A ILUSÃO DO GANHO FÁCIL E A FOME REAL: PARA ONDE VAI O DINHEIRO DO SANTARENO?
Por Manoel Chaves Lima – Advogado tributarista e trabalhista, inscrito na OAB/PA nº 7677, com mais de 26 anos na advocacia cível
Enquanto você lê este artigo, milhões de reais estão saindo de circulação da nossa economia real — aquela que compra o pão, o açaí, o material de construção e a roupa nova — para desaparecer em plataformas digitais de apostas sediadas em paraísos fiscais. O que parecia apenas uma “fezinha” nos jogos da Copa do Mundo se tornou uma pandemia financeira que adoece o bolso e a mesa do trabalhador brasileiro.
Dados alarmantes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelam que as chamadas bets drenaram impressionantes R$ 143 bilhões do varejo nacional nos últimos dois anos. Para se ter uma ideia da gravidade, esse valor equivale a somar todo o faturamento de dois Natais consecutivos do comércio brasileiro.Um recente estudo da fintech Klavi com base nos dados do Open Finance (sistema que integra informações do Banco Central), revelou que 34,8% da população brasileira (quase 35%) enviou dinheiro para plataformas de apostas (bets) desde o início da Copa do Mundo, sendo que esse número representa o triplo em relação aos 11% registrados no mês de maio, antes do início da Copa.
Em Santarém, o cenário não é diferente. O dinheiro que antes circulava no Mercadão 2000, nas lojas da orla ou nos supermercados de bairro, agora é transferido instantaneamente via Pix para empresas que nada deixam de retorno para o município.
O Banco Central aponta que parte relevante desses recursos sai justamente das famílias de baixa renda e de beneficiários de programas sociais, que deixam de comprar itens básicos de higiene e alimentação na esperança estatisticamente nula de enriquecer.
Embora o Ministério da Fazenda tente impor limites regulatórios e o Senado Federal discuta projetos de lei para banir totalmente a publicidade de jogos, a atual superexposição de anúncios na mídia agrava essa sangria financeira. Juridicamente, estamos diante de uma afronta ao Código de Defesa do Consumidor.
A publicidade agressiva, protagonizada por ídolos do esporte e celebridades, vende a falsa promessa de “investimento”, omitindo os riscos matemáticos de perda. Fere-se, assim, o princípio da dignidade da pessoa humana ao permitir que o cidadão comprometa seu mínimo existencial com jogos de azar.
Não é moralismo, é matemática: a conta das bets não fecha para o povo. Enquanto o governo celebra a arrecadação de impostos e os influenciadores ostentam ganhos irreais, o comércio local enfraquece e as famílias se endividam.
É hora de a sociedade acordar: a única aposta que garante o futuro é o trabalho e o consumo consciente, que geram emprego e renda aqui, na nossa terra.
O Impacto


