrou para o Podemos. Um parlamentar incumbente, com mandato ativo, com estrutura de campanha e recursos já mobilizados.
Wladimir Costa — o “federal do povão”, quatro mandatos, chegou a obter 236.514 votos em um único pleito, a maior votação da bancada paraense em seu tempo — também foi convidado pelo senador Zequinha Marinho e anunciou filiação ao Podemos. O apelo popular de Wlad no interior do Pará é exatamente o mesmo eleitorado que Chapadinha precisaria mobilizar.
Em poucas semanas, Chapadinha passou de segundo nome forte de uma chapa enxuta para quarto nome de uma chapa pesada.
Uma boa notícia — e o problema que ela não resolve
Há um dado que muda parcialmente o cenário: Wladimir Costa está inelegível. O TRE-PA manteve, em decisão unânime de outubro de 2025, sua condenação a 12 anos de prisão por violência política de gênero e extorsão contra a deputada federal Renilce Nicodemos. A Lei da Ficha Limpa o impede de se candidatar. Wlad está fora.
Com isso, Chapadinha volta a ser o terceiro nome da chapa. Uma melhora real. Mas não suficiente para resolver o problema central.
Para que Chapadinha seja eleito como terceiro nome do Podemos, o partido precisaria conquistar três vagas federais no Pará. Três vagas significam aproximadamente 800.000 votos totais da chapa — um patamar que o MDB alcança com frequência no estado, elegendo sozinho 9 dos 17 deputados federais em 2022, mas que o Podemos nunca esteve nem perto de atingir no Pará. É matematicamente possível. Para o Podemos, é eleitoralmente improvável.
O diagnóstico honesto
Chapadinha tem 69 anos e dois ciclos eleitorais de ausência. Está em uma chapa com Alessandra Haber — 258.907 votos — e Olival Marques — 102.435 votos. Para se eleger, precisaria superar Olival em votação e tornar-se o segundo nome da chapa, ou torcer para que o Podemos faça uma votação histórica no Pará.
Nenhuma dessas hipóteses é impossível. Mas nenhuma delas é provável.
A ironia cruel da situação é que o plano original de Chapadinha era tecnicamente correto. Ele identificou a locomotiva certa, escolheu o território certo, montou a estratégia certa. O problema não foi a qualidade do plano — foi que outro jogador muito mais poderoso decidiu embaralhar as cartas.
Em política, como em xadrez, não basta ter um bom plano. É preciso que o adversário não perceba o plano antes de você executá-lo.
O que isso ensina ao eleitor
Esta história tem uma lição que vai além de Chapadinha. Ela mostra como as disputas eleitorais se decidem muito antes das urnas — nas filiações, nas alianças, nas composições de chapa, nos acordos que são feitos e desfeitos nos bastidores de Brasília e Belém.
O eleitor que só começa a prestar atenção quando a propaganda eleitoral vai ao ar, em agosto, está assistindo ao fim de uma história que já foi escrita. Os capítulos mais importantes — quem disputará com quem, em qual partido, em qual posição dentro da chapa — foram escritos em março e abril, longe das câmeras.
Por isso esta coluna existe: para contar esses capítulos enquanto eles ainda estão sendo escritos. Política é gestão — e a gestão começa muito antes da eleição.
Até domingo que vem.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.



QUEM DECIDE O JOGO É O POVO
Toda análise política merece respeito. Mas nenhuma análise tem o direito de tratar como derrotado um homem que já recebeu mais de 63 mil votos na primeira eleição que disputou na vida e quase 70 mil votos do povo do Pará na eleição seguinte.
É importante dizer com clareza: Chapadinha teve voto. E teve muito voto.
Mesmo quando não conseguiu a reeleição, quase 70 mil paraenses confiaram novamente no seu nome, na sua história e no seu trabalho. Isso não é esquecimento. Isso não é fraqueza política. Isso é capital popular.
É curioso ver alguém que nunca teve expressão eleitoral decretar a derrota de quem já recebeu quase 70 mil votos, em mais de 80 municípios paraenses.
É muito fácil, de uma coluna de domingo, dizer que alguém “perdeu antes de entrar em campo”. Difícil é ter coragem de colocar o nome nas urnas, enfrentar uma campanha, andar no sol, ouvir o povo, pedir confiança e receber a votação expressiva que Chapadinha recebeu.
Chapadinha nasceu pobre. Teve poucas oportunidades. Estudou pouco, mas trabalhou muito. Venceu na vida com coragem, fé, esforço próprio e honestidade. Tornou-se empresário bem-sucedido, construiu patrimônio, gerou empregos e nunca esqueceu suas origens.
Essa trajetória não pode ser reduzida a cálculo de chapa, bastidor partidário ou opinião de domingo.
Política tem matemática, sim. Tem partido, tem estratégia, tem composição e tem bastidor. Mas política também tem povo. Tem memória. Tem gratidão. Tem respeito. Tem história de vida.
Antes de decretar a derrota de alguém que já venceu na vida, já venceu eleição e já recebeu a confiança de quase 70 mil paraenses, é preciso lembrar uma coisa simples: eleição não se decide em coluna, nem em previsão, nem em análise antecipada.
Eleição se decide nas ruas, nas comunidades, no olhar do povo e na urna.
Chapadinha segue caminhando, ouvindo, conversando e mantendo viva a vontade de ajudar o Pará.
Quem decide o jogo não é a análise.
Quem decide é o povo.
Excelente comentário político.
Abre os olhos de quem gosta e aprende cada dia mais com os fatos reais do dia a dia político.
Infelizmente o nobre candidato não fez uma governança que deixa saudades aos eleitores do oeste do Pará.
E estes 02 mandatos ausente do cenário faz com que a saudades do eleitor desaparece vez.
Santarém ainda está longe de ter um candidato federal que se preocupe com a região antes de se ocupar em encher os bolsos.
Verdade na politica brasileira se inicia a vitória antes mesmo das eleições, pois todos os grandes partidos já sabem matematicamente quem são os vencedores e quem são os perdedores, e no oeste paraense onde Chapadinha tem suas influências é muito dividida por eleitores que são influenciados por cabos eleitorais!