JOSUÉ PAIVA: DE AZARÃO A PUXADOR DE VOTOS – A ASCENSÃO QUE NINGUÉM VIU CHEGAR

Por Fábio Maia*

Em 2022, Josué Paiva era um nome pouco conhecido fora dos círculos evangélicos e políticos do Oeste do Pará. Natural de Monte Alegre, pastor da Assembleia de Deus, empresário, sem base eleitoral consolidada em nenhuma grande cidade, e concorrendo pela primeira vez ao cargo de deputado estadual. A imprensa política local não o colocava entre os favoritos.

Três anos depois, o cenário é completamente diferente. E a história de como isso aconteceu é, possivelmente, o exemplo mais instrutivo desta série sobre como se constrói poder político no Oeste do Pará.

Quem é Josué Paiva – além do rótulo

Josué Vieira de Abreu, nascido em 22 de novembro de 1977, em Monte Alegre, Pará. Empresário, bacharel em Teologia, pastor membro da Assembleia de Deus. Casado há 25 anos com Jady Viana, ex-prefeita de Faro, e pai de quatro filhos, incluindo David Paiva, que consolida presença política própria em Santarém.

Sua trajetória política tem mais de 20 anos. Vereador em Faro, assessor parlamentar na Alepa e na Câmara Federal, secretário municipal. Uma carreira construída em cargos que a maioria das pessoas nem sabe que existem, em municípios que a maioria das análises políticas ignora. É justamente essa trajetória de bastidores que explica o que aconteceu em 2022 e o que está acontecendo agora.

A eleição de 2022 – o resultado que surpreendeu

Nas eleições de 2022, Josué Paiva concorreu ao cargo de deputado estadual pelo Republicanos e obteve 36.874 votos, sendo o segundo mais votado do partido no Pará. Foi eleito.

Para contextualizar: na mesma eleição, João Pingarilho obteve 28.239 votos e não foi eleito diretamente. Maria do Carmo, com 8 anos de prefeitura de Santarém no histórico, obteve 43.255 votos. Josué Paiva, na primeira candidatura ao cargo, chegou muito próximo da candidata mais experiente de Santarém para o estadual.

O diferencial está na distribuição dos votos. Josué não dependeu de um único reduto. Sua votação estava espalhada por municípios do Oeste do Pará: Monte Alegre, Alenquer, Prainha, Faro, Curuá, Aveiro, Juruti, Óbidos, Almeirim, Terra Santa e outros, além de Santarém, onde obteve 3.604 votos em 2022 – menos de 10 por cento do seu total. Os outros 90 por cento vieram do interior. Esse é o diferencial que o distingue de quase todos os outros candidatos desta análise: ele não tem um curral eleitoral. Tem uma rede.

A família como estrutura politica

Para entender Josué Paiva, é preciso entender a família Paiva como unidade política. Seu pai, o pastor José Paiva, pastoreia uma das maiores igrejas da Assembleia de Deus na comunidade de São José, no Planalto santareno. Sua esposa, Jady Viana, foi prefeita de Faro. Seu filho David consolida presença política em Santarém.

A família opera em sincronia: Josué articula em Belém e no interior, o filho consolida a base em Santarém, a rede da Assembleia de Deus conecta comunidades em todo o Oeste do Pará. Não é uma família que usa a política como instrumento de poder pessoal. É uma família enraizada em comunidades reais, com relações de confiança construídas ao longo de décadas. Esse tipo de capital político não se compra e não se replica rapidamente.

A dobradinha com Olival Marques em 2022 – o elo que poucos observaram

Há um dado de 2022 que passou despercebido pela maioria das análises, mas que é estrategicamente revelador. Josué Paiva fechou dobradinha em todo o estado com o deputado federal Olival Marques, filho do pastor Gilberto Marques, o número 1 da Convenção Interestadual de Ministros e Igrejas Evangélicas das Assembleias de Deus no Pará.

Essa dobradinha não era apenas eleitoral. Era uma articulação dentro da estrutura da maior denominação evangélica do estado. O voto evangélico no Pará, especialmente o da Assembleia de Deus, tem uma característica especifica: é um eleitorado que tende a votar de forma orientada pelas lideranças pastorais. Quando a cúpula da Assembleia de Deus sinaliza um nome, os membros, que em comunidades do interior podem representar 30 a 40 por cento do eleitorado, tendem a seguir.

Em 2026, Olival Marques está no Podemos. Josué foi para o Avante. Os dois não estão mais na mesma chapa. Parte da base evangélica que sustentou Josué em 2022 pode estar em disputa com outros candidatos, incluindo João Pingarilho e JK do Povão, que também cultivam relações com lideranças da Assembleia de Deus.

A ascensão em silencio – os números de 2026

O dado mais impressionante sobre Josué Paiva em 2026 não está nas pesquisas de intenção de voto. Está nas articulações de bastidores. O deputado soma hoje apoio de 13 prefeitos e 54 vereadores distribuídos por 26 municípios do Oeste do Pará, com presença crescente também no Marajó e no Vale do Acara.

Para ter referência de escala: Nélio Aguiar, com 8 anos de prefeitura, FAMEP e CNM, está construindo sua rede nos mesmos municípios. Josué Paiva, com um mandato de quatro anos, chegou a um patamar de articulação comparável. Isso não é sorte. É resultado de trabalho sistemático e silencioso que a maioria das analises não acompanhou.

A projeção de votos para 2026 é de 45 a 50 mil, o que o colocaria como um dos candidatos mais votados do Oeste do Pará para o estadual, potencialmente liderando a chapa do Avante. Esse número representa crescimento de 22 a 36 por cento sobre o resultado de 2022, compatível com a expansão territorial documentada.

A disputa pelo eleitorado evangélico

Josué Paiva, João Pingarilho e JK do Povão são os três principais candidatos ao estadual com base em Santarém que tem perfil conservador e evangélico declarado. Os três estão em busca de acordos com lideranças religiosas. Mas há uma diferença fundamental: Josué é pastor da Assembleia de Deus, filho de um dos pastores mais influentes do Planalto santareno, com vínculos institucionais dentro da denominação que os outros dois não tem. Pingarilho e JK são membros e apoiadores da Assembleia. Josué é parte da estrutura.

Essa distinção importa porque, dentro da Assembleia de Deus, a orientação do voto tende a seguir a hierarquia pastoral, não apenas a simpatia pessoal. Um pastor com influência dentro da denominação tem acesso a um canal de mobilização que vai além do que qualquer estratégia de campanha convencional consegue replicar.

O Avante – a escolha partidária e seus limites

Josué Paiva migrou do Republicanos para o Avante para 2026. O Avante é um partido com presença nacional modesta, mas no Pará pode ser calibrado para uma chapa estratégica. Um dado novo: Dayan Rocha — irmão do vereador Erlon Rocha e filho do ex-deputado estadual Antônio Rocha —, assumiu a presidência do AVANTE em Santarém e confirmou pré-candidatura ao estadual também pelo Avante. Dois candidatos de Santarém no mesmo partido significa que a chapa ganha volume coletivo, mas abre uma questão sobre divisão do eleitorado local. É a mesma lógica que Chapadinha tentou no PSB: estar num partido onde a sua votação representa a maior parte do quociente, sem competir com nomes muito maiores.

A diferença em relação ao Chapadinha é que Josué não depende de uma locomotiva externa. Ele próprio é a locomotiva. Com 45 a 50 mil votos projetados, pode garantir a vaga por quociente próprio, sem depender de ser arrastado por ninguém. Isso é eleitoralmente muito mais sólido do que qualquer estratégia de dobradinha dependente.

A denúncia no MP – vulnerabilidade a monitorar

Há um dado menos favorável no histórico recente de Josué Paiva que não pode ser ignorado numa análise honesta. Em 2025, foi denunciado ao Ministério Público por um conselho de ética de Monte Alegre, sob alegação de uso indevido da máquina pública em beneficio próprio, especificamente em relação a um evento chamado Cidadania e Direitos Humanos que teria envolvido servidores e recursos municipais para fins eleitoreiros. O MP determinou que a prefeitura prestasse esclarecimentos.

Não há, até o momento, condenação ou processo formal. Mas é uma vulnerabilidade que adversários podem explorar em campanha. A transparência pública sobre o assunto é a melhor estratégia de gestão desse risco.

O veredicto analítico

Josué Paiva é o candidato que mais cresceu no cenário estadual do Oeste do Pará desde 2022, e o fez de forma estrutural, não apenas nas pesquisas. Treze prefeitos, 54 vereadores, 26 municípios, projeção de 45 a 50 mil votos, capilaridade no interior que nenhum outro candidato local tem, raízes evangélicas profundas e um partido calibrado para que ele seja o puxador.

A reportagem que o descreveu como azarão em 2022 tinha razão no diagnóstico da época. O que mudou não foi a sorte. Foi o trabalho. Em três anos de mandato, Josué Paiva construiu o que muitos políticos não constroem em três mandatos: uma rede real, distribuída, baseada em relações de confiança comunitária e religiosa que vai muito além de Santarém.

Se a projeção de 45 a 50 mil votos se confirmar, ele será um dos deputados estaduais mais votados com base no Oeste do Pará em 2026. A pergunta que 2026 vai responder é se o azarão virou favorito, ou se virou apenas o novo nome que os outros precisam superar.

Política é gestão. E esse candidato tem gerido muito bem o próprio crescimento.

Até domingo que vem.


Fabio Maia e consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve sobre política aos domingos no Jornal O Impacto.

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