O TABULEIRO ELEITORAL DO OESTE DO PARÁ: FORÇAS, CANDIDATOS E O QUE ESTÁ EM JOGO EM 2026

Na semana passada, falei sobre como escolher bem um deputado — os critérios que um eleitor consciente deveria aplicar antes de depositar seu voto. Recebi retornos que me motivam a ir além: muita gente queria saber não apenas o que considerar, mas o que está acontecendo de verdade na política do Oeste do Pará. Quem são os candidatos? Quais são as forças em disputa? O que os números dizem?

Hoje, vou tentar responder a isso com a clareza e a honestidade que esse leitor merece. Não vou apontar em quem votar — isso é prerrogativa de cada eleitor. Mas vou mostrar o tabuleiro como ele é, com as peças no lugar.

Um cenário genuinamente disputado

Começo com um dado que me parece subestimado pelo eleitor médio: o Pará terá, em 2026, uma das disputas mais abertas dos últimos anos para a Assembleia Legislativa. Segundo levantamento do Instituto Doxa, realizado em três ondas entre janeiro e abril deste ano — com 6.000 entrevistas e registro no TRE-PA —, quase 47% do eleitorado paraense ainda não tem candidato definido para deputado estadual. Quase metade. E nas eleições proporcionais, eleitor indeciso é eleitor disponível. Tudo ainda está para ser construído.

Para o deputado federal, o cenário não é diferente. A janela de decisão do eleitor se abrirá, como sempre, nos últimos sessenta dias de campanha. Quem construir presença, entregar mensagem e mobilizar base nesse período sairá na frente.

O que os números revelam sobre Santarém

Santarém é o maior colégio eleitoral do interior do Pará — aproximadamente 190 mil votos válidos. O que acontece aqui reverbera em toda a região. E o que as pesquisas mostram para 2026 é um cenário de disputa real, sem candidato dominante.

Para deputado estadual, a pesquisa GPO (dezembro/2025) e a Destak (2026) apontam JK do Povão (PL) na liderança em Santarém, com entre 17% e 19% das intenções de voto. O ex-prefeito Nélio Aguiar aparece em segundo lugar, entre 12% e 14%. Maria do Carmo (PT) registra cerca de 9%, e João Pingarilho aparece com 8%.

Esses números, sozinhos, dizem muito — mas também podem enganar quem os lê de forma apressada. Há pelo menos três leituras importantes a fazer em conjunto.

A primeira: esses percentuais foram medidos antes do período oficial de campanha, sem material nas ruas, sem eventos, sem horário eleitoral. São fotografia de um momento, não prognóstico de resultado. A segunda: a rejeição dos três principais candidatos é baixíssima — entre 2% e 3% — o que indica que o eleitor ainda está aberto, não fechado. A terceira, e mais relevante: há pelo menos 35% de eleitores em Santarém que ainda não escolheram ninguém. Esse é o eleitorado que vai definir a eleição.

Para deputado federal: liderança sólida, campo aberto

Na disputa pela Câmara Federal, o cenário em Santarém é mais definido, ao menos por ora. O deputado federal Henderson Pinto (União Brasil) aparece com 32,69% das intenções de voto na cidade — mais que o dobro do segundo colocado. É uma vantagem expressiva para esse momento do calendário eleitoral, construída ao longo de 22 anos de carreira ininterrupta e de um mandato com entregas concretas: o maior volume de emendas parlamentares destinadas a Santarém entre os federais paraenses em 2024.

Mas atenção: no Pará como um todo, a disputa para deputado federal é das mais acirradas. O quociente eleitoral — o número mínimo de votos que um partido ou bloco precisa para conquistar uma vaga — ficou em torno de 266 mil votos por vaga em 2022. Isso significa que nenhum candidato, por mais votado que seja em sua cidade, garante uma cadeira sozinho. Ele depende da votação coletiva do seu bloco. E aí o jogo se torna mais complexo.

As forças que estão se organizando

O que está acontecendo nos bastidores da política do Oeste do Pará já diz muito sobre como será a disputa de outubro. Dois movimentos merecem atenção especial.

O primeiro é a formação de dobradinhas — parcerias entre candidatos ao estadual e ao federal que compartilham palanque, estrutura e eleitorado. Essa estratégia tem lógica clara: no sistema proporcional, votos de candidatos do mesmo bloco somam juntos para garantir vagas. Uma dobradinha bem coordenada multiplica o alcance de campanha e aumenta as chances de eleição dos dois. O eleitor que entende isso passa a enxergar seu voto com outra dimensão.

O segundo movimento é a migração partidária. A janela para mudança de partido se encerrou em abril deste ano, e o resultado foi uma reconfiguração significativa das forças. Candidatos que estavam em partidos menores migraram para legendas maiores. Alianças que pareciam improváveis se consolidaram. O mapa de forças que o eleitor conhecia até o fim de 2025 já não é o mesmo.

O que o eleitor do Oeste do Pará precisa entender

Há uma pergunta que toda eleição proporcional deveria provocar no eleitor: “Minha região está bem representada?” E a resposta honesta, histórica, é que nem sempre.

O Oeste do Pará — Santarém, Alenquer, Óbidos, Oriximiná, Monte Alegre, Juruti, Belterra, Mojuí dos Campos e tantos outros municípios — representa uma das regiões mais ricas em biodiversidade, potencial turístico, produção agrícola e recursos naturais do Brasil. E ao mesmo tempo, uma das mais carentes em infraestrutura, saúde, educação e conectividade. Essa contradição não é acidente geográfico. É, em boa medida, resultado de décadas de representação parlamentar insuficiente ou distante.

Quando um deputado de Santarém chega à Alepa ou à Câmara Federal, ele carrega consigo uma agenda específica: o porto fluvial, a rodovia PA-257 e BR-163, o turismo de Alter do Chão, a saúde nas comunidades ribeirinhas, a regularização fundiária, o escoamento da produção do agronegócio regional. Esses não são assuntos que um deputado eleito em Belém ou em outro reduto colocará na frente de sua própria pauta — não por má vontade, mas por razão eleitoral básica: o eleitor que o elegeu mora em outro lugar e tem outras demandas.

Nas próximas semanas

Ao longo dos próximos meses, esta coluna acompanhará de perto a evolução desse cenário. Analisaremos as pesquisas à medida que saírem, discutiremos as alianças que se formarem e avaliaremos — com dados, não com torcida — o que cada movimento político significa para o eleitor do Oeste do Pará.

A eleição começa agora. Não em agosto, quando a campanha oficial for liberada. Agora. E o eleitor que prestar atenção desde já terá, em outubro, condições de fazer uma escolha muito mais informada do que aquele que esperar a propaganda eleitoral começar.

Política não é espetáculo. É gestão. E a gestão começa com as escolhas certas.

Até domingo que vem.

Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.

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