A VICE QUE MUDOU O JOGO — A SEMANA MAIS DIFÍCIL DE HELDER BARBALHO
Por Fábio Maia
Na semana passada, esta coluna alertou que na política paraense tudo pode mudar até a noite da convenção. A convenção do MDB é hoje, sábado, no Mangueirinho. E ela terá a missão de resolver uma tensão que se instalou nos bastidores do campo governista com uma velocidade que surpreendeu até os analistas mais atentos.
Esta coluna não sabe o que vai acontecer esta noite. Mas identificou a tensão antes de ela estourar. E é sobre essa tensão que se trata hoje.
O acordo que parecia fechado
Na sexta-feira, 25 de julho, o PT confirmou oficialmente Dirceu Ten Caten como pré-candidato a vice-governador na chapa de Hana Ghassan. A nota era clara, a aliança estava formalizada — PT e MDB juntos, com Helder ao Senado e Chicão como segundo nome. O campo governista parecia unido.
Dirceu Ten Caten tem uma trajetória sólida: terceiro mandato como deputado estadual, base em Marabá, formação em direito, militância desde os 14 anos. Foi eleito pela primeira vez em 2014 com 32.930 votos, reeleito em 2018 com 59.600 e em 2022 com 66.397 — crescimento consistente em três ciclos. É um político que conhece o ofício.
Mas havia uma variável que o acordo não contemplou com o peso necessário: o tamanho real do eleitorado conservador e evangélico no Pará — e a velocidade com que esse eleitorado se organiza quando sente que está sendo deixado de fora.
A Comieadepa entra em campo
No domingo, 26 de julho — o Avante oficializou a pré-candidatura do deputado estadual e pastor Josué Paiva ao cargo de vice-governador na chapa de Hana Ghassan. A formalização foi feita pelo diretório estadual do partido, liderado pelo deputado Wescley Thomaz, e apostou explicitamente nas ligações de Josué com igrejas evangélicas e com a Convenção Interestadual de Ministros das Assembleias de Deus no Pará — a Comieadepa.
A resposta foi imediata. Horas depois, o presidente da Comieadepa, pastor Océlio Nauar de Araújo, convocou reunião de emergência da cúpula da denominação para a segunda-feira, 27 de julho — menos de 24 horas após o anúncio do Avante. Conselho Diretor, Conselho Político, Conselho Jurídico e Secretários Adjuntos foram convocados. A pauta oficial: “assuntos estratégicos e temas de interesse do Colegiado”. A pauta real: decidir o posicionamento institucional da Assembleia de Deus frente à escolha do vice de Hana.
Isso não é pressão informal. É a maior denominação evangélica do Pará mobilizando sua estrutura de poder para interferir numa decisão política antes da convenção. O eleitorado evangélico representa mais de um terço da população paraense — e quando a Comieadepa se movimenta com urgência, o campo político precisa responder.
Há ainda um dado de contexto nacional que amplia o peso dessa tensão: o diretório nacional do MDB decidiu nesta semana não apoiar nenhum candidato presidenciável, deixando cada diretório estadual livre para fazer os acordos que julgar mais viáveis em seu estado. Na prática, isso significa que a decisão da vice de Hana é inteiramente paraense — sem tutela de Brasília, sem orientação nacional. Helder e o MDB do Pará resolvem sozinhos. O que reforça a leitura de que o Partido nacional está mais focado em eleger bancadas no legislativo do que em garantir governadores — e que cada estado é tratado como tabuleiro autônomo.
A matemática que Helder precisava resolver
A escolha do vice de Hana não é um gesto de cortesia partidária. É uma decisão eleitoral com impacto numérico real. E para entender por que a semana foi tão difícil, é preciso entender o que cada nome representa em votos.
Dirceu Ten Caten (PT) representa o eleitorado progressista — estimado em 20% do eleitorado paraense com base no desempenho histórico do PT no estado. É o eleitorado de Beto Faro, da agricultura familiar, dos povos tradicionais, dos trabalhadores organizados. É um eleitorado disciplinado, que vota por orientação de campo.
Josué Paiva (Avante) representa algo diferente e complementar: o eleitorado evangélico conservador do interior do Pará. Pastor, deputado estadual com 36.874 votos em 2022, 60 leis sancionadas com foco no público evangélico, ligação direta com a Comieadepa e com lideranças pastorais de todo o estado. É também o único dos cotados com base política no Oeste do Pará — região estratégica que esta coluna já analisou como historicamente sub-representada.
O problema de Helder é que escolher um significa abrir mão do outro — ou pelo menos reduzir o entusiasmo de um dos campos. E num cenário onde a Quaest mais recente coloca Hana com 24% e Dr. Daniel com 20% — empate técnico com 36% a 35% num eventual segundo turno —, qualquer redução de entusiasmo pode ser a diferença entre governar e perder.
O efeito cascata no estadual — o que poucos analisaram
Há uma dimensão desse debate que praticamente nenhum analista político mencionou — e que é central para entender o verdadeiro peso da decisão: se Josué Paiva for escolhido vice de Hana, ele abandona sua candidatura à Alepa.
Para o tabuleiro do estadual em Santarém e no Oeste do Pará, essa saída é um terremoto silencioso. Josué disputava a reeleição com projeção de 45-50 mil votos no estado e base crescente em Santarém. Sua saída libera esse eleitorado — evangélico, interiorano, conservador — para ser disputado por outros candidatos. Nélio Aguiar e João Pingarilho, que concorrem ao estadual disputando parcialmente o mesmo nicho, seriam os mais beneficiados. JK do Povão, que tem o eleitorado evangélico de Santarém como um de seus pilares, enfrenta dinâmica mais complexa.
Ao mesmo tempo, Dayan Rocha — irmão de Erlon Rocha e pré-candidato ao estadual pelo Avante, o mesmo partido de Josué —, ficaria numa posição delicada: o partido entrou na chapa majoritária, mas perde seu principal nome no estadual e puxador de votos natural. É a equação que nenhum analista de candidatura pode ignorar.
Os outros dois nomes — e o que eles representam
Além de Dirceu e Josué, circulavam nos bastidores mais dois nomes: o pastor Samuel Câmara, dos Republicanos, e a deputada federal Andreia Siqueira, do PSB. Samuel Câmara representa uma terceira via evangélica — não da Assembleia de Deus, mas com trânsito no campo pentecostal mais amplo. Andreia Siqueira representa o campo feminino progressista do interior — eleita com 125.004 votos para o federal em 2022, base em Tucuruí e região.
Cada um desses nomes resolve um problema e cria outro. Não existe candidato a vice que satisfaça todos os campos ao mesmo tempo. Helder sabia disso — e é exatamente por isso que a decisão foi deixada para o último momento possível: a convenção.
O que estava em jogo de verdade
Esta coluna tem insistido, ao longo de meses, que as eleições se decidem muito antes das urnas. O debate sobre a vice de Hana é a demonstração mais clara disso em todo o ciclo de 2026. Não se trata de protocolo, de gesto de aliança ou de distribuição de espaços. Trata-se de uma decisão que afeta:
— A votação de Hana no primeiro turno, definindo se ela chega a outubro com folga ou em empate técnico com Dr. Daniel.
— A motivação do campo evangélico — o maior eleitorado organizado fora do campo progressista — para trabalhar ativamente pela candidatura governista.
— O tabuleiro do estadual no Oeste do Pará, com ou sem Josué Paiva como candidato.
— A relação do PT com o campo de Helder após a escolha, qualquer que ela seja.
O Oeste do Pará como fiel da balança — 792 mil eleitores
Há um dado que explica por que a disputa pela vice tem o Baixo Amazonas e o Oeste do Pará como protagonistas silenciosos: o Oeste paraense tem 792.593 eleitores aptos a votar em 2026, segundo o TSE. Quase 800 mil votos num cenário onde Hana e Dr. Daniel estão em empate técnico nas pesquisas — 36% a 35% num eventual segundo turno. Matematicamente, o eleitorado do Oeste pode ser a diferença entre governar e perder.
Não por acaso, os dois lados estão olhando para o Oeste. Na chapa de Hana, Josué Paiva (Avante) representa o Oeste com base em Santarém e domicílio eleitoral firmado na cidade. Na chapa de Daniel Santos, os bastidores apontam Renata Fonseca (PL/Oriximiná) como uma das opções mais fortes para cumprir o requisito de representatividade regional. Ao lado dela aparecem Ellayne D’Almeida (PL/Itaituba) e Eliane Lima (PL/Tucuruí). São três nomes do interior, todos do PL — o partido de Éder Mauro, candidato ao Senado na mesma chapa.
O precedente histórico justifica essa disputa. Santarém já emplacou dois vice-governadores consecutivos: Odair Santos Corrêa, que governou ao lado de Ana Julia Carepa entre 2007 e 2011, e Helenilson Pontes, que exerceu o cargo no segundo mandato de Simão Jatene entre 2011 e 2014. Em ambos os casos, o candidato ao governo venceu com vice do Baixo Amazonas. A correlação estratégica existe — e os dois campos políticos de 2026 a conhecem.
O interesse cruzado dentro do PT — o detalhe que poucos analisaram
Há uma camada adicional nessa disputa que praticamente nenhum analista está cobrindo. A pressão de Beto Faro pela indicação de Dirceu Ten Caten como vice de Hana não foi apenas estratégia de campo progressista. Segundo análises de bastidores, Beto articulou a indicação também para remover Ten Caten da disputa federal — onde ele concorreria diretamente com candidatos do próprio círculo familiar do senador. Se Dirceu vai para a vice, ele sai do estadual. Libera espaço. É uma manobra dentro de uma manobra — o PT nacional negociando uma coisa, Beto Faro resolvendo outra ao mesmo tempo.
Esse tipo de interesse cruzado é exatamente o que torna a política de alianças tão complexa — e tão reveladora de como as decisões são de fato tomadas. A chapa que o eleitor vê na urna em outubro é o resultado de dezenas de negociações paralelas, cada uma com sua própria lógica e seus próprios beneficiários e interesses.
Esta noite, no Mangueirinho, a convenção do MDB vai responder a essa pergunta. A esta coluna não cabe antecipar o resultado — cabe mapear o que está em jogo. E o que está em jogo é mais do que um nome numa chapa. É a definição de qual eleitorado Helder aposta como fiel da balança para vencer Dr. Daniel: o progressista do PT ou o evangélico.
O que a semana ensina sobre a política paraense
Independentemente de quem for escolhido hoje no Mangueirinho, a semana de 25 a 31 de julho de 2026 já ficou registrada como um dos episódios mais reveladores da política paraense em anos recentes. Um acordo anunciado numa sexta-feira e contestado num domingo. Uma denominação religiosa convocando reunião de emergência em menos de 24 horas. Uma decisão que mobilizou evangélicos, progressistas, ruralistas e políticos do interior simultaneamente.
E tudo isso antes da campanha oficial começar.
Esta coluna alertou na semana passada: na política paraense, até a noite da convenção tudo pode acontecer. Aconteceu. E a resposta que a mão invisível de Helder encontrou para essa equação — seja ela qual for — vai definir o perfil da candidatura governista por todo o segundo semestre.
O peso da história — o feito que só dois conseguiram
Há um dado histórico que dá uma dimensão diferente a tudo o que está sendo decidido esta noite no Mangueirinho. Desde a redemocratização, apenas dois governadores do Pará conseguiram eleger seus sucessores: Jader Barbalho, que em 1986 apoiou Hélio Gueiros — e Almir Gabriel, que em 2002 apoiou Simão Jatene, então com apenas 2% das pesquisas, e o levou à vitória carregado pela máquina pública. Todos os outros tentaram e falharam.
A lista dos que não conseguiram é longa e ilustre. Hélio Gueiros apoiou Sahid Xerfan em 1990 — perdeu para o próprio Jader que voltou. Jader apoiou Jarbas Passarinho em 1994 — perdeu para Almir Gabriel. Simão Jatene apoiou Almir de volta em 2006 — perdeu para Ana Julia Carepa. Ana Julia disputou a reeleição em 2010 — perdeu para Jatene. Jatene apoiou Márcio Miranda em 2018 — perdeu para Helder Barbalho.
Em 2026, Helder tem a chance de ser o terceiro. E o paralelo que a história oferece é precisa demais para ignorar: assim como Jader Barbalho saiu do governo em 1994 para disputar o Senado e apoiou seu candidato ao executivo, Helder saiu do governo em 2025 para disputar o Senado e apoia Hana Ghassan. O pai tentou e não conseguiu. O filho tem a oportunidade de fazer o que o pai não fez — e de repetir o feito que o próprio Jader só conseguiu no seu primeiro mandato, quando era governador em exercício.
O precedente de 2002 é o espelho mais preciso. Simão Jatene começou a campanha com 2% de intenção de voto e chegou ao governo carregado pela máquina de Almir Gabriel. Hana Ghassan parte de 24% num empate técnico com Daniel Santos. A distância é menor, a competição é mais acirrada — mas a lógica é a mesma. O governador que sai constrói a candidatura do sucessor com os instrumentos que o cargo oferece. A escolha do vice é o primeiro e mais visível desses instrumentos.
Política é gestão. E gerir uma coalizão tão ampla, tão diversa e tão cheia de interesses conflitantes, sem perder nenhum dos pedaços, é o maior teste de habilidade política que qualquer gestor pode enfrentar. Helder Barbalho está no teste agora. Esta noite saberemos se a mão invisível encontrou o equilíbrio. E em outubro saberemos se a escolha estava certa.
*Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.



Essa jogada de mestre vai ser bem cautelosa, mais Hélder Barbalho com experiência e eficiência no campo politico, sabe muito bem o que decidir, pois são dois partidos de grande influência, mais com eleitores de visões diferentes também, mais que no final algum acordo será resolvido para não haver percas!