A ÚLTIMA LIÇÃO DA PROFESSORA MARLENE
Entre as muitas tradições que marcam a vida universitária, poucas são tão simbólicas quanto a chamada “Última Lição”, celebrada em universidades como Coimbra por ocasião da jubilação de um professor catedrático. Mais do que uma despedida, trata-se de um reconhecimento público àqueles que dedicaram décadas ao ensino, à pesquisa e à formação de gerações.
Ao tomar conhecimento da aposentadoria da professora Dra. Maria Marlene Escher Furtado, lembrei-me dessa tradição. Não porque estejamos diante de uma reprodução formal daquele rito, mas porque algumas trajetórias acadêmicas merecem ser celebradas com o mesmo espírito de gratidão e reconhecimento.
Depois de 43 anos dedicados ao magistério, sendo 29 deles no curso de Direito, a professora Marlene encerra um ciclo profissional que se confunde com a própria história da educação superior pública em Santarém.
Tive a honra de ser seu aluno. E, como ocorre com os professores verdadeiramente marcantes, sua presença ultrapassava os limites da disciplina ministrada. A professora Marlene ensinava Direito, mas também ensinava postura, compromisso institucional, responsabilidade pública e respeito pela formação humana dos estudantes.
Sua trajetória está ligada à consolidação do curso de Direito da então Universidade Federal do Pará, Campus Santarém, numa época em que fazer ensino superior público de qualidade no interior da Amazônia era, ao mesmo tempo, desafio e missão. Foi professora, coordenadora, pesquisadora e liderança acadêmica em momentos decisivos da vida universitária regional.
Mais tarde, participou de uma das maiores transformações educacionais da história do Oeste do Pará: a criação e implantação da Universidade Federal do Oeste do Pará. A UFOPA não representou apenas uma mudança administrativa. Significou a afirmação de um projeto regional de universidade, pensado a partir da Amazônia, de suas necessidades, contradições e possibilidades.
A professora Marlene esteve presente nesse processo. Não como espectadora, mas como parte da geração que ajudou a construir as bases institucionais da nossa universidade. Por isso, sua aposentadoria também nos convida a reconhecer o trabalho daqueles que, muitas vezes longe dos holofotes, sustentaram a expansão do ensino público superior em Santarém.
Sua contribuição, contudo, não se limita à universidade. Também na Ordem dos Advogados do Brasil, Subseção de Santarém, a professora Marlene exerceu papel relevante, inclusive como vice-presidente e atual conselheira, sempre presente nas ações institucionais da advocacia. Sua atuação revela uma compreensão do Direito que não se encerra na sala de aula, mas se projeta na vida pública, na cidadania e no fortalecimento das instituições.
Há pessoas cuja carreira se resume ao exercício de uma função. Outras ajudam a construir as instituições por onde passam. A professora Marlene pertence a esta segunda categoria.
Seus títulos acadêmicos, sua produção intelectual, sua atuação administrativa e sua presença institucional são importantes. Mas talvez o seu maior legado esteja nas gerações de alunos que ajudou a formar. Profissionais que hoje atuam na advocacia, no serviço público, na docência, na magistratura, no Ministério Público, na gestão e em tantos outros espaços da vida social.
A aposentadoria de uma professora como Marlene Escher não é apenas um ato funcional. É um marco de memória. É a oportunidade de dizer, em vida e em público, aquilo que muitas vezes a rotina nos faz adiar: obrigado.
Obrigado pela dedicação à educação superior em Santarém. Obrigado pela contribuição à construção da UFOPA. Obrigado pelo exemplo de compromisso com o Direito, com a universidade e com a comunidade.
As instituições permanecem, novas turmas chegam, novos professores assumem as salas de aula. Mas algumas presenças seguem inscritas na memória de uma universidade.
A professora Marlene Escher é uma delas.
E sua última lição talvez seja esta: uma vida dedicada ao ensino nunca termina quando se fecha a porta da sala de aula. Ela continua em cada aluno formado, em cada instituição fortalecida e em cada gesto de gratidão que a memória coletiva é capaz de preservar.
Sobre o autor
Ítalo Melo de Farias é advogado, mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra e professor das disciplinas de Direito Constitucional e Direito Tributário no Instituto Esperança de Ensino Superior — IESPES.


