AIRTON FALEIRO E O RISCO QUE VEM DE DENTRO: A MATEMÁTICA CRUEL DA ELEIÇÃO PROPORCIONAL
Por Fábio Maia
Há candidatos que perdem para o adversário. Há candidatos que perdem para o próprio partido. Airton Faleiro corre o risco de pertencer ao segundo grupo em 2026 — e entender por que exige uma análise que vai além das pesquisas de intenção de voto.
Esta coluna já analisou em detalhe como funciona o sistema proporcional. Mas o caso de Faleiro é um dos exemplos mais didáticos de como um deputado com mandato, com produção legislativa reconhecida e com base eleitoral histórica em Santarém pode perder uma vaga sem que nenhum adversário externo precise crescer muito. Às vezes, basta que alguém apareça dentro de casa.
Uma trajetória que explica o momento
Airton Faleiro tem uma das carreiras mais longas da política paraense. Quatro mandatos como deputado estadual — 2002, 2006, 2010 e 2014 — antes de dar o salto para o federal em 2018. A trajetória é consistente, mas os números já davam sinais importantes antes mesmo da migração para Brasília.
Em 2002, estreou na Alepa com 20.023 votos. Em 2006, praticamente estabilizou com 19.948. Em 2010, viveu seu melhor momento estadual com 32.893 votos. Em 2014, foi reeleito com 32.827 — queda nominal pequena, mas com um detalhe revelador: sua cidade mais votada naquele ano não foi Santarém, e sim Belém. Isso indicava que, mesmo antes de migrar para o federal, ele já compensava eventuais perdas na base original com votos dispersos pelo estado.
Em 2018, aproveitou a polarização nacional e a ausência de outros grandes nomes do PT no Oeste para o cargo federal, e atingiu sua maior votação histórica: 106.965 votos. Foi eleito com folga, consolidado como principal voz do partido no estado para a Câmara.
Em 2022, o quadro mudou. Faleiro caiu para 79.862 votos — uma perda de 27.103 votos em quatro anos. Mais revelador do que a queda nominal é o modo como foi eleito: não pelo quociente direto, mas pela distribuição das sobras. Em linguagem simples: foi eleito porque Dilvanda Faro (150.065 votos) puxou votos suficientes para que a média do PT garantisse uma segunda vaga. Sem o desempenho de Dilvanda, Faleiro poderia ter ficado de fora.
Em Santarém, sua cidade mais votada em 2022, obteve 12.458 votos. Para um deputado federal incumbente com 24 anos de vida pública e que se apresenta como o principal representante do campo progressista no Oeste do Pará, esse é um número que pede análise cuidadosa.
O sistema proporcional e a armadilha da média
Para entender o risco de 2026, é preciso entender a diferença entre ser eleito pelo quociente e ser eleito pela média.
No sistema proporcional brasileiro, cada partido ou federação precisa atingir o quociente eleitoral para garantir vagas diretas. No Pará, esse número ficou em torno de 266.000 votos por vaga federal em 2022. Um partido que atingir esse quociente garante uma vaga; se dobrar, garante duas; e assim por diante. As vagas que sobram são distribuídas por média — e é nessa rodada de sobras que candidatos com menos votos podem ser puxados pelo desempenho coletivo do partido.
Faleiro foi eleito nessa rodada de sobras em 2022. Isso tem uma implicação direta para 2026: qualquer variação na votação coletiva do PT no Pará — para baixo — ou qualquer redistribuição interna dos votos do partido em Santarém pode ser suficiente para que ele fique de fora da distribuição. Não é preciso que o adversário cresça. Basta que o contexto piore ligeiramente.
Biga Kalahari — o risco que vem de dentro
Em março de 2026, a executiva nacional do PT confirmou o que já circulava nos bastidores desde janeiro: Biga Kalahari, único vereador do PT eleito em Santarém e único a conseguir reeleição duplicando a votação na história do partido na cidade — passou de 1.276 em 2020 para 2.281 em 2024 —, será lançado como pré-candidato a deputado federal pelo PT.
A candidatura de Biga é, analiticamente, um fenômeno de nicho com potencial de impacto coletivo. Aos 37 anos, segunda geração de mandato no PT santareno, principal liderança LGBTQIA+ da Amazônia e com pauta que combina identidade, direitos sociais e pautas ambientais, ele representa um perfil de renovação que ativa um eleitorado específico — jovem, progressista, conectado às pautas nacionais do partido — que Faleiro nunca mobilizou com a mesma intensidade.
O problema para Faleiro não é que Biga vai ganhar. O problema é o que Biga pode fazer com os votos do PT em Santarém. Em 2022, Faleiro fez 12.458 votos na cidade — sua principal base. Se Biga capturar parcela significativa desse eleitorado progressista santareno, a votação total de Faleiro pode cair para patamares que, dentro do sistema de sobras, já não garantem a vaga. E diferente de um adversário externo que cresce em outro território, Biga compete exatamente pelo mesmo nicho eleitoral, no mesmo município, dentro do mesmo partido.
Há ainda um elemento político que amplia o impacto dessa candidatura: a proximidade entre Biga, a deputada estadual Maria do Carmo e a senhora Socorro Pena cria um ecossistema progressista em Santarém com capilaridade real. Se Maria do Carmo — que fez 18.810 votos em Santarém nas eleições estaduais de 2022 — transferir parte do seu prestígio para Biga no federal, o efeito sobre a votação de Faleiro na cidade pode ser expressivo.
A questão que o PT precisa responder
A tendência interna CNP — Construindo um Novo Pará — deliberou em fevereiro de 2026 pelo apoio à reeleição de Faleiro e pela meta de posicioná-lo “entre os mais votados do estado”. É uma sinalização de que, no plano formal, o partido não escolheu entre os dois. Faleiro e Biga estão, por ora, sendo tratados como apostas simultâneas.
Essa é exatamente a situação que mais preocupa analistas do sistema proporcional: dois candidatos do mesmo partido, no mesmo território, disputando o mesmo perfil de eleitor. Em partidos com votação coletiva robusta, isso pode funcionar — um puxa o outro. No PT do Pará, que elegeu apenas dois federais em 2022 e tem como principal puxadora uma candidata com base em Belém, a divisão interna em Santarém não amplia o quociente — apenas redistribui votos que já existiam.
A questão não é se o PT vai eleger dois deputados federais em 2026. Dilvanda Faro, com 150.065 votos em 2022 e base consolidada, é candidata natural à reeleição. A questão é se o partido vai conseguir eleger um segundo nome — e se esse segundo nome será Faleiro ou Biga.
O veredicto analítico
Airton Faleiro chega a 2026 em uma posição que poucos incumbentes desejariam: eleito pela margem, com queda consistente de votos nos últimos dois ciclos, com base local fragmentada e com um candidato do próprio partido disputando seu principal reduto eleitoral.
Isso não significa derrota. Significa risco real que precisa ser gerenciado. A trajetória de Faleiro é longa e respeitável — quatro mandatos estaduais e dois federais são uma carreira que poucos políticos do Oeste do Pará podem exibir. E a indicação da executiva estadual do partido pelo seu apoio é um ativo concreto.
Mas a política tem uma memória seletiva. O que importa em outubro é o número de votos, não o tamanho da trajetória. E a matemática do sistema proporcional — implacável e cega para carreiras — vai distribuir as vagas entre quem fez mais votos, independentemente de quem merecia mais.
Em 2026, para Airton Faleiro, o adversário mais perigoso pode não estar em outro partido. Pode estar usando a mesma sigla.
Até domingo que vem.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.



Na verdade a matemática vai ser exata para Airton Faleiro ou até mesmo para Biga , pois os mesmos vão disputar votos pelas mesmas siglas no município de Santarém, só que tem uma diferença,Airton tem outras bases fora de Santarém, que pode fazer a diferença ou até mesmo não fazer , o que pode trazer uma grande perca para o oeste do Pará !