JOÃO PINGARILHO: O DEPUTADO QUE CHEGOU PELA PORTA DOS FUNDOS E PODE SAIR PELA PRINCIPAL
Por Fábio Maia– Consultor político, com atuação no Oeste do Pará
Na política, existem trajetórias que ensinam mais do que qualquer manual de estratégia eleitoral. A de João Pingarilho é uma delas. Em menos de três anos, ele foi candidato a prefeito, secretário municipal, candidato a deputado estadual, secretário regional do estado e, finalmente, deputado estadual — sem nunca ter vencido uma eleição diretamente. E é exatamente por isso que sua candidatura à reeleição em 2026 merece uma análise que vai além do óbvio.
Este é o oitavo artigo da série sobre os candidatos que moldarão a representação do Oeste do Pará no Congresso e na Alepa em 2026. Nos anteriores, analisei como Chapadinha e Adriana Almeida cometeram erros de calibragem partidária. Como Henderson Pinto aprendeu com a própria história e fez a escolha certa. Como JK do Povão herdou um vácuo estratégico no PL. Hoje, o tema é diferente — mas igualmente revelador.
A trajetória: construção paciente em terreno acidentado
João Pingarilho nasceu em 14 de julho de 1985, em Santarém. Empresário do ramo da panificação, construiu ao longo de mais de uma década uma reputação como empreendedor local. Sua primeira candidatura eleitoral foi para deputado estadual em 2018. Não foi eleito. Em 2020, candidatou-se a prefeito de Santarém — obteve 13.378 votos, terminando em terceiro lugar. Perdeu, mas o resultado mostrou algo importante: havia uma base real em construção.
Em 2021, foi nomeado Secretário Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Econômico de Santarém. Em seguida, Secretário Regional de Governo do Baixo Amazonas — cargo de articulação política com os 13 municípios da região, o mesmo que foi ocupado por Nélio Aguiar e, antes, pelo próprio Zé Maria Tapajós. Esse cargo é, no Oeste do Pará, um trampolim político consolidado: quem passa por ele constrói rede regional que nenhuma campanha eleitoral compra.
Em 2022, disputou a Alepa pelo Podemos. Obteve 28.239 votos — o suficiente para ser o primeiro suplente da coligação. Para muitos candidatos, isso seria o fim. Para Pingarilho, foi o início de uma espera calculada.
A vaga, a controvérsia jurídica — e a mão invisível de Helder
Em 2 de janeiro de 2025, João Pingarilho foi empossado deputado estadual na Alepa. A vaga abriu porque Toni Cunha — eleito prefeito de Marabá em 2024 — deixou o cargo. Pingarilho, como primeiro suplente da coligação que incluía o Podemos e outros partidos, assumiu.
Há um detalhe político nessa história que vai além do protocolo jurídico. O primeiro suplente do PL — partido de Toni Cunha — recorreu ao TSE contra a decisão que deu a vaga a Pingarilho, do Podemos. A Alepa, presidida por Chicão, empossou Pingarilho mesmo assim, e o recurso foi julgado improcedente.
Para quem conhece os bastidores, a decisão de Chicão não foi tomada no vácuo. Há uma leitura política amplamente compartilhada de que Helder Barbalho, que havia apoiado Pingarilho com a promessa de viabilizar sua posse caso o espaço surgisse, exerceu sua influência sobre o presidente da Alepa — que é do seu campo político. Não há registro público dessa negociação, mas o resultado fala por si: um deputado do Podemos assumiu a vaga de um deputado do PL, com a concordância de uma Alepa presidida por um aliado do governador. Na política, esse tipo de coincidência raramente é acidental.
O mandato que transformou suplência em capital político
O que Pingarilho fez com esse mandato é o dado mais relevante para 2026. Em 15 meses de Alepa, destinou R$ 11,7 milhões em emendas estaduais para municípios do Oeste do Pará — saúde em Belterra, Rurópolis, Mojuí dos Campos, entre outros. O modelo de repasse para educação foi descrito pela imprensa como inédito. São dados concretos, verificáveis, que transformam um mandato por suplência em mandato por entrega.
O que isso representa eleitoralmente: prefeitos que recebem recurso têm motivo para apoiar. Vereadores cujos municípios foram contemplados têm base para mobilizar. Pingarilho chegou à Alepa sem ter sido eleito diretamente — e saiu dos 15 primeiros meses com uma rede de relações que muitos deputados eleitos não constroem em quatro anos.
A migração para o MDB — e o campo político reunificado
Antes do prazo final de filiação, em abril de 2026, João Pingarilho migrou do Podemos para o MDB, formando dobradinha com Adriana Almeida para o federal. A mudança gerou questionamentos — afinal, ele assumiu o mandato pelo Podemos e migrou para o maior partido do estado durante o exercício. Mas há uma lógica eleitoral técnica por trás dessa decisão que vai além do simples alinhamento com o campo governista, e que merece ser explicada.
No sistema proporcional brasileiro — o chamado sistema d’Hondt —, as vagas não são distribuídas apenas pelo quociente direto. Há rodadas de sobra, onde os partidos com maiores médias recebem as cadeiras restantes. Um partido com múltiplos candidatos de alta votação — puxadores acima de 100 mil votos — praticamente garante o quociente repetidas vezes, o que eleva a média da bancada nas rodadas de sobra e pode puxar candidatos com votações menores. O MDB entra em 2026 com exatamente esse perfil no Pará: uma bancada com candidatos de peso que podem garantir uma ou duas vagas adicionais nas sobras, abrindo espaço para novos nomes que não chegam ao quociente por conta própria.
Há, porém, um risco que essa lógica não elimina: as rodadas de sobra dependem do desempenho coletivo de toda a bancada — de candidatos que Pingarilho não gerencia. Se os puxadores do MDB performarem abaixo do esperado, a janela se fecha. É uma aposta bem calculada. Não é uma certeza.
Em evento recente que lotou o plenário da Câmara Municipal de Santarém, Nélio Aguiar realizou o lançamento de sua pré-candidatura com a presença explícita e o discurso de apoio do prefeito Zé Maria Tapajós. Lideranças de bairros, vereadores e apoiadores de diversas regiões do município participaram. O deputado federal Henderson Pinto, mesmo fora da cidade, participou por vídeo, reafirmando parceria. O campo está reunificado — e isso é um fato público, não uma especulação.
Nesse contexto, a leitura mais precisa sobre por que Zé Maria abriu espaço para Pingarilho e Adriana na gestão municipal é estratégica: trata-se de construir pontes para 2028, quando o prefeito precisará de aliados para a reeleição. Apoiar Nélio e Henderson agora, e ao mesmo tempo acomodar Pingarilho e Adriana na estrutura, é a forma de um político experiente manter o maior número possível de portas abertas. É gestão política de longo prazo — não contradição.
A disputa pelo mesmo eleitorado: o fator evangélico
Há uma dimensão da disputa de Pingarilho que vai além dos números de pesquisa e das emendas distribuídas — e que esta coluna precisa nomear com clareza: a disputa pelo eleitorado evangélico.
Santarém tem uma das maiores concentrações de igrejas evangélicas do interior do Pará, com destaque para a Assembleia de Deus, que possui uma característica eleitoral específica: seus membros tendem a votar de forma coesa, seguindo orientações das lideranças pastorais. Em contextos onde a diferença entre ser eleito ou não é de alguns milhares de votos, esse eleitorado pode ser decisivo.
Tanto João Pingarilho quanto Josué Paiva são evangélicos, com perfil conservador declarado, defensores de pautas de família e valores cristãos. Os dois disputam ativamente acordos com lideranças religiosas da Assembleia de Deus. Mas há diferenças relevantes no tipo de presença que cada um construiu dentro da denominação.
Pingarilho tem apoio ao Instituto Bom Samaritano, braço institucional da Assembleia de Deus em Santarém que realiza ações de solidariedade à comunidade — uma forma de presença que precede qualquer acordo eleitoral formal e que tende a ser bem vista pelas lideranças pastorais. Conta também com o alinhamento da vereadora Elita Beltrão, eleita em 2024 com apoio direto da Assembleia, e tem abertura na Paz Church — denominação com presença relevante em Santarém e no interior do Oeste do Pará.
Esse quadro torna a disputa pelo eleitorado evangélico mais equilibrada do que parece à primeira vista. Josué Paiva tem a vantagem do vínculo pastoral direto e da estrutura familiar dentro da denominação. Pingarilho constrói sua presença por outro caminho — o da ação institucional e das alianças políticas internas. Qual desses caminhos será mais eficaz na hora da orientação de voto é uma pergunta que só outubro responde.
Para Pingarilho, que tem base mais concentrada em Santarém, esse eleitorado é especialmente crítico. Para Josué Paiva, que tem capilaridade mais distribuída em outros municípios do Oeste do Pará, a disputa pelo voto evangélico de Santarém é estratégica, mas não determinante.
O tabuleiro do estadual em Santarém — com todos os jogadores
O cenário para deputado estadual com base em Santarém em 2026 tem pelo menos quatro candidatos com votação real a considerar:
Maria do Carmo (PT) — deputada estadual em exercício, eleita em 2022 com 43.255 votos (18.810 em Santarém e 24.445 no interior). Tem mandato ativo, base fiel no campo progressista e histórico de entrega. É o nome mais consolidado do grupo.
Josué Paiva — eleito em 2022 com 36.874 votos, com base originária em Monte Alegre, mas que já estabeleceu domicílio eleitoral em Santarém e tem sua principal votação na cidade. Seu diferencial é justamente o inverso da fraqueza de Pingarilho: mais capilaridade fora de Santarém do que dentro. Segundo projeções recentes, pode chegar a 45-50 mil votos em 2026.
João Pingarilho (MDB) — deputado em exercício por suplência desde janeiro de 2025. Em 2022, obteve 11.923 votos em Santarém — concentração local maior do que a de Josué, que teve 3.604 na cidade. Um ativo adicional que poucos analistas mencionam: seu irmão Urías Pingarilho foi eleito vereador de Santarém em 2024 com 3.523 votos — o quinto mais votado do ciclo. Ter um irmão na Câmara Municipal amplia a estrutura política local de Pingarilho de forma concreta. Agora no MDB, enfrenta o mesmo desafio estrutural de Adriana Almeida: o piso do partido em 2022 foi 48.006 votos. Precisa crescer para garantir a vaga sem depender exclusivamente do arrastão da bancada.
JK do Povão (PL) — lidera as pesquisas em Santarém para o estadual com 17-19% de intenção de voto e 2% de rejeição. Também evangélico, disputa as mesmas lideranças religiosas que Pingarilho e Josué Paiva. E, como esta coluna já documentou, aparece em 3º lugar no ranking estadual da Doxa — com 2,33% — o único candidato do Oeste do Pará no top 5 da pesquisa. Isso significa que JK não é apenas uma força local de Santarém. Tem reconhecimento estadual crescente que candidatos do mesmo campo eleitoral conservador precisam monitorar com atenção — especialmente Pingarilho, que disputa o mesmo perfil de eleitor na cidade.
Quatro candidatos com base em Santarém, eleitorado evangélico sobreposto, e um campo político que apesar de reunificado, tem atores com agendas próprias e independentes.
O veredicto analítico
João Pingarilho é um candidato mais forte do que parecia há seis meses — e mais vulnerável do que sua narrativa de incumbente sugere. Sua trajetória é de construção consistente: nunca ganhou uma eleição direta, mas nunca parou de se movimentar. O mandato por suplência foi transformado em capital político concreto.
Para 2026, os elementos positivos são reais: mandato em exercício, R$ 11,7 milhões em emendas distribuídas com critério regional — priorizando o Oeste do Pará onde já tem base consolidada, e alcançando municípios novos para ampliar capilaridade —, rede de lideranças articulada em dezenas de municípios do Baixo Amazonas e região, e apoio operacional do campo político de Zé Maria. Os riscos também são reais: o piso histórico do MDB na Alepa em 2022 foi de 48.006 votos, e Pingarilho chega sem ter sido eleito diretamente, com mandato conquistado por suplência.
Há, porém, um elemento de maturidade analítica que distingue candidatos sérios dos que apenas contam promessas: a consciência de que liderança mapeada não é o mesmo que liderança garantida. No sistema proporcional, a transferência de votos de lideranças comunitárias para candidatos é real, mas volátil — lideranças são cooptadas, acordos são revistos, e a distância entre o planejamento e o resultado das urnas pode ser expressiva. Candidatos que constroem metas com margem de segurança tendem a enfrentar melhor as surpresas de outubro do que aqueles que confiam demais no que está no papel.
O que os próximos meses vão revelar é se Pingarilho consegue, em campanha oficial, transformar os R$ 11,7 milhões já distribuídos, o mandato em exercício e a rede de lideranças articulada em votos suficientes para superar esses obstáculos. A entrega está feita. O planejamento está montado. O partido está escolhido. Falta provar que tudo isso se converte em votos — e essa prova só acontece em outubro.
Política é gestão. E gestão — mais uma vez — começou muito antes de agosto.
O Impacto



Não será fácil para um parlamentar estadual, sem ser eleito diretamente, e que fez uma escolha ou troca por meio de gratidão ao ex governador, e que com candidatos bem avaliados e de nome de peso na política local e estadual, não vai ser impossível se eleger, mas também não vai ter facilidade!